Em busca do urso perdido — Gama Revista
COLUNA

Luara Calvi Anic

Em busca do urso perdido

Qual o caminho para habitarmos o planeta de um jeito menos danoso? Como resgatar laços com outros seres da natureza e colaborar para que nossos filhos possam também aproveitar a beleza que é este mundo

01 de Julho de 2022

Há um tempo, quando entrevistei Ailton Krenak, eu pensei assim sem pensar muito: “Esse cara tinha que ser o presidente do Brasil”. Mas aí, pensando bem, que loucura. O cabeça de terra, como ele me lembra do significado do nome de sua etnia, os Krenak, é oposto à lógica que move a política.

No nosso papo, o líder indígena e escritor falava que o homem decidiu se colocar numa posição oposta à da natureza, como se não fizesse parte dela. “Se é uma biosfera, passarinhos estão cantando, as plantas, todos os outros seres estão aí, celebrando o dia.” Enquanto nós, humanos, seguimos sugando o planeta com um canudinho de plástico.

É que tomar um refrigerante num canudinho é também uma delícia, traz açúcar, frescor, um ahhhh, que maravilha é a vida. E às vezes a gente pensa que as nossas escolhas individuais, a sua cesta de desejos da Amazon, o que você bota no seu prato, não vão contar pontos ali na conta do final do mundo. Mas então que postura escolher diante da tragédia anunciada?

O que Krenak e o neurocientista Sidarta Ribeiro, que acaba de lançar “Sonho Manifesto” (Companhia das Letras), propõem é uma revisão de valores, um twist nessa lógica acumulativa que nos move. O próprio Sidarta se considera um otimista apocalíptico, na medida em que sabe que estamos perto do fim mas também tem certeza de que temos todas as ferramentas para uma transformação – embora não seja dado que vamos usá-las nessa missão.

Nós, humanos, seguimos sugando o planeta com um canudinho de plástico

No livro ele diz que é preciso escutar o que nos ensinam os pajés, os artistas, os historiadores, os povos originários, os cientistas para sonharmos com um futuro possível. Dá caminhos para enfrentarmos a grande contradição que nos define: uma espécie que pratica o bem dentro de casa, mas não está nem aí para aqueles que não fazem parte de seu círculo. Propõe nos desprendermos de uma ancestralidade predatória e que não faz mais sentido, essa ligada ao patriarcado, à competição, à morte, à dor dos animais abatidos e dos mais fracos. E nos incita a cultivarmos o melhor de nós: o senso de cooperação, o respeito pelo outro e a capacidade de amar.

Nada disso é tarefa fácil. Confesso que não sei exatamente o que fazer para que minhas escolhas tenham alguma relevância diante dos gigantes do capitalismo que mandam no planeta, para que exista um futuro onde minha filha também possa aproveitar a beleza que é este mundo. Mas o que tiro de conclusão é que uma mudança de consciência em relação ao jeito que habitamos a terra é válida e urgente.

Aí que eu chego em um livro arrebatador, daqueles que dão saudade da narradora quando você chega na última página. Em “Escute as Feras” (Editora 34, 2021), a antropóloga Nastassja Martin compartilha sua busca para entender o encontro entre ela e um urso. A francesa vivia há meses em uma comunidade no extremo leste da Sibéria quando, ao sair sozinha pela floresta, encontra a fera e se defende com uma ferramenta de quebrar gelo. Ambos saem machucados. Esse acontecimento que alguns chamam de ataque, outros de embate ou acidente — ela prefere chamar de encontro.

Isso porque uma visão unilateral, a dela, sobre o ocorrido seria insuficiente para explicar esse entrelaçar de corpos entre ela e o urso. Já a palavra encontro contempla as partes envolvidas. É feroz a entrega da antropóloga na tentativa de considerar o lado do bicho nesse embate. “Por que nós nos escolhemos? O que tenho realmente em comum com a fera e desde quando?” Essa experiência que podia ter lhe custado a vida a modifica. “É um nascimento, pois claramente não é uma morte.”

A morte seria um desfecho esperado se alguém te contasse que uma pessoa em uma floresta abarrotada de neve tem um embate com um urso. Um urso! Mas Nastassja sai viva. Sem dois dentes, sem uma parte do maxilar e da maçã do rosto, com a perna estraçalhada e muitas cicatrizes sobre a face. Definitivamente modificada – por dentro e por fora.

Só quem está conectado com a floresta pode habitá-la sem todos os apetrechos que usamos para viver na cidade

Com a coragem que a leva aos confins do mundo para realizar suas pesquisas antropológicas e manter a “atenção cotidiana a outras vidas”, ela refuta a imagem dos humanos numa margem, animais em outra – esse distanciamento do qual trata Krenak e que tem se mostrado tão danoso para a nossa existência.

A antropóloga precisou de tempo e desprendimento da lógica vigente para descobrir o que mudou para além do seu rosto de 29 anos desde o ocorrido, e é isso que acompanhamos ao longo desse livro curto e intenso. Passados seis meses do acidente, ela volta à Sibéria e ao encontro das pessoas que lá habitam, o povo even, aquelas que “conhecem os problemas do ursos”, que “sabem que não são as únicas a viver, sentir, pensar, escutar a floresta” .

No fundo dos bosques congelados, em um frio glacial de -40 °C, ela escolhe parar de fritar o cérebro e se deixa levar pela rotina desse lugar, em que a vida se organiza para que seus habitantes possam se manter vivos durante o inverno. Uma sobrevivência atrelada ao entorno, à vida em comunidade.

Me chama atenção quando ela diz que um de seus amigos dessa região viaja para a selva levando nada além da roupa do corpo. Só quem está conectado com a floresta pode habitá-la sem todos os apetrechos que usamos para viver na cidade. Temos muito a reaprender com Ailton cabeça de terra e seu povo se quisermos resgatar o que temos de melhor. Será difícil como um embate com um urso, mas já passou da hora.

Luara Calvi Anic é jornalista, editora-chefe da Gama revista. Foi livreira, editora de cultura e comportamento da ELLE e de outros títulos da Editora Abril, repórter da Trip/Tpm e colaborou com Folha de S.Paulo e Marie Claire. Atualmente, cursa mestrado em ciências da comunicação pela ECA-USP

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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