Bebemos como nossos pais? — Gama Revista
COLUNA

Isabelle Moreira Lima

Bebemos como nossos pais?

O vinho branco meio doce alemão da garrafa azul é a lembrança que dói mais

07 de Julho de 2023

“Como Nossos Pais” sempre foi um dos meus hits favoritos de karaokê. Quando ouço a música com atenção em momentos menos catárticos, me impressiono com a precisão da mensagem, que é tão triste, mas tão verdadeira também. Agora ela voltou com tudo em uma propaganda de TV, e apesar de totalmente deslocada do seu sentido original (o que era uma canção sobre fracasso geracional se transformou numa ode à harmonia familiar), me colocou a pensar em outro aspecto da passagem do tempo: aquele que diz respeito ao consumo de álcool. Ainda bebemos como nossos pais?

A geração dos meus pais, que tinham a minha idade nos anos 1970 e 1980, bebia naquela época muita cerveja e uísque e algum vinho. Começando pela primeira, era o começo da guerra entre as marcas, Brahma e Antarctica sendo as principais adversárias, mas com a participação da Malt 90, da Cerpa, da Kaiser, que cresceu graças a um garoto-propaganda simpático, e depois da Skol, que “descia redondo”. A publicidade, aliás, era o grande lance desse embate, era a principal arma das marcas, embora dissesse pouco ou nada sobre o perfil de cada bebida (que eram todas meio parecidas, do estilo pilsen). Em vez disso, as diferenças destacadas pela publicidade eram de slogan ou de clima de consumo. Mas até nisso se pareciam, considerando que usavam do expediente de garotas-propaganda cada vez mais peladas.

Hoje, essas cervejas são chamadas de “comerciais” e ainda apreciadas por uma fatia imensa da população, mas não são as únicas opções como há 40 anos. A revolução cervejeira nos apresentou uma gama maior de estilos (e até nos levou às panelas para produzi-los em casa). Agora, depois de passar a última década mergulhados no amargor das IPAs, vemos belgas, ácidas, goses e outras ganharem espaço e disputarem nossa atenção e paladar. Claro que certas long necks verdes mais comerciais ainda explodem na balada, mas agora sabemos o que elas são (lager), e qual a diferença entre elas e as outras.

Já o uísque, não sei se era uma coisa nacional, mas certamente regional, porque é uma das bebidas favoritas do Nordeste até hoje. Mas o costume local (e o dos meus pais), na Fortaleza dos anos 1970, era servi-lo com gelo de água de coco, que o tornava mais diluído e dava certa nota adocicada à bebida defumada. Fico imaginando os puristas da Escócia sabendo de uma loucura dessas. As marcas escocesas, afinal, eram as festejadas e ai de quem falasse a palavra bourbon por ali então.

Se você quiser alteração de consciência, por que não experimentar um excelente cogumelo, que vem da natureza?

Entre a minha geração, quando o assunto é destilado, o gin cresceu mais e mais, desbancou a vodca até na boate (nos 1990 era ela a rainha da mixologia), e é o favorito já há mais de dez anos. O uísque perdeu lugar na noite, mas talvez siga sendo consumido entre amigos de forma doméstica. E arrisco ainda dizer que nem só de Escócia vivem seus fãs, uma vez que o bourbon (e o Tennessee Whisky) já tem seu valor reconhecido e até marcas japonesas chegaram por essas plagas com um massivo investimento em publicidade — sempre ela…

O que chama atenção nesses anos pós-pandemia é que os destilados, que cresceram tanto com a nova onda da coquetelaria nas duas últimas décadas, em especial depois da série “Mad Men” (2007-2015), tremem nas bases com a tendência do pouco álcool. Ao mesmo tempo que vemos bebidas prontas serem comercializadas em elegantes garrafinhas de vidro com rótulos lindos e mesmo em latinhas despretensiosas, ouvimos jovens dizerem que o álcool não faz bem, que o melhor mesmo é ser saudável. Alguns mais cabeça aberta chegam a sugerir outras estratégias: se você quiser alteração de consciência, por que não experimentar um excelente cogumelo, que vem da natureza?

É esse pensamento que nos leva à última bebida da minha lista, o vinho. Afinal, talvez seja ele que melhor harmonizou com a turma do cogumelo: deu uma resposta à altura, que é o retorno aos métodos pré-industriais. Sim, estou falando dele, do vinho natural, que costuma inclusive trazer — e é aqui que tudo se encaixa — menos álcool. Na Europa, são os novos bares voltados a essa vertente os mais badalados hoje. Aqui no Brasil eles começam a pipocar, mas têm ainda a barreira do preço como entrave.

Em casamentos diurnos, lembro de ver meus pais beberem Liebfraumilch em garrafa azul, o vinho branco alemão que traumatizou gerações e deixou a nobre uva Riesling, com suas notas minerais de querosene e pedra de isqueiro, com má fama para tanta gente. A coitada levou 40 anos para começar a ter o reconhecimento que merece, pois o que ficou na memória foi apenas doçura excessiva e notas de uma dor de cabeça dos diabos. Para alguns da velha guarda, porém, o trauma jamais se apagou: se eu ofereço um Riesling para o meu pai, sei que ele vai sair correndo, apesar dos problemas de locomoção que enfrenta. Mas eu e meus amigos sabemos que é um vinho que oferece complexidade e prazer na mesma medida.

Meus pais achavam também que vinho brasileiro era “ruim” naqueles anos de transição política e compravam caixas de um tinto francês cujo nome não lembro, mas talvez fosse algo do tipo “Pierrot”, com a letra gótica característica de Châteauneuf-du-pape, o maior must da época. Isso, de certa forma, continua. Muita gente acha que tinto é melhor que branco, muita gente prefere francês, muita gente ainda tem preconceito com o vinho brasileiro. Mas quem acompanha o surgimento de novos e pequenos produtores no país e vê nomes nem tão pequenos assim se consolidando entende que tem muita coisa boa sendo feita em diferentes partes do país. O vinho brasileiro cresceu e está aparecendo, é importante se abrir para provar e conhecer o que é feito agora não só no Sul mas até no Nordeste.

E sobre tintos, bem, quem bebe muito vinho começa a ficar com o paladar cansado e quer novidade, e aí não dá pra beber só tinto. Tem que beber branco, rosé, laranja, espumante e o que mais aparecer. Para bom bebedor, não é só um tipo de vinho que basta. Mas aí eu volto ao Liebfraumilch e acho que pode ser um trauma que resiste.

Se a letra de “Como Nossos Pais” não é exatamente otimista, se ainda repetimos muitos dos erros passados e não conseguimos fugir de certas armadilhas da vida, ao menos temos a segurança de que bebemos mais variado, experimentamos mais sabores e, com sorte, com mais consciência também.

Saca essa rolha

PARA BEBER COMO NOSSOS PAIS
Vamos seguir fugindo do Liebfraumilch, mas um bom Riesling tem seu valor e vale experimentar os do Dr. Loosen, que é um dos nomes que melhor vinifica essa uva. Um bom seco é o “Dr. L” Riesling Dry Qualitatswein Trocken 2020. Se for para ir mais a la 80s, um meio-seco cai ainda melhor, e a dica é procurar pela palavra Spatlese no rótulo, que significa colheita tardia e se refere a vinhos com mais resíduo de açúcar. Mas vai ter que se preparar para desembolsar mais.

COMO NOSSOS PAIS, MAS NEM TANTO
E que tal um Riesling brasileiro? É um riesling itálico, diferente da uva da garrafa azul, mas vale! O projeto Garbo tem esse delicioso que tem passagem por madeira, o que dá uma encorpadinha na bebida.

LONGE DOS NOSSOS PAIS
Os vinhos do projeto Lazy Winemaker são feitos com muito rigor e seguindo as premissas do vinho natural. Tem tinto (bem leve e fácil), branco (um Sauvignon Blanc de acidez mais redonda e controlada, com mais corpo) e rosé (supercomplexo, meio salgado, com bastante nota de levedura).

Isabelle Moreira Lima é jornalista e editora executiva da Gama. Acompanha o mundo do vinho desde 2015, quando passou a treinar o olfato na tentativa de tornar-se um cão farejador

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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