Coluna do Fernando Luna: A vontade de mudar — Gama Revista
COLUNA

Fernando Luna

A vontade de mudar

Nesta “Antologia Profética”, versos desgraçadamente atuais sobre um arqueólogo da manhã, um Lacan distribuindo panfletos, uns garotos de Liverpool trabalhando e uma cacatua no calçadão de Copacabana

27 de Dezembro de 2021

O que não muda é a vontade de mudar

Charles Olson, 1953

Tô mais animado com o fim de 2021 do que com o princípio de 2022 – mesmo torcendo pra que alguma coisa mude, além da data.

Não tô sozinho nessa. Deu numa pesquisa que nove em cada dez brasileiros consideram 2021 um ano ruim pro Brasil. Donde se conclui que um em cada dez brasileiros tá redondamente enganado – ou, melhor dizendo, um em cada dez brasileiros tá terraplanamente enganado.

Esse incauto da estatística segue inabalável, negando as aparências, disfarçando as evidências e acreditando no fim da corrupção, na retomada em V e na terceira via.

(Talvez você tenha passado o natal com alguém assim. Saudade de quando o tio do pavê só fazia trocadilhos ruins, em vez de passar a ceia praguejando contra o STF como um Grinch do MBL ou um Scrooge do Partido Novo.)

Mas, Pollyanna Moça, recalculo o rumo dessa prosa: olhando a tal pesquisa por outro lado, são nove cidadãos certos pra apenas um errado. Provavelmente o novo recorde nacional de sensatez – batido a duríssimas penas graças à sequência de um annus horribilis atrás de outro annus horribilis, com a expectativa de mais um annus horribilis pela frente, pra gastar de vez todo meu latim.

“Acho estranho me definir como poeta”, escreveu Charles Olson, quando tava à frente do Black Mountain College, escola de arte na Carolina do Norte por onde passaram figuras como o músico John Cage, o coreógrafo Merce Cunningham e o arquiteto Buckminster Fuller. “Sou um arqueólogo da manhã”.

(Tem alguma definição mais poética que essa sobre não ser poeta?)

“Arqueólogo da manhã” faz pensar em alguém que escava o passado e, ao mesmo tempo, desvenda o futuro. Alguém capaz de olhar pra trás pra iluminar o que nem bem começou. Alguém muito poeta.

Os primeiros versos de “The Kingfishers”, do livro “In Cold Hell, in Thicket”, apontam nosso desejo permanente de mudança, que se inflama nesta época do ano. Eis a questão: mudar pra que tudo continue como está, ou mudar pra transformar tudo?

Na dúvida, feliz ano velho, feliz ano novo, feliz ano todo.

Só existe um segredo. Tudo está na cara

Paulo Leminski, 1987

Apressado como só em dezembro, cruzo com um cidadão distribuindo panfletos na esquina – e nada acontece.

Ele nem se deu ao trabalho de esticar o braço pra oferecer um folheto. Anos de terapia ensinam a não se importar tanto com a opinião dos outros, desde que, claro, os outros não sejam panfleteiros.

O panfleteiro é a medida de todas as coisas.

É um Lacan debaixo de sol, chuva, vento ou granizo – ou tudo isso ao mesmo tempo, se você tá em São Paulo –, produzindo sua identidade a partir do olhar dele. Ser ignorado por ele é não-ser. É um Paulo Leminski com uma ideia clara, esmiuçada em apenas quatro versos de “Distraídos Venceremos”. Uma espiada do verdadeiro profissional da folhetaria vale por um teste de personalidade completo — tá na cara.

Daí só haver uma coisa mais chata que ter sua caminhada interrompida por alguém oferecendo um papel que você não pediu: não ter sua caminhada interrompida por alguém oferecendo um papel que você não pediu.

Uma rejeição dessas em pleno fim de ano, quando todo mundo fica mais sensível? O que você tem contra mim? Logo você, afoito pra enfiar sua preciosa carga na mão daquele outro passante, me ignora assim?

Será que não tô vestido adequadamente pra adentrar os salões do quilo que a pandemia transformou em PF a 19,90 reais? Dá aqui esse anúncio, vou almoçar lá e quero ver me barrarem por causa de uma bermuda puída.

Esse apartamento de 40 metros quadrados, mais apertado que o paletó do César Tralli, parece muito além das minhas posses? Passa pra cá o folheto, tô a caminho duma agência da Caixa financiar esse troço em 35 anos.

(Não sei como tá por aí, mas por aqui prédios novos brotam como cogumelos depois da chuva. Infelizmente, sem qualquer efeito lisérgico-artacho-jurádico em suas fachadas, sempre desinteressantes ou horrendas.)

Compra ouro? Passou por sua cabeça que não tenho nenhum grama pra vender? Não sabe com quem tá falando, porque não falou comigo – ou entreveria minha boca de cigano. Com um pré-molar, quebro sua banca.

Quer saber, como adivinhou? Eu nem queria nada mesmo.

Escute o som da terra girando

Yoko Ono, 1963

Achava que dezembro tava corrido, até descobrir que os Beatles criaram e gravaram um disco inteirinho em apenas um mês.

E, ainda por cima, um disco dos Beatles.

Saíram do zero a “Get Back”, “The Long and Winding Road”, “Two of Us”, “I’ve Got a Feeling”, “Don’t Let Me Down”, “I Me Mine”, Across the Universe” e “Let it Be”, pra citar só as hoje clássicas – tudo isso sem trabalhar nos finais de semana, nem fazer hora extra.

Numa tarde, vemos o Paul encasquetado ao piano, sem conseguir resolver um arranjo. Diz que cansou e decide ir embora. John brinca, meio colega de firma, meio tio do pavê: “Só trabalha em horário comercial?”

O documentário “The Beatles: Get Back” é um impensável épico minimalista.

Nada de elenco grandioso, cenários sublimes ou efeitos especiais típicos do diretor Peter Jackson. São apenas quatro garotos de 20 e tantos anos, dois estúdios e tecnologia básica pra registrar as canções.

Com a gloriosa exceção das músicas e dos cigarros, tudo é contido.

George diz que tá deixando os Beatles sem elevar o tom de voz. Nessa tarde, anota em seu diário: “Levantei, fui pro estúdio, ensaiei até a hora do almoço, saí dos Beatles, voltei pra casa”.

(Lembrei da entrada mais conhecida dos diários de Franz Kafka: “Hoje a Alemanha declarou guerra à Rússia. À tarde, fui nadar”.)

Até uma obra-prima começa como quem não quer nada: Paul reclama que John tá atrasado e começa a dedilhar seu baixo pra fazer hora, enquanto George boceja e Ringo faz cara de Ringo.

De repente, não mais que de repente, algo acontece. Paul vai murmurando sons sem sentido em cima da melodia se formando, até que arrisca cantar duas palavras que entrariam pro repertório universal: “Get Back”.

(Devia ser mais ou menos isso que o papa Júlio II sentia, quando tava de bobeira no Vaticano e dava uma incerta na Capela Sistina, pra ver o Michelangelo pintando o teto.)

Mais privilegiado que o telespectador de hoje, só Yoko Ono – que acompanhou todas as sessões. Não, os Beatles não acabaram por isso. Ela só teve a sorte de estar lá, escutando o som da terra girando.

Decifra-me e me devora

Olga Savary, 1987

Era uma manhã como outra qualquer na praia de Copacabana: um stormtrooper dançava música sul-coreana, à sombra das amendoeiras sem flor.

Stormtroopers são aqueles soldados de armadura branca, quase sempre malvados, quase sempre dando tiros vermelhos à esmo, quase sempre morrendo aos borbotões. Tudo isso, claro, em “Star Wars”, franquia cinematográfica que ainda chamo de “Guerra nas Estrelas”.

Já música sul-coreana é aquilo que volta e meia ocupa os trending topics do Twitter com siglas como NCT, BTS, IVE e EXO, cujo significado e repertório me escapam. Não consegui ignorar, porém, um hino do k-pop, “Gangnam Style” – e era justamente o que embalava a coreografia espacial.

Só Copacabana, louca total e completamente louca, produz um mashup cultural assim. Só Copacabana é coqueiro, mar, banhista, algazarra, limão e mate, sem deixar de ser muito tempo atrás numa galáxia muito muito distante.

Segui meu rumo, e o som estourado do amplificador sumiu aos poucos.

Nada pessoal, só não queria interromper minha corridinha – mais pra passeio à beira-mar do que pra corrida propriamente dita, apesar do meu gestual de velocista. Mesmo sem cronômetro à mão, era fácil perceber que eu apenas me arrastava, apesar de toda a mímica de corredor.

Outro espanto de Copacabana é haver mais bicicletas fora da ciclovia do que dentro dela. Aparentemente, aos domingos os ciclistas se sentem sufocados nas pistas criadas especificamente pra eles: preferem a liberdade de ziguezaguear entre pedestres, carrinhos de bebês, cadeirantes e cacatuas.

Juro.

Outro dia, cruzei com um senhor caminhando no calçadão com uma cacatua. Ela não tava numa gaiola, o que me faria pensar numa ida ao veterinário pro check-up anual – esses bichos vivem décadas, devem se cuidar. Não. Crista empinada, desfilava empoleirada no ombro do sujeito, curtindo o sol carioca.

Nos versos da poeta Olga Savary, desejo é uma esfinge que sonha ser decifrada e devorada. Pois Copacabana nunca se deixa decifrar, mesmo enquanto devora quem se aventura por ali.

Fernando Luna é jornalista, modéstia à parte. Foi diretor de projetos especiais da Rede Globo, diretor editorial da Editora Globo, diretor editorial e sócio da Trip e um monte de coisas na Editora Abril

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

Quer mais dicas como essas no seu email?

Inscreva-se nas nossas newsletters

  • Todas as newsletters
  • Semana
  • A mais lida
  • Nossas escolhas
  • Achamos que vale
  • Life hacks
  • Obrigada pelo interesse!

    Encaminhamos um e-mail de confirmação