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Isabela Durão

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5 dicas

Como melhorar a relação das crianças com a natureza

Especialistas em pedagogia e meio ambiente indicam caminhos para que pais, mães e responsáveis ajudem os filhos a se reconectar com o mundo natural

Sarah Kelly 21 de Setembro de 2025

Como melhorar a relação das crianças com a natureza

Sarah Kelly 21 de Setembro de 2025
Isabela Durão

Especialistas em pedagogia e meio ambiente indicam caminhos para que pais, mães e responsáveis ajudem os filhos a se reconectar com o mundo natural

O contato com a natureza na infância é importante em diferentes dimensões: contribui para o desenvolvimento físico e motor — com equilíbrio, coordenação, força e resistência —, favorece a saúde mental e emocional e estimula o foco e a criatividade, além de ampliar o senso de pertencimento ao planeta Terra.

Apesar de tantos benefícios, a relação das crianças (e dos adultos) com o mundo natural tem sido prejudicada nos nossos tempos, em meio à crise climática e à dependência das telas. Oito em cada dez crianças brasileiras vivem em áreas urbanas. Muitas delas passam grande parte do tempo em espaços fechados, o que aumenta o risco de ansiedade, déficit de atenção e contribui para a chamada “epidemia” de miopia.

Esse afastamento também pode desencadear a biofobia — medo ou aversão a animais, plantas e outros elementos naturais. O fenômeno se manifesta na rejeição a insetos, na falta de interesse pelo mundo ao redor e no enfraquecimento do vínculo com o meio ambiente.

Além de prejudicar o desenvolvimento pleno dos pequenos, a desconexão representa uma ameaça à conservação da biodiversidade, já que reduz o senso de pertencimento e, consequentemente, a motivação para proteger a natureza. “A gente só cuida daquilo que conhece e gosta”, resume Maria Isabel Amando de Barros, engenheira florestal, mestre em conservação de ecossistemas e pesquisadora do programa Criança e Natureza do Instituto Alana.

Pensando nisso, Gama reuniu dicas para famílias que querem estimular a consciência ambiental das crianças.

  • 1

    Ensine pelo exemplo, compartilhe com as crianças as suas próprias experiências com a natureza –
    “O primeiro ponto fundamental é que os adultos devem se encantar com a natureza também”, sugere Lívia Ribeiro, diretora do movimento Escolas pelo Clima e especialista em Educação Ambiental e Transição para Sociedades Sustentáveis pela USP. Ela explica que as crianças são como esponjas e aprendem observando os adultos, por isso o conselho é primeiro trabalhar essa relação internamente. Para Ana Carol Thomé, pedagoga, especialista em Educação Lúdica e idealizadora do projeto Ser Criança é Natural, é preciso se dar conta, antes de tudo, de que “somos natureza e a melhor condição para a gente se desenvolver é estar com e na natureza”, diz. “Infelizmente, a sociedade nos afasta o tempo inteiro, colocando a vida em bolhas que abafam qualquer forma de vida que possa brotar entre as paredes.” Para se reconectar, você pode começar resgatando suas próprias experiências com a natureza, compartilhando com as crianças histórias de vínculo com o ambiente natural que ajudam a construir narrativas positivas sobre essa relação. E mesmo aqueles adultos que não cresceram brincando ao ar livre podem incentivar seus filhos: “Basta estudar, se permitir aprender”, aponta Suely Bloch, pedagoga e idealizadora do espaço Brincando no Pé.

  • 2

    Troque o shopping pela praça ou parque –
    Quando estiver planejando as atividades do fim de semana, que tal considerar opções de lazer ao ar livre? Elas podem até ser mais acessíveis. Substituir passeios em lugares fechados por idas a parques e praças permite que as crianças e adolescentes gastem energia, explorem o ambiente e se fascinem com o mundo ao redor. “É um direito da criança ter o contato com o encantamento, a beleza”, lembra Bloch. No dia a dia, caminhar pelo bairro ou fazer percursos a pé para a escola contribui para desenvolver o senso de pertencimento e os vínculos afetivos. Maria Isabel Barros, do Instituto Alana, sugere ao menos uma hora por dia de brincadeiras ao ar livre. “Se possível mais, uma hora já seria muito positivo.” Nas férias, acampamentos ou visitas a parques nacionais, estaduais e praias oferecem experiências enriquecedoras, com trilhas, cachoeiras e momentos de conexão com a natureza preservada. E mesmo pequenos gestos, como observar árvores, pássaros ou flores durante o trajeto diário, fortalecem o vínculo contínuo com o mundo natural. No site do projeto Ser Criança é Natural, há várias dicas para ajudar na hora da brincadeira — como esta sobre o que fazer no frio.

  • 3

    Cuidado com a superproteção. Correr riscos é importante –
    Os riscos benéficos são aqueles em que as consequências são baixas, mas os ganhos de desenvolvimento são altos, fundamentais para a autonomia, resiliência e bem-estar da criança, segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Se sujar na lama, pular de pequenos desníveis ou rolar na grama são alguns exemplos. Uma preocupação excessiva com assepsia e ou a total aversão ao perigo reduzem o repertório sensorial e limitam experiências essenciais. “É comum ver famílias dizendo muitos ‘não’ o tempo todo: ‘não corre, não pega esse graveto’”, exemplifica Barros. Lívia Ribeiro defende que o cuidado é necessário, mas pode ser melhor dosado. “Desde cedo, a criança costuma ser muito boa de calcular risco. Quem já viu um bebê tentando andar sabe que são muito bons exploradores dos próprios limites. Claro que os pais precisam se preocupar com a segurança dos filhos, mas o risco também é importante para construir resiliência, para construir a própria força do corpo e a coragem.” Para conseguir proporcionar essa maior liberdade aos seus filhos, você pode começar a entender a natureza como um ambiente de aprendizado “O que é subir numa árvore? Como ela ensina os limites corporais? Isso é muito mais do que muitos dias de escola. Se me sinto insegura, busco um lugar mais seguro, mas não devo evitar o contato por causa dos meus medos”, diz Bloch.

  • 4

    Traga a flora e a fauna para dentro de casa –
    Cultivar plantas, ter vasos ou uma mini-horta é uma forma prática de manter a conexão com a natureza mesmo em apartamentos. A SBP recomenda usar o interesse das crianças pelo processo de “semear, plantar, cultivar, colher e preparar alimentos como estratégia para promover hábitos alimentares saudáveis para toda a família, aumentando o consumo de verduras, frutas e legumes”. Além disso, atividades como a compostagem e o cultivo caseiro ajudam os pequenos a compreender os ciclos da natureza e a se sentirem parte do cuidado com o ambiente. O contato com animais domésticos, como cães, gatos ou passarinhos, também é recomendado, já que favorece a saúde e fortalece vínculos afetivos. Em todos os casos, é importante se atentar às alergias específicas a plantas e animais, garantindo que a experiência seja segura para todos.

  • 5

    Se engaje na causa ambiental na escola da criança e no bairro em que você vive –
    Acesso à natureza não é só uma questão de vontade individual, mas de direito e de política pública. Como as crianças passam boa parte do tempo na escola, esse é um dos espaços mais críticos: uma pesquisa do Instituto Alana mostrou que quase 40% das instituições de educação infantil nas capitais do país não contam com áreas verdes, ou têm espaços reduzidos. E, muitas vezes, “se as crianças não tiverem a oportunidade de brincar na natureza na escola, elas não vão brincar em lugar nenhum, naquele dia”, alerta Barros. Mesmo quando há áreas disponíveis, algumas instituições não aproveitam todo o potencial dos espaços externos. A pedagoga Ana Carol Thomé aponta que a existência de jardim não garante por si só a conexão com a natureza: “Já estive em escolas com áreas verdes lindas, mas que as crianças não usavam”. A falta de oportunidades se agrava nas periferias. Alunos que vivem em favelas e comunidades urbanas, assim como estudantes negros, são os mais afetados. É o caso das ilhas de calor: aproximadamente 35% das escolas que estão em regiões até 3,5 °C mais quentes que a média da cidade têm maioria de alunos negros, enquanto apenas 8,6% atendem majoritariamente alunos brancos. Nesse cenário, a mobilização das famílias é fundamental, defende a diretora do Escolas pelo Clima. “Todos são importantes para pensar na conexão das crianças com a natureza.” A mobilização inclui apoiar a escola do seu filho, seja perguntando sobre o tempo de recreio e sugerindo usos criativos dos espaços, seja validando práticas que deixem as crianças explorarem e voltarem para casa com o uniforme sujo. Fora da escola, o engajamento pode se dar na vizinhança. Você pode pressionar o poder público por mais parques, se mobilizar junto a outras famílias e participar da revitalização de praças ou terrenos abandonados.

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