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Reportagem

Meninos e a obsessão por músculos

Obcecados por corpos idealizados das redes sociais, adolescentes treinam exaustivamente e consomem suplementos sem indicação, aumentando casos de transtornos psicológicos, como a vigorexia

Ana Elisa Faria 30 de Março de 2025

Meninos e a obsessão por músculos

Ana Elisa Faria 30 de Março de 2025

Obcecados por corpos idealizados das redes sociais, adolescentes treinam exaustivamente e consomem suplementos sem indicação, aumentando casos de transtornos psicológicos, como a vigorexia

Eles sonham com o abdômen definido do The Rock, o muque do influenciador fitness do momento e a incrível força do Hulk. Mas, na vida real, a busca descontrolada por um padrão corporal malhado — ou trincado, ou bombado — está levando adolescentes, sobretudo os meninos, a uma obsessão que pode resultar na vigorexia. Também conhecida como dismorfia muscular, a doença, causada por uma distorção de imagem, é caracterizada pela insatisfação constante com o corpo.

Alimentado por curtidas e compartilhamentos nas redes sociais, esse transtorno psicológico cresce entre os mais jovens, que se veem franzinos e, assim, se submetem a uma rotina de treinamentos intensos e alimentação regrada, muitas vezes à base de suplementação contraindicada para a faixa etária.

Músculos na velocidade do Flash

“O adolescente, obviamente, não sabe esperar. Ele tem pressa e quer um resultado rápido na academia”, comenta a pediatra Ana Escobar, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).

A médica aponta que o problema surge quando o jovem começa a fazer uso de aditivos para acelerar o processo dos treinos, com suplementos, anabolizantes e substâncias ilícitas usadas sem qualquer supervisão profissional, aumentando os riscos de problemas relacionados tanto à saúde física quanto à saúde mental.

O adolescente não sabe esperar. Ele tem pressa e quer um resultado rápido na academia

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Segundo Escobar, a partir daí, “é preciso ver o que está acontecendo na cabeça desse indivíduo”. Outra coisa importante, de acordo com ela, é que, mesmo sem utilizar esses produtos, o garoto pode estar tão aficionado em treinar, passando horas na academia, que se priva de uma vida socialmente normal “para ficar malhando, malhando, malhando”.

“O ponto é que eles se enxergam fracos, sem músculos, mesmo quando já estão musculosos, e querem [malhar] cada vez mais”, diz Escobar. Essa percepção distorcida, alerta, pode levar à ansiedade, à depressão e a transtornos alimentares.

Super-homem: poder, força e virilidade

Especialista em adolescência, Walter Roberto Correia, professor da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo (EEFE-USP), fala que o músculo não é apenas um músculo. “Dentro dessa cultura de tradição patriarcal, machista e adultista, o músculo não é só um órgão efetor de movimento, mas uma representação de poder, força e virilidade”, observa.

Correia explica ainda que o corpo humano não pode ser visto somente como uma matéria-prima biológica porque ele também “é grávido de fantasias, anseios e desejos”. Para ele, jovens nessa fase do desenvolvimento são especialmente vulneráveis porque estão em um momento de formação, em busca constante por uma identidade.

Dentro dessa cultura patriarcal, machista e adultista, o músculo é uma representação de poder, força e virilidade

“O adolescente percebe que seu lugar no mundo depende muito da avaliação que o entorno faz do seu corpo”, ressalta Correia. E a pressão amplificada pelas redes sociais aumenta ainda mais esse conflito interno. “Há uma dificuldade de ter algum parâmetro e referências para discernir o que é interessante ou não, pertinente ou não, saudável ou patológico.”

Além disso, esse universo de plataformas como Instagram e TikTok — onde jovens a partir de 12 anos postam vídeos de competições de quem tem o maior bíceps — influencia a comparação de corpos.

Em entrevista a Gama sobre por que crianças não devem usar redes sociais, a psicóloga voluntária do Serviço de Psiquiatria da Infância e da Adolescência do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas Caroline Sorgi destacou que essa pressão social vinda das redes preza por físicos perfeitos e idealizados.

No entanto, essa perfeição irreal adoece as pessoas. Tanto que, quando indivíduos na infância e na adolescência têm contato pela tela do smartphone com esses shapes musculosos e, aparentemente, sem defeitos, “eles se comparam e se sentem insuficientes“, pontua Sorgi.

Macho man

O professor Walter Roberto Correia levanta outra questão essencial: “O mundo digital é uma grande caixa de ressonância de múltiplas narrativas, e, muitas delas, além de desencorajar o pensamento crítico, não são pautadas por formas confiáveis de conhecimento, como a ciência e a filosofia”.

É aí que meninos podem se deparar com movimentos masculinistas, disseminados aos montes na internet. Para contextualizar e aprofundar no tema, Correia volta à vigorexia que, conforme conta, é uma pauta bastante antiga.

“Ela está muito ancorada na ideia do poder do macho, implícito no mundo patriarcal e machista, que, neste momento em que vivemos, está sendo contestado. Só que essa contestação gera reações diversas no mundo, que ainda é patriarcal e machista e acredita no poder do macho, o qual um dos símbolos está no corpo com o seu vigor”, ensina.

Pode malhar, mas com indicação e supervisão

O pediatra, hebiatra e médico do esporte Getúlio Bernardo Morato Filho, membro do departamento de medicina do esporte da Sociedade Brasileira de Pediatria, enfatiza que o treinamento voltado à hipertrofia não é prejudicial na adolescência quando liberado por um especialista e bem supervisionado por um educador físico ou por um médico — como o pediatra e o fisiatra.

São esses profissionais que devem recomendar o treino ideal, indicando o limite de carga e a quantidade de exercícios por semana. “Hoje, o maior problema que existe não é o treinamento de força, mas o não acompanhamento desses adolescentes”, diz.

O especialista também destaca que é fundamental que pais ou responsáveis acompanhem o processo da musculação e conheçam o local onde os filhos treinam e o que consomem. “Para checar se o ambiente é seguro, se não há venda de anabolizantes, o que pode acontecer na academia.”

E sempre observando se o garoto não está monotemático e se isolando socialmente. A doutora Ana Escobar indica sinais claros disso, como recusar convites para encontros com familiares ou amigos para treinar.

Corporeidade nas escolas

O professor da EEFE-USP Walter Roberto Correia analisa que, além da prática da atividade de maneira saudável, a solução para a problemática que envolve adolescentes obcecados por músculos está em políticas públicas que valorizem a educação corporal nas escolas, abrangendo desde a educação física até a educação artística e as humanidades, como a literatura, a história e a sociologia.

Isso porque, elucida ele, recorrendo à filosofia, nós não temos corpo, nós somos o corpo. “Nossa existência é corporal, nossa relação com o mundo é corporal.”

“A adolescência, por conta dos seus sintomas que fazem parte desta sociedade complexa, precisa de instâncias que se ocupem desse tema tão premente, atual e relevante que é a corporeidade. Mas a família e a escola, instâncias postas para educar, estão tendo muita dificuldade”, avalia.

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