Como sair do bloqueio criativo?
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Depoimento

Como ser mais criativo?

Buscando caminhos para estimular a criatividade, Gama reúne conselhos de quem vive de criar

10 de Agosto de 2025

Como ser mais criativo?

10 de Agosto de 2025

Buscando caminhos para estimular a criatividade, Gama reúne conselhos de quem vive de criar

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    Foto: Patrícia Araujo

    “Testo todas as ideias, sem filtro, e me divirto com as coisas ruins que saem da minha cabeça”

    Clarice Lima, coreógrafa e bailarina

    “Minha dica é não tentar ser criativa e trabalhar. Criação é uma ação e nada acontece se fico na minha cama deitada em posição fetal. Experimento e testo todas as idéias, sem filtro, e me divirto com as coisas ruins que saem da minha cabeça até algo fazer sentido. Procuro diferentes referências, próximas ao interesse mas que não esteja nem muito perto nem muito longe — tem que estar a uma certa distância para obrigar a imaginação correr e dar uns pulos. Quando estou empacada ou caio em um buraco, faço uma auto-entrevista que me ajuda muito. Mas, para isso, tenho que estar disposta e pegar pesado com a entrevistada. Sonhar é sempre bom. Agora, quando não sei mesmo o que fazer, tomo um banho longo e penso em todas as mil coisas da vida. Em algum momento, entre o shampoo e o condicionador, a sinapse acontece.”

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    Foto: Vincent Bossom

    “Antes de começar, preciso demolir, amassar ou até aniquilar algo anterior”

    Jarid Arraes, escritora, cordelista e poeta

    “É o que digo no poema ‘fala oito frases e dá risadinha’. Elaborar a destruição como parte da minha criatividade se tornou um movimento muito consciente e perene. Penso que indispensável. Antes de começar, preciso demolir, amassar ou até aniquilar algo anterior. Convicções, crenças, traumas. Formas, analogias, vocabulário. Um desmoronamento é expositivo, é como um acervo aberto. Dos escombros, escolho o que faz sentido, o que resistiu. É também por isso que me sinto confortável para experimentar linguagens literárias diferentes, estou sempre quebrando o que fiz antes e usando essa matéria, que preserva algo e é, ao mesmo tempo, nova, para não me sentir obrigada a nada.”

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    Foto: Haroldo Saboia

    “Varro meu ateliê; o movimento organiza o fluxo do meu pensamento”

    Vitor Cesar, artista visual e designer gráfico

    “Quando preciso ter ideias, deixar o pensamento em fluxo ou desbloquear algum processo, o que me ajuda é fazer outras coisas que não estão exatamente ligadas à atividade que estou desenvolvendo, seja num trabalho de arte ou em algum projeto de design. Caminhar sempre me ajuda muito. Já fiz bastante isso intencionalmente. Não sei explicar bem, mas acho que alguma coisa muda no modo como percebo a cidade, o entorno, não só mentalmente, mas com o corpo, e isso ajuda a organizar as ideias. Atualmente não tenho conseguido caminhar tanto, mas algo que também me desbloqueia é varrer meu estúdio/ateliê. É interessante porque, muitas vezes, o processo não é intencional — eu preciso varrer porque caem folhas por aqui —, mas o movimento, me mexer daquela maneira, organiza o fluxo do meu pensamento.”

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    Foto: Dentsu Creative Portugal /José Maria Rebelo de Andrad

    “Quando parece que a espontaneidade criativa estanca, precisamos confiar no pensamento solto, sem roteiro”

    Andrea del Fuego, escritora

    “Criação é como uma criança antes de dormir. O resultado do dia num novelo a ser solto pela noite que vai começar. A criação é tão desperta, que o sono a protege. Parte do cérebro dorme para não cobrir sua voltagem lírica e assustadora. Entendo o espaço mental criativo como algo entre sono e vigília. Não é uma desatenção, pelo contrário, uma atenção mais ampla e focada, habilitando imagens e tons de escrita. O sono pela ausência do mundo e a vigília como concentração apurada. Hoje em dia, não acredito em bloqueio criativo. É nesse momento que o chamado para a imaginação é mais forte. Quando parece que a espontaneidade criativa estanca, precisamos confiar no pensamento solto, sem roteiro, deixar a periferia do pensamento se manifestar, aquilo que vem meio sem cor, nem voz. Não há pensamento mudo por muito tempo.”

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    Foto: Divulgação

    “Um dos momentos que eu estou muito criativa, meu momento de meditação, é quando estou correndo”

    Marcia Castro, cantora

    “Para mim, criatividade tem absolutamente a ver com pausa, com respiração, com uma desaceleração dos assuntos da rotina, dos assuntos objetivos, cotidianos, para então você entrar em outra camada de consciência e inconsciência ao mesmo tempo. É você sair da zona do automático, que a gente está o tempo inteiro muito condicionada, para atingir uma zona de inconsciente, mais fluida, onde não tem obrigação de nada, nem de horário, de tempo, de sucesso. Na verdade, a gente está na função somente de existir de um jeito mais livre e a criação vem a partir disso, dessa subjetividade mais fluida. E, para mim, um desses momentos que estou muito criativa, meu momento de meditação, é quando estou correndo. Das atividades físicas é a que eu sou mais criativa. Só que crio coisas ali e não posso parar porque se eu parar, eu paro de correr (risos). Ou então quando vou para o meio do mato e fico sem celular, sem contato com o ambiente urbano, que é meio maçante.”

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    Foto: Marcio Farias

    “Criar é errar, tentar de novo, se contradizer, se permitir mudar”

    Rodrigo França, filósofo, ator, diretor de teatro e cinema, dramaturgo e articulador cultural

    “Ser criativo é, antes de tudo, se permitir escutar o mundo com curiosidade e responder a ele com coragem. É estar atento ao que não é dito, perceber beleza onde há silêncio e desconfiar do óbvio. Criar não é ter ideias brilhantes o tempo todo, mas ter escuta, repertório e sensibilidade para transformar inquietações em linguagem. É errar, tentar de novo, se contradizer, se permitir mudar. Criatividade é o encontro entre memória, desejo e risco. E, acima de tudo, é não ter medo de ser singular num mundo que insiste em nos padronizar.”

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    Foto: Fábio Audi

    “Quando mudamos a rotina, temos um outro senso de atenção, olhamos para o mundo com mais interesse, mais presença e até mais estranheza”

    Amanda Lyra, atriz e diretora de teatro

    “São dois momentos distintos: dentro e fora da sala de ensaio. Fora, uma coisa que me ajuda muito é ver obras de arte. Principalmente outras linguagens: artes plásticas, fotografia, cinema, literatura, outras formas que vão se somando no imaginário artístico. Elas podem ser usadas como referência e remontadas de maneiras diversas. Outra coisa é sair da rotina avassaladora. Quando mudamos a rotina, temos um outro senso de atenção, olhamos para o mundo com mais interesse, mais presença e até mais estranheza. São coisas básicas: mudar de caminho, fazer coisas diferentes em horários que normalmente não se faria. Mudar a rotina também ajuda a ter mais espaço de contemplação. A criatividade vem quando se está totalmente presente. Durante os ensaios, na criação da peça ou das improvisações, para criar uma cena como atriz, é preciso ter uma concentração fluida porque você tem que estar aberto ao que pode aparecer, vir do outro. Fora de cena, criamos uma ‘pasta de referências’ de momentos e imagens, de arte e do cotidiano. E na cena, totalmente presente no processo, usamos essa pasta naturalmente.”

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    “Criatividade pra mim é sobre deixar a porta sempre aberta pro que alguém, alguma coisa, lugar ou estado de espírito pode trazer a você”

    Dinho Almeida, vocalista, guitarrista e compositor na banda Boogarins

    “Óbvio que cada um tem seu jeitinho e não existe regra específica, mas eu foco muito na ideia de estar sempre disposto a aprender algo. Criatividade pra mim é sobre deixar a porta sempre aberta pro que alguém, alguma coisa, lugar ou estado de espírito pode trazer a você. Não ser cabeça-dura e não achar que sei tudo ou que já fiz tudo me dá muito gás e vontade de fazer e viver coisas novas.”

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    Divulgação

    “Dança, literatura, poesia, cinema, tudo que eu fruo durante o período de escrita e direção acaba contribuindo com alguma coisa”

    Gabriela Amaral Almeida, cineasta e roteirista

    “Eu desenho muito enquanto penso sobre personagens e situações , antes mesmo de escrever. Também corro quase todos os dias, me ajuda a focar. Quando uma história nasce na minha cabeça, tudo ao redor fica meio que ‘imantado’ por ela. Dança, literatura, poesia, cinema, tudo que eu fruo durante o período de escrita e direção acaba contribuindo com alguma coisa.”

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    Foto: Divulgação

    “O que eu coloco nos quadros são minhas memórias, aquilo que sinto sobre o que eu vivia”

    Carmézia Emiliano, artista plástica

    “Eu nasci e me criei na comunidade desde pequena. Me inspiro muito pela memória do trabalho na roça, na pescaria, ralando mandioca, fazendo farinha. Isso tudo vem das lembranças da família. O que eu coloco nos quadros são minhas memórias, aquilo que sinto sobre o que eu vivia, tudo que eu fazia. Me lembro dos homens saindo para caçar, pescar, enquanto as mulheres ficavam em casa. Eu não preciso pensar muito sobre o que vou colocar no quadro, porque pinto aquilo que está na minha cabeça. Eu desenho na tela os fantasmas dessas memórias.”

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    “Com uma prática meditativa mais firme, vejo um campo se abrindo para a criatividade intencional”

    Luiza Voll, cofundadora e diretora criativa da Contente.vc, professora e palestrante de equilíbrio emocional

    “Na minha vida, a coisa que mais funciona é estudar. Seja de maneira formal ou informal, como um estudo mais técnico até ouvir um podcast direcionado, à medida que adquiro um novo conhecimento, imediatamente vou formando outras redes de pensamento. Recentemente, me especializei em ciência das emoções e da mente, o que tem me gerado infinitos insights. Outro ponto que veio dessa especialização é a ideia de relaxar e descansar, campo que também foi dominado pelo capitalismo e pela performance — o descanso vira quase uma performance de descanso. Comentei com uma professora que estava com dificuldade de praticar a meditação formal e ela sugeriu que, em vez de falar ‘vou meditar’, eu diga ‘vou relaxar um pouquinho’. Essa pausa é diferente de maratonar uma série ou ler um livro. É acalmar a minha voz interna tão tagarela que me pressiona, inclusive a performar. Agora, com uma prática meditativa mais firme, vejo um campo se abrindo para a criatividade intencional: para que estou fazendo isso? O exercício é não seguir cada pensamento, soltar e voltar. Meditação é treino de atenção. Muitos criativos não têm problema em ter ideias, mas em concluí-las. O treino de atenção me ajuda a levar um processo criativo de cabo a rabo — como tocar piano: um dia a música sai ruim, no outro, um pouco melhor, até fluir.

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