Como relaxar?
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Ilustração de Isabela Durão

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5 dicas

Como descansar de verdade

Mais do que um desejo, o descanso é uma necessidade. Veja cinco passos para torná-lo possível no dia a dia

Sarah Kelly 07 de Dezembro de 2025

Como descansar de verdade

Sarah Kelly 07 de Dezembro de 2025
Ilustração de Isabela Durão

Mais do que um desejo, o descanso é uma necessidade. Veja cinco passos para torná-lo possível no dia a dia

Você sofre de dezembrite? O termo caracteriza o mal-estar temporal generalizado de dezembro, segundo Michelle Prazeres, fundadora do Instituto Desacelera. São pendências no trabalho, planejamentos de viagem, compras de presentes de natal — a lista de demandas do fim de ano é imensa e tudo parece urgente.

Mais do que nunca, é importante lembrar da importância do descanso, ou seja, da indução intencional de relaxamento mental ou físico, como define Bruno Colontoni, cardiologista que atua com ênfase na mudança de estilo de vida. Ele compara esses momentos de reposição de energia com a função cardíaca: “Um coração que não relaxa direito pode sofrer uma insuficiência da mesma forma e com a mesma gravidade que um coração que não contrai bem”.

Para entender como descansar em um mundo tão acelerado, confira as dicas de especialistas em saúde e comportamento consultados por Gama.

  • 1

    Tome consciência das suas possibilidades reais de descanso e saia do modo automático –
    Um primeiro passo fundamental é analisar o que está e o que não está sob o seu controle. Quando se vive em modo de sobrevivência, algumas necessidades como o relaxamento se tornam inacessíveis, reflete Michelle Prazeres. Nesses casos, seguir dicas populares (como acordar 5 minutos mais cedo para meditar) pode ser frustrante, porque transforma um momento de tranquilidade em mais uma meta de performance. Para a estudiosa da aceleração social do tempo, é crucial entender que o cansaço é um problema sistêmico. “Talvez você só vá descansar quando suas condições de vida mudarem: trabalho, salário, moradia, educação, alimentação. O descanso está ligado a outros direitos.” Ela explica que essa consciência passa por um tipo de autoavaliação honesta: “Posso tirar isso da minha vida agora? Não, porque preciso disso para sobreviver. Posso diminuir o ritmo aqui? Posso, então aqui eu consigo aliviar.” Manter os pés no chão ajuda a reconhecer o que é possível agora e a encontrar alguma paz nisso. E, se não dá para acomodar essa realidade, a autoconsciência também pode te levar a pensar em novos planos. Autor de “Viva a sua Cura” (Fontanar, 2021) e “Reaja! (No seu ritmo)” (Buzz Editora, 2025), Bruno Colontoni recomenda o gerenciamento ativo da lista de tarefas e calendário: “Boa parte das pessoas adoece pela má gestão da própria agenda. Muitas decisões acontecem no automático — nem o nosso ‘sim’ nem o nosso ‘não’ são intencionais. Quando entendemos por que de uma resposta ou outra, começamos a retomar algum controle.” Ele ressalta que descansar é essencial para a clareza de decisão e para ter um cérebro que possa tomar decisões melhores e, por isso, deve ser uma prioridade no planejamento do dia, da semana, do mês, ano e da vida como um todo.

  • 2

    Escute o seu corpo para entender qual é o descanso que faz sentido agora –
    Quanto mais cansaço você sente, mais sono precisa, certo? Errado. Em seu TEDx Talk de 2019, a médica Saundra Dalton-Smith classificou sete tipos de descanso: físico, mental, sensorial, criativo, emocional, social e espiritual. Se associamos descansar somente com dormir, negligenciamos os outros jeitos de recarregar as energias do corpo e da mente, o que pode levar ao cansaço crônico. “Quando você já acorda cansado, é sinal de que o sono não está resolvendo a sua exaustão, então talvez seja hora de recorrer a outras maneiras de se recompor”, afirma Prazeres. Diferentes tipos de cansaço exigem abordagens distintas. “Por exemplo, o burnout exige que se saia do ambiente tóxico, enquanto a sobrecarga mental requer um tempo sem ser demandado a tomar decisões.” A chave para descobrir o que você precisa é o autoconhecimento. “Cada um vai ter o seu limite em que transborda. E o mais importante é entender qual é esse limite e não passar dele”, pontua Colontoni. Ele descreve o equilíbrio entre o tamanho do desafio e as ferramentas que você tem para enfrentá-lo: quando o desafio é grande demais para suas capacidades, surge a ansiedade; quando é pequeno demais, vem o tédio; quando há um encaixe entre habilidade e tarefa, aparece a sensação de prazer e fluidez. Encontrar esse ponto é um processo que demanda paciência, mas pode ajudar a identificar hobbies e atividades físicas que realmente tragam sensação de autoeficácia e te ajudem a relaxar.

  • 3

    Treine a atenção plena e use o corpo para acalmar a mente –
    Na atual cultura de aceleração, que exige um desempenho de máquina dos indivíduos, “precisamos de um treino de voltar a ser gente”, como defende a pesquisadora e jornalista Michelle Prazeres. Para descansar por completo, ela aponta a necessidade de fugir da lógica da performance, essa mentalidade de que devemos constantemente buscar alta produtividade e alto desempenho. Na prática, exercícios de atenção plena podem ajudar: alguns dos benefícios são a ancoragem no presente, autorregulação emocional e regeneração do foco. Os especialistas recomendam utilizar as práticas de respiração profunda e meditação para cultivar o silêncio interno. Segundo Colontoni, “não adianta sair de um ambiente barulhento se, dentro de mim, ainda existe muito barulho. Nem sempre é simples induzir esse silêncio interno, que desacelera os pensamentos. Às vezes, só conseguimos fazer isso por alguns minutos. Mas, se houver regularidade, os resultados aparecem” O exercício físico também é um aliado para o descanso mental. “Isso ocorre porque atividades repetitivas e a concentração nelas induzem uma resposta de relaxamento corporal, de forma semelhante à meditação”, observa Colontoni. Além disso, atividades físicas aumentam o sono profundo, melhorando indiretamente a qualidade do sono. Alguns minutos de ioga ou de alongamentos já ajudam a aliviar tensões musculares, melhorar a circulação e reduzir as dores causadas por posturas repetitivas.

  • 4

    Faça um detox das redes e conecte com a realidade: seus amigos, a natureza, a espiritualidad –
    Com tanta tela, luz e notificação o tempo todo, é importante dar um descanso real aos sentidos. Isso pode ser tão simples quanto fechar os olhos por um minuto ou deixar os eletrônicos de lado no fim do dia. “Existem os clubes offline, espaços onde o celular é proibido. Ao viver momentos reais de desconexão, você percebe sensações como ‘senti paz’ e ‘descansei de verdade’. Com o tempo, o corpo cria atalhos para esse estado e fica mais fácil passar um período longe das telas”, conta Prazeres. Para quem trabalha resolvendo problemas, a pausa criativa pode ser ainda mais crucial: procure viver momentos ao ar livre. Hoje, os benefícios do contato com a natureza para a saúde física e mental já são comprovados. O banho de floresta, por exemplo, diminui o cortisol e a pressão arterial, e faz o corpo inteiro relaxar. No campo emocional, a relação de afeto com bons amigos, que recarregam sua bateria social, facilita o descanso efetivo: “Algumas conversas são tão positivas que produzem crescimento de autoconhecimento e resposta no relaxamento”, diz Bruno Colontoni. O cardiologista aponta a conexão com a transcendência como um pilar na medicina do estilo de vida — essa dimensão espiritual remete justamente a sentir-se parte de algo maior. O descanso espiritual pode acontecer em práticas religiosas, momentos de meditação ou atividades que envolvem a comunidade.

  • 5

    Cuide da sua higiene do sono –
    Dormir é um tipo de pausa que atua em várias dimensões. Definido como um período de inconsciência transitória e periódica, o sono diminui o metabolismo, permite que o corpo relaxe e ainda funciona como um filtro, selecionando o que deve ser processado ou descartado pelo cérebro. Quando ele é negligenciado, o impacto aparece em todas as áreas da vida. Por isso, Pedro Genta, pneumologista do Instituto do Coração do HCFMUSP e especialista em medicina do sono, recomenda algumas práticas para proteger essa dimensão do descanso. A primeira dica é cumprir a regra da transição: “Pelo menos meia hora antes de se deitar, a pessoa deve parar de trabalhar, ou de assistir a conteúdos muito estimulantes que mexem com emoções”. Para diminuir o ritmo antes de dormir, você pode ler um assunto tranquilo, não ligado a assuntos profissionais, se dedicar a um trabalho manual, como um quebra-cabeça, ou tomar um banho relaxante. Além disso, o quarto deve ser dedicado apenas ao sono. Um ambiente aconchegante e organizado ajuda o corpo a reconhecer que é hora de descansar. Evite atividades como trabalho, checagem de celular, televisão ou refeições na cama, porque elas confundem o cérebro e dificultam o início do sono. Outro ponto importante é não lutar contra a insônia. “Passar muito tempo acordado na cama tentando dormir é contraproducente, aumenta o estresse e pode agravar a dificuldade de pegar no sono.” Nesses casos, não adianta ir para a cama mais cedo: a prioridade deve ser não criar mais pressão sobre si mesmo. Genta reforça que a abordagem mais eficiente é manter a simplicidade: “A sugestão é não complicar a rotina de sono”.

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