Como lidar com a ansiedade?
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Repertório

Será que você está viciado em ansiedade?

Autor best-seller Owen O’Kane, ex-diretor de saúde mental do NHS, o SUS britânico, defende em livro que estado ansioso pode liberar mesmas substâncias químicas que as produzidas pela excitação

Isabelle Moreira Lima 22 de Março de 2026

Será que você está viciado em ansiedade?

Isabelle Moreira Lima 22 de Março de 2026

Autor best-seller Owen O’Kane, ex-diretor de saúde mental do NHS, o SUS britânico, defende em livro que estado ansioso pode liberar mesmas substâncias químicas que as produzidas pela excitação

Com os conflitos geopolíticos, a emergências climática, novas doenças que surgem do nada, crises econômicas sucessivas, a ascensão do extremismo político, o ambiente digital inseguro, as tarefas e a pressão infindáveis do trabalho, entre outros problemas dos nossos tempos, é fácil justificar que sejamos a geração mais ansiosa da história do planeta. Mas como estamos lidando com a nossa ansiedade? Como você tem lidado com a sua?

Esse é o ponto de partida do novo livro de Owen O’Kane, psicoterapeuta que foi diretor de Saúde Mental do NHS, o Sistema Nacional de Saúde do Reino Unido. Recém-lançado no Brasil pela Fontanar, “Viciado em Ansiedade” traz a pergunta-chave: você já pensou que pode ser viciado em ansiedade?

Ele diz que o estalo ocorreu durante o trabalho com um grupo de pessoas que sofrem com o distúrbio, ao comentar que todos estavam melhorando bastante de sua condição, sentiu a tensão daquelas pessoas quase como se pensassem que não estavam prontas para abrir mão da ansiedade. Um dos participantes, que se tratava também do vício em cocaína, fez a piada de que era difícil abrir mão dela, pois “era viciado”.

“São muitos os modelos e teorias reveladores sobre a ansiedade, porém seu componente viciante com frequência passa despercebido. Aqui vai um fato curioso: as substâncias químicas produzidas pelo corpo em um episódio de ansiedade são comparáveis àquelas produzidas pela excitação”, escreve o autor que revela-se ele mesmo um ansioso experiente.

 © Nicky Johnston

Com 30 anos de atuação na área de saúde física e mental, é um autor best-seller do assunto, terapeuta residente na BBC Radio 5, além de apresentar a série na BBC Maestro “Uma vida menos ansiosa”, em que ensina “ferramentas práticas para se lidar com a ansiedade em tempo real e para construir um controle duradouro sobre como impacta a sua vida.”

Veja abaixo alguns dos principais pontos que O’Kane traz sobre como lidar com o vício em ansiedade.

Quanto mais você se alinha à ansiedade e a obedece, mais viciante ela se torna

A raiz do problema

O primeiro passo para tomar as rédeas da própria ansiedade é conhecer o que o autor chama de “eu ansioso”. Ele defende que desempenhamos um papel maior do que imaginamos na manutenção da nossa própria ansiedade. “Acredito que muitas pessoas sejam viciadas no processo da ansiedade (seu eu ansioso) porque ele promete segurança, menos riscos e proteção.” É importante, portanto, reconhecer as manifestações desse eu ansioso, que vão desde sintomas físicos (dor no peito, frio na barriga, sono prejudicado) aos mentais (geração de conteúdo incessante), passando pelos sentimentos e até na energia.

É importante também saber que a ansiedade é inerente a nós e que é importante também, não apenas uma inimiga. É algo que ajuda na autoproteção, por exemplo. Por isso é fácil nos viciarmos nela e por isso é tão importante compreender esse vício.

“Esse vício é diferente dos outros porque não conta com estímulo obviamente prazeroso ou a gratificação instantânea”, ele alerta. O que ela faz é nos deixar em um estado elevado de alerta com a promessa de segurança. É como se as pessoas usassem a própria ansiedade quase como garantia de que ficarão em segurança. E isso pode se manifestar de maneira internalizada e silenciosa, não necessariamente a pessoa apresenta sintomas visíveis ansiosos.

A maior parte dos vícios em ansiedade, para O’Kane, se desenvolve em casa ou nas comunidades em que se cresce, mas fica com o sujeito para sempre se a narrativa nunca for atualizada. “Quanto mais você se alinha à ansiedade e a obedece, mais viciante ela se torna.”

O psicoterapeuta propõe ao leitor que se autoavalie para entender qual é a sua relação com a ansiedade. Reconhecer e aceitar os componentes viciantes do eu ansioso é o primeiro de seis fundamentais que são o começo de um tratamento. Depois dela, é preciso assumir a responsabilidade pelo papel que você desempenha na sua reabilitação, seguir um estilo de vida compatível com ela, relacionar-se consigo mesmo com compaixão e sem julgamentos, aceitar que não se é impotente e que a ansiedade é um estado temporário.

Rompendo com o hábito

Para desativar o alarme da ansiedade é preciso primeiro mexer no corpo, onde tudo começa. “Interromper o estado de alerta logo de início é um método poderoso para reduzir seu impacto sobre as outras maneiras com que a ansiedade de manifesta.” Curiosamente, ansiedade e empolgação são fisicamente similares. É preciso parar e perguntar a si mesmo o que se está sentindo, onde se está sentindo, para tentar interromper a ansiedade física.

O autor também reconhece que a ansiedade é emocional, ela deve ser entendida como uma emoção. “Quando se trata de ansiedade, idealmente o foco emocional deve preceder o pensamento. Prefiro lidar com emoções primeiro, em vez de confiar no pensamento como um método de ‘deixar de sentir o que se sente’.”

Trata-se de uma emoção complexa que pode nos levar a outros sentimentos: raiva e tristeza são as mais comuns, mas podemos até parecer radiantes mesmo se estivermos morrendo de medo. Isso porque, embora reais, as emoções podem ser imprecisas e desencadeadas por experiências passadas. “A ansiedade, como emoção, tem uma jornada a realizar. Seu papel é facilitá-la com compaixão. O vício está no cerne dos desafios que você enfrenta com o seu eu emocionalmente ansioso. Isso assume duas formas: o vício em evitar os sentimentos e o em se apegar demais a eles. Ambas são disfuncionais e te impedem de progredir.”

Se o medo alimenta a ansiedade, a esperança é o antídoto para ela

Desapegar de pensamentos ansiosos e se desvencilhar de comportamentos ansiosos viciantes são etapas fundamentais no tratamento do vício em ansiedade. O’Kane também propõe uma mudança de olhar do que pode ser visto como desistência para a rendição. É em vez de pensar “E se?”, pensar “Posso lidar com isso”. “Isso não deveria estar acontecendo”, se torna “O que posso aprender com isso?”. Frases como “isso é injusto” devem ser encaradas como “faz parte da vida”.

Reassumindo sua vida e se prevenindo contra recaídas

Chegando à parte final do livro, a conversa é sobre o futuro, algo que costuma nos deixar com certa ansiedade. Uma lista de “estabilizadores de estilo de vida”, útil para muitos dos pacientes do autor, abre essa seção como metas para uma vida longe do vício em ansiedade. Entre as dicas estão: tentar chegar a um equilíbrio na vida entre trabalho, diversão, propósito, descanso, recreação, criatividade, conexão e sentido; alimentar-se bem, evitando alimentos inflamatórios; exercitar-se como for possível; dormir o suficiente; reduzir a ingestão de cafeína; pedir ajuda; valorizar o que se tem, entre outras.

Reabilitação e possíveis recaídas estão no norte do autor, que sabe que a ansiedade, mesmo quando “domada” pode voltar com diferentes roupagens. “A ansiedade pode mudar de roupa, mas não está no controle. Você está. E é seu papel lidar com isso.”

Por fim, a mensagem final da importância da esperança no futuro: “Se o medo alimenta a ansiedade, a esperança é o antídoto para ela”. O’Kane chama a atenção para descobertas científicas que apontam os benefícios da esperança, que é capaz de mudar a química do cérebro, reduzindo a atividade ansiosa ao liberar endorfina e encefalina.

“A esperança se concentra em possibilidades melhores, em vez de pensar no desconforto do momento. Ela te incentiva a ter curiosidade sobre sua experiência, em vez de ser fatalista. Ela se concentra na realidade e nos fatos, em vez de pensar na catastrofização da mente”, pontua.

Produto

  • Viciado em Ansiedade
  • Owen O’Kane (trad. Lígia Azevedo)
  • Fontanar
  • páginas

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