Como lidar com a ansiedade?
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Reportagem

Ansioso para conseguir um trabalho?

Naturalmente complexa, busca por emprego vem gerando ainda mais ansiedade com mercado instável e monopólio da IA em processos seletivos

Leonardo Neiva 22 de Março de 2026

Ansioso para conseguir um trabalho?

Leonardo Neiva 22 de Março de 2026

Naturalmente complexa, busca por emprego vem gerando ainda mais ansiedade com mercado instável e monopólio da IA em processos seletivos

Ele vê a vida virar de cabeça para baixo com o anúncio de sua demissão, após a companhia à qual dedicou décadas de trabalho ser comprada por uma multinacional americana. Nos primeiros meses, a situação parece sob controle. Espera conseguir em breve outro cargo alto o suficiente para manter o cotidiano luxuoso que vive ao lado da família. Porém, após mais de um ano de busca infrutífera e bicos mal pagos, contas que se acumulam e a dificuldade de manter até sua casa, essa convicção começa a rachar, dando lugar a um quadro de desespero e ansiedade.

O trecho acima descreve a trama do filme sul-coreano “A Única Saída” (2025), de Park Chan-Wook, uma sátira das condições desumanas do mercado de trabalho contemporâneo. Mas o incômodo soa um tanto próximo demais da realidade para muita gente que hoje busca emprego ou enfrenta condições precárias de trabalho. E, se a decisão do protagonista de assassinar seus concorrentes para garantir uma vaga parece no mínimo extrema, é fato que esse cenário gera impactos reais e profundos.

Preocupações financeiras e com o trabalho estão no topo, segundo um estudo global conduzido pela Gallup no início deste ano, acima de temas como a política e a segurança. Enquanto os baixos salários e o alto custo de vida foram apontados como principais disparadores de ansiedade, com 23% do total, 10% dos entrevistados afirmaram que o mercado profissional é sua maior preocupação hoje, seja pelo desemprego ou as más condições de trabalho.

Após sofrer uma demissão em julho de 2025, o jornalista paulistano Alex Xavier, 50, foi pego de surpresa por uma realidade diferente daquela à qual estava acostumado, principalmente em relação à busca por emprego. “Além do mercado de jornalismo estar ruim, o que era óbvio, fiquei chocado com a forma como as empresas estão contratando, com a IA já muito presente dentro dos recursos humanos”, lembra. A impressão, diz, é de não saber como lidar com esse novo mundo de contratações.

O jornalista também sente que a idade pesa nas avaliações, com empresas receosas de que ele acabe pedindo um salário muito alto. Nesses oito meses em busca de emprego, as frustrações se acumulam. Numa rede como o Linkedin, quando aparecem oportunidades, as respostas negativas costumam vir de forma padronizada, mais rápidas do que o tempo que ele levou para preencher sua inscrição — certamente, um retorno automatizado por IA.

Numa rede como o Linkedin, quando aparecem oportunidades, as respostas negativas costumam vir de forma padronizada

A ansiedade por conta da IA vai além da sua influência cada vez maior nos processos de seleção. Uma pesquisa recente da NordVPN aponta que parte dos trabalhadores já enxerga seu futuro profissional ameaçado pela tecnologia. Enquanto 17% dos brasileiros temem ver seus empregos serem substituídos pela IA num futuro próximo, 27% acreditam que ela está evoluindo rápido demais.

“Você fica pensando: quando o ano virar vai melhorar, mas por enquanto ainda não melhorou”, acrescenta Xavier. “E as vagas que surgem ou não têm nada a ver com o que eu faço, ou eu não sou a pessoa que eles estão procurando. Talvez estejam buscando alguém mais jovem… Isso vai causando ainda mais ansiedade, você fica sem muita expectativa de que algo vai mudar.”

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Hoje, a saúde mental está no foco de boa parte das discussões sobre o mercado profissional, aponta a psicóloga Cris Andrada, professora do Departamento de Psicologia Social da PUC-SP com foco em questões do trabalho. Em 2025, o Ministério da Previdência registrou mais de 500 mil afastamentos no país por motivos ligados à saúde mental. “Em tempos de uberização, metas abusivas e altas pressões, temos também um aumento exponencial das denúncias de assédio moral e muito poucas políticas reais de cuidado”, afirma.

Segundo a psicóloga, vivemos numa sociedade em que o trabalho ocupa o centro da nossa vida. “De um lado, essa centralidade do trabalho e, de outro, um mundo do trabalho cada vez mais instável e volátil, onde não há uma perspectiva de segurança frente à condição de manter a vida ou pagar as contas”, diz Andrada. “Isso gera ansiedade, medo, insegurança, o que leva a um estado de alerta permanente que não é sustentável.”

De um lado, essa centralidade do trabalho e, de outro, um mundo do trabalho cada vez mais instável e volátil. Isso gera ansiedade, medo, insegurança, o que leva a um estado de alerta permanente que não é sustentável

Estar sem emprego faz disparar nossa ansiedade porque é um contexto que ameaça vários aspectos da vida: renda, estabilidade, rotina, perspectiva de futuro, relacionamentos e até nossa identidade, aponta o médico psiquiatra Fábio Corregiari, coordenador do Ambulatório de Ansiedade do Hospital das Clínicas FMUSP.

Aliás, sentir uma ponta de ansiedade num momento como esse, diz o psiquiatra, é uma reação esperada e até desejável, pois pode ter um aspecto adaptativo; ou seja, mobiliza a pessoa a buscar soluções. O problema é quando seus sintomas se mostram tão intensos que acabam se tornando paralisantes. “Pessoas com mais dificuldade em lidar com a incerteza ou com tendência a imaginar cenários catastróficos sofrem ainda mais”, avalia.

Até pior do que as avaliações e respostas padronizadas à la IA que muitos profissionais vêm recebendo é o tradicional ghosting corporativo, que deixa candidatos plantados esperando por um retorno que nunca vai chegar. Uma prática “extremamente cruel”, classifica Corregiari. “Esse silêncio aumenta a percepção de incerteza e de ausência de controle. Isso vai criando um estado de alerta ininterrupto”, considera.

Por outro lado, ouvir rejeições recorrentes também pode minar a autoestima, provocando sentimentos de insuficiência e falta de esperança. Um risco, acrescenta o psiquiatra, é esse quadro de ansiedade intensa e persistente evoluir para uma depressão, “criando um ciclo de desânimo e falta de energia que torna a recolocação ainda mais desafiadora.”

Outro fator que agrava a situação de quem sai em busca de emprego são os “sistemas de dominação ideológicos” comuns nesse mercado, segundo Andrada. A psicóloga se refere aos discursos que enfatizam a meritocracia e o empreendedorismo com frases feitas como “trabalhe enquanto eles dormem” ou “seja seu próprio patrão”, despejando sobre os ombros do indivíduo toda a responsabilidade por seu adoecimento ou suposto fracasso profissional. “Eles tendem a culpabilizá-lo pelo desemprego ou pela dificuldade de alcançar níveis de produtividade cada vez mais intangíveis.”

A força da grana

Mesmo empregado há bastante tempo, o servidor público Eraldo Pereira, 47, de Recife, chegou a sofrer com uma ansiedade constante relacionada ao trabalho, que se manifestou em sintomas físicos. “Desenvolvi uma dermatite atópica, coceiras horrorosas que incomodavam bastante. Demorou para entender que tinha um componente emocional envolvido”, conta. Na época, a ansiedade tinha a ver menos com uma insegurança sobre o cargo, e muito mais com questões financeiras.

“No serviço público, as carreiras sofrem com um achatamento salarial em que a gente não consegue nem repor a inflação”, revela Pereira, que viu a situação financeira se agravar pouco após o nascimento do filho. “Você fica imaginando como é que vai fazer para pagar as contas, para se equilibrar.”

Se muita gente que está trabalhando já sofre com esse tipo de ansiedade econômica, o problema é um dos maiores desdobramentos para quem se vê obrigado a passar muito tempo sem emprego. “Sempre, o que pesa é a percepção de risco”, explica Corregiari. “Não é a mesma experiência estar desempregado com reserva financeira e apoio familiar ou viver isso sem suporte, sendo o principal provedor da casa.”

Em primeiro lugar, esse sentimento surge por uma questão de pura sobrevivência, em especial para as classes mais baixas, em que a dependência do emprego é ainda maior. Mas há também uma preocupação em perder um estilo de vida, indica a psicóloga Valéria Meirelles, especialista em psicologia do dinheiro e colaboradora da Serasa. “Quando você está desempregado, a menos que tenha um lastro financeiro — o que é meio raro num país com tantos endividados —, vai ter que mexer no seu padrão de vida.” O que, para muita gente, significa transformar a própria identidade.

Pessoas com mais dificuldade em lidar com a incerteza ou com tendência a imaginar cenários catastróficos sofrem ainda mais

É aquela hora, portanto, de cortar passeios, cancelar a assinatura da academia e evitar compras que não sejam estritamente necessárias, o que pode ter impactos para a saúde mental. “Tem essa incerteza do futuro, e o nosso cérebro não está acostumado com vácuos. Então, é um efeito cascata”, diz Meirelles. A falta de dinheiro também pode ter consequências em outras áreas da vida. Muita gente acaba se isolando por vergonha de dizer aos amigos que não pode gastar num bar ou restaurante, dá como exemplo a psicóloga. “Tudo isso ou deprime ou causa ansiedade, abalando as estruturas da pessoa.”

E os homens reagem ao desemprego de forma bastante diversa das mulheres, aponta a psicóloga. Eles ainda hoje são bem mais exigidos dentro do contexto familiar, por conta da visão histórica como provedores do lar. Os homens lidam com essa exigência em termos de performance. Muitas vezes, tentam esconder as dificuldades, não conseguem pedir ajuda ou contam só para alguém muito próximo”.

Grito de alerta

A dificuldade de travar um diálogo franco sobre o assunto é inclusive um dos pontos que podem agravar a ansiedade que surge da falta de trabalho. Segundo Meirelles, essa é a pior hora para se afogar na culpa e se isolar do mundo ao redor. O ideal, afirma, é vencer a barreira da vergonha e se abrir com pessoas de confiança, criando uma rede de apoio capaz de trazer ideias, pensar outros cenários possíveis e até te ajudar a primorar o currículo

Num momento como esse, vale ficar atento aos sinais de que a ansiedade constante pode estar evoluindo para um transtorno. “A fixação por algum comportamento ou conduta exagerada pode ser um deles”, considera a especialista. Pode ser tanto uma irritação que perdura quanto a insistência excessiva em algum hábito, como passar muito tempo nas redes ou tentar enterrar os desapontamentos na comida.

Outro sinal de alerta é quando a ansiedade vira padrão e fica difícil relaxar, diz o psiquiatra Fábio Corregiari. “No transtorno de ansiedade generalizada (TAG), a pessoa pode ter a sensação constante de que algo ruim está prestes a acontecer ou experimentar sintomas no corpo, como tensão muscular, dores e cansaço excessivo.”

A psicóloga social Cris Andrada acredita que levar uma rotina saudável pode até ajudar, mas o fundamental mesmo é evitar o isolamento e fortalecer a rede de cuidados: “As relações sociais de apoio mútuo são cruciais: pessoas trabalhadoras que falem entre si, além das relações familiares ou comunitárias, onde você possa falar sobre suas vivências de trabalho e traçar estratégias coletivas de enfrentamento ao problema”, defende.

Corregiari lembra que a ansiedade em excesso faz pesar ainda mais esse período que já é delicado, “funcionando como um ruído que dificulta pensar com clareza e que consome uma energia fundamental.” O psiquiatra sugere se permitir sentir um pouco desse sentimento, em vez de lutar demais contra ele — mas administrando-o através de um planejamento concreto do dia a dia. Nessa rotina, ele recomenda nunca negligenciar o bem-estar. “Descanso e lazer são essenciais. Manter ou criar hobbies que tragam um senso de propósito ajuda a lembrar que você é muito mais do que seu status profissional.”

Logo que iniciou sua jornada em busca de emprego, o jornalista Alex Xavier criou uma newsletter, em parte como hobby, em parte para “encontrar um espaço onde escrever”. Ali, ele trata com ironia e humor de seu cotidiano e da sociedade em geral. O texto de estreia, aliás, descreve em detalhes a vida de quem passa uma parcela de seus dias aplicando para vagas de trabalho. E na próxima semana, ele já tem ao menos uma entrevista garantida: “Vou começar uma terapia. Tento fingir que não, mas está me afetando bastante. A incerteza do que vai acontecer, como vou estar daqui a um mês, daqui a um ano, tudo isso afeta.”

Um assunto a cada sete dias