'É uma reparação histórica' — Gama Revista
Ilustração Mariana Simonetti

‘É uma reparação histórica’

Mãe de aluna que é parte de um projeto de educação antirracista conta sobre a experiência e fala da importância do movimento

Manuela Stelzer 29 de Outubro de 2021

Milena, de 5 anos, é uma entre as 18 crianças que integram a primeira turma do projeto Travessias. A iniciativa, que busca promover a equidade social e racial na educação, atua em parceria com a escola Vera Cruz, uma instituição de classe alta na zona oeste de São Paulo. E não é a única: o movimento antirracista tem ganhado força dentro das escolas paulistanas. O Colégio Santa Cruz, o Colégio Oswald de Andrade, o Colégio Equipe, a Escola da Vila e o Gracinha também promovem iniciativas semelhantes. A premissa compartilhada é de que sem pluralidade, o ambiente escolar e todos os processos envolvidos na aprendizagem são prejudicados.

No caso do projeto Travessias, um grupo de pais e apoiadores conseguiu levantar recursos suficientes para garantir 50% da mensalidade da escola e, assim, subsidiar 18 bolsas em 2021. O Vera Cruz se comprometeu a garantir a outra metade. O movimento de captação de recursos continua, e a meta é admitir novas bolsas a cada ano, além de mantê-las até a formatura de cada aluno no Ensino Médio. Ou seja: em alguns anos, Milena e os outros 17 alunos se formarão na escola, com uniforme, material, transporte e alimentação custeados pela instituição e por pais de alunos.

Até então, Milena havia estudado na rede pública. Da creche, foi para uma EMEI (Escola Municipal de Educação Infantil), em uma unidade próxima ao Vera Cruz. A diretoria da escola contou para sua família sobre o projeto Travessias, mostrou o edital, incentivou a inscrição. E deu certo. Além de beneficiar alunos bolsistas e suas famílias, projetos que visam a equidade racial e social nas escolas querem construir algo a mais: um futuro mais justo para aqueles que foram historicamente marginalizados – e mais diverso para os que, até pouco tempo atrás, só conviviam com seus iguais.

A seguir, a servidora pública Claudia Alberto, de 37 anos, mãe da Milena, conta a Gama sobre a experiência e a importância de programas de educação antirracista.

O projeto antirracista é maior: visa a inclusão, a diversidade, a pluralidade

“Não é um mero programa assistencialista. Não é simplesmente abrir 18 vagas, colocar as crianças para que elas vejam como é legal estudar nessa escola de elite. Não é essa a questão. O projeto antirracista é maior: visa a inclusão, a diversidade, a pluralidade. As diferenças culturais e socioeconômicas estão postas, já sabíamos que esse desafio existiria. Mas é surpreendente ver a disponibilidade da comunidade escolar em nos receber, nos acolher. Surpreendente porque sei da dificuldade que é implantar um projeto antirracista. Tem sido muito, muito importante. Tanto para a Milena, quanto para nós, para a família.

O mais importante desse programa é que não se trata de uma boa ação — é uma reparação histórica. E todos ali enxergam dessa forma. Querem realmente entender o que é uma ação afirmativa, como colocar essas crianças como parte da escola. Nesse processo, todo mundo ganha e cresce. Não só nós, que agora podemos acessar algo que não teríamos condições financeiras, mas também os outros alunos, e toda a comunidade escolar. Eles recebem essa troca, a pluralidade, conhecem outras culturas.

Sempre lemos por aí como educar crianças antirracistas. E acredito que um dos pontos principais seja normalizar a pessoa preta, parda, indígena em todos os espaços. Se a criança cresce vendo o negro apenas no lugar de servir, de ser subalterno, ela mantém essa referência na vida adulta. Quando você coloca seu filho em contato com um professor negro, uma diretora, um amigo de escola que frequenta sua casa — isso normaliza a presença, e o pequeno cresce com um olhar diferente para essas questões.

Se a criança cresce vendo o negro apenas no lugar de servir, de ser subalterno, ela mantém essa referência na vida adulta

Claro que as dificuldades existem. É uma escola de quase 60 anos de existência que, pela primeira vez, tem esse contato com pessoas negras. Era uma escola que até pouquíssimo tempo atrás tinha negros para contar nos dedos das mãos. Como na maioria dos lugares elitizados, o tema da inclusão nem passava pela cabeça das pessoas. Mas agora, com todas essas discussões vindo à tona, a necessidade da diversidade veio da própria escola. Esses dias estava em uma reunião do projeto, e havia a pergunta: o que é uma educação de qualidade hoje, no século 21? O que é uma boa escola? E a resposta foi clara: uma escola plural. Que olhe para todos, para todas as histórias e perspectivas. Que seja aberta e globalizada. E não dá para construir uma escola com essas características apenas do lado dos seus iguais. O intercâmbio de realidades fica como aprendizado para todos.

 Unsplash / Mariana Simonetti

Sempre me senti muito acolhida, a Milena também. E esse acolhimento assume diversos formatos. Ele é o afeto, claro, que é muito importante, mas é também ver a equipe pedagógica trabalhando para entender as questões raciais, para não reproduzir racismo nas aulas. É também quando a escola fornece educação antirracista para as famílias. Ou quando outros tipos de conhecimento são priorizados, para sair desse ensino eurocêntrico. As crianças têm livros de história sobre a África, leem textos da perspectiva de autores negros. Tudo isso faz parte do pacote. É todo um trabalho de disponibilidade, de querer mudar.

De uns tempos pra cá, a Milena começou a dizer que quando crescer, quer ser professora do Vera. É muito simbólico, porque diz muito sobre a troca que ela tem com as professoras, com o ambiente, com os alunos, que é muito positiva, tanto que ela quer estar ali quando crescer. Tem algo da criança e da ingenuidade que gera uma abertura para conhecer uns aos outros. Ela tem feito muitos amigos. Crianças de todos os jeitos, realidades, classes sociais. Essas diferenças, para os pequenos, não são importantes. Elas estão abertas à viver, simplesmente.

O acolhimento assume diversos formatos. Ele é o afeto, claro, mas é também quando outros tipos de conhecimento são priorizados

A escola tem uma unidade ao ar livre, e quando você chega lá, a sensação é de que o mundo inteiro poderia se resumir àquele espaço. As crianças estão brincando, correndo, pulando, subindo em árvores. Todas as dificuldades do nosso mundo adulto se dissolvem ali. É como se não existisse racismo, não existisse nenhum mal, é um ambiente protegido pela infância. A Milena acessa muita coisa legal, ao mesmo tempo que está blindada das maldades, desses funcionamentos que precisamos encarar à medida que crescemos.

Minha maior alegria é a Milena estar lá, pode experimentar tudo isso. Meu filho mais novo ainda tem 4 meses. É tempo suficiente para batalhar para que o Travessias continue, e ele possa ser um aluno da escola também.”

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Este conteúdo é parte da série “Crianças e adolescentes têm direito a um futuro no presente”, que tem o apoio do Alana, organização de impacto socioambiental que promove o direito e o desenvolvimento integral da criança e fomenta novas formas de bem viver.

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