Entre a Flor e a Pistola — Gama Revista
Conversas

Entre a Flor e a Pistola

Após viralizar no Instagram com a personagem Flor Pistola, a atriz Maria Flor lança seu primeiro livro e fala a Gama sobre amor, o governo Bolsonaro e os limites entre realidade e ficção

Leonardo Neiva 28 de Abril de 2021

“Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.” Com esse aviso, a atriz, diretora e roteirista Maria Flor inicia o livro “Já Não Me Sinto Só”, sobre uma atriz chamada Maria que, na tentativa de superar uma separação, decide gravar um filme no Jalapão, no estado do Tocantins — onde a autora também esteve para as gravações do filme “Xingu” (2011).

Lançado em abril, o livro é o primeiro de sua carreira e, independentemente do aviso, faz sim confundir o que é real, baseado na vida da própria atriz, e o que é ficção. E de propósito, como admite Maria. O mote é inclusive parecido com o da Flor Pistola, personagem criada pela atriz para o Instagram em janeiro. Nos seus monólogos raivosos, cujo alvo preferencial é o governo federal — e especialmente o presidente Jair Bolsonaro —, muita gente confunde a persona de Maria com a que ela interpreta na rede social.

Depois que um de seus vídeos viralizou, ultrapassando as duas milhões de visualizações, passou a receber tanto amor quanto “hate” nas redes. Mas ela diz que a parte ruim não a afetou muito. “Num primeiro momento, fui muito atacada. Não me importei tanto, sinceramente. A energia é ruim, mas decidi não ficar vendo.”

Além do Instagram bombando, a atriz mantém no YouTube o canal Flor e Manu, onde, ao lado do marido, o também ator, diretor e roteirista Emanuel Aragão, fala sobre as dores e as delícias dos relacionamentos amorosos. Quando a pandemia permitir, ela também estará de volta à televisão com a novela “Um Lugar ao Sol”, de Lícia Manzo, que retomou as gravações em abril após um mês paralisadas.

Em entrevista a Gama, Maria Flor fala sobre sua nova aventura na literatura, a importância de ficar “pistola” e os rumos incertos da cultura no país.

  • G |Fale um pouco sobre a gênese do seu primeiro livro “Já Não Me Sinto Só”.

    Maria Flor |

    Comecei a escrever em 2017, já era uma ideia um pouco antiga. Na verdade, tinha vontade de fazer um roteiro dessa história, mas acabei desenvolvendo como um livro e achei mais legal continuar assim. Até porque um livro é uma coisa que você pode escrever solitário, né? Fazer um roteiro para daí conseguir produzir um filme é um processo que no Brasil leva dez anos. Só que fui sempre parando, porque tinha que fazer outros trabalhos no meio do caminho. Com a pandemia, consegui ter tempo de sentar e pensei: agora ou eu enlouqueço ou faço alguma coisa com esse tempo que tenho em casa. Antes, ele ficava muito interrompido. Quando voltava para trabalhar, tinha que reescrever e mexer em várias coisas. Aí achava ruim o que tinha escrito, voltava, mexia de novo. Parecia que aquilo nunca iria caminhar, sabe? Em 2020 consegui sentar, terminar e agora finalmente estou lançando.

  • G |No seu canal do YouTube, você e seu marido falam sobre relacionamentos amorosos. Usou algo dessas discussões na escrita do livro, que também é sobre amor?

    MF |

    Usei sim. Tem várias coisas ali sobre como se colocar, como existir no mundo, quem você pode inventar ser. É a história dessa mulher que se separa — a primeira grande separação da vida dela — e se vê perdida. E agora? Para onde vou? Quem eu sou sem essa relação? Quem sou eu sem esse outro olhando para mim, comprovando minha existência? E isso tem muita influência do canal, com certeza.

  • G |A protagonista se chama Maria e também é atriz. A intenção foi borrar essas linhas entre a autobiografia e a ficção?

    MF |

    Fiquei pensando muito em como escrever o livro. Escrever é um negócio difícil, você tem que criar todo um universo. E eu sabia que seria mais fácil se escrevesse sobre um que já conheço, que é o do cinema, de uma atriz tentando terminar um relacionamento, se reinventar no mundo. Pensei que isso também poderia fazer sentido para outras mulheres e pessoas que estão tentando se descobrir. E achei que, se não seria capaz de separar as duas coisas totalmente, os próprios leitores talvez também não fossem. Iam sempre ligar à minha imagem e à minha experiência como atriz. Então usei tudo isso sim. Poderia ser interessante também para que o leitor se perguntasse: será que isso aconteceu? Será que não aconteceu? Pensei muito na Fernanda Torres, uma atriz que escreve. Sempre que leio os livros dela, fico me perguntando se aquela história não é da mãe dela, do pai. Em seu último livro, que eu amo, “A Glória e seu Cortejo de Horrores” (Companhia das Letras, 2017) — aliás, é um título maravilhoso —, o tempo todo você fica assim.

  • G |No livro, você trata de alguns elementos machistas no mundo do cinema. É uma reflexão sobre a realidade da indústria ainda hoje?

    MF |

    O cinema e o audiovisual continuam sendo predominantemente masculinos. Pensando numa megaindústria como Hollywood, duas mulheres ganharam o Oscar de melhor diretora, a segunda delas só esta semana. É muito masculino. Eu tinha uma vontade sim de falar sobre isso, de apontar esse sintoma. O filme mostrado no livro é sobre mulheres… na verdade, sobre a relação de uma mãe com seu filho. E quem está escrevendo são os caras, quem vai dirigir é um cara. É também uma vontade de falar sobre o cinema como coletivo, como a ideia de que todo mundo está batalhando para produzir um plano que vai, de repente, virar um minuto dentro do filme todo. E tem ali cem pessoas tentando fazer aquilo acontecer. Acho muito bonito isso no cinema e queria falar um pouco desse universo.

  • G |Você teve algum motivo específico para ambientar a trama no Tocantins?

    MF |

    A chegada em que o cara me pega… digo, pega a personagem no aeroporto, tudo aquilo eu já tinha escrito. Quando fui gravar o filme “Xingu” (2011) no Jalapão, fiquei muito impressionada e fiz um diário da região, das coisas que fiz e vi. Era totalmente para mim, tinha a ver com o trabalho da personagem. Mas tinha essa cena e toda a minha memória desse lugar. Então me inspirei nelas.

  • G |Você tinha a intenção de subverter um pouco as expectativas do leitor ao longo do caminho ao anunciar o livro como uma história de amor?

    MF |

    Eu quis, mas acho que é sempre importante falar sobre o amor, que é o relacionamento com as pessoas na nossa vida, o que a gente troca com o outro. Sem isso, como é que a gente faz para viver? Muito difícil ser totalmente solitário, sem conexão com ninguém. Estamos sempre em relação. Tinha uma intenção também de tentar se entender no mundo, se inventar, porque na verdade é isso que vamos fazendo com nossa vida. Cada dia inventando um negócio e descobrindo o que podemos ser, fazer, o que sentimos. Acho legal que o livro não seja aquela história de amor sobre uma pessoa que vai me preencher completamente, trazer sentido para a minha vida.

  • G |A Flor Pistola é uma outra criação sua que confunde o público sobre quem é você e quem é personagem ali. Qual tem sido a recepção desde que começou o projeto?

    MF |

    Num primeiro momento, quando comecei a fazer a Flor Pistola, ela teve uma projeção muito grande. Eu não esperava viralizar já no segundo vídeo. Na verdade, foi uma coisa em que eu e o Emanuel pensamos juntos no final de 2020, imaginando o que a gente podia fazer para aproveitar melhor as redes, com algo que a gente achasse legal e interessante. E eu queria muito falar sobre política porque achava que a gente… na verdade, que eu precisava falar sobre isso. Aí fizemos o primeiro episódio, e no segundo a coisa viralizou. Recebi um monte de ataques por um lado, mas por outro foi muito bonito, porque comecei a perceber que muitas pessoas não só concordaram, mas se sentiram fazendo parte de alguma coisa, de uma comunidade. Não estou sozinha vivendo toda essa situação surreal, inacreditável. Tem mais gente vendo o que está acontecendo. Foi muito bom para mim, e é por isso que continuo fazendo. Agora faço um vídeo por semana. Fico pensando sobre o que a gente pode falar, e isso me alimenta mesmo, porque me faz estudar e ler pra caramba.

  • G |E muita gente ainda acha que é 100% você ali?

    MF |

    As pessoas não entenderam que é uma personagem porque não tem uma declaração. Não estou usando uma peruca, não estou de óculos. Só que faço uma preparação. Não apareço toda vermelha à toa, às vezes fico pulando para conseguir ficar assim. Fazemos um vídeo de 25 minutos para usar só três. Às vezes acaba o vídeo, e o Emanuel nem sempre está prestando atenção, fica no celular. E às vezes a coisa começa a pegar. Ele vai ouvindo e fala, no final: nossa, tudo isso aconteceu mesmo. Que absurdo, é realmente revoltante. Mas precisa ir puxando as coisas para enxergar a magnitude do absurdo que a gente está vivendo. Aí o vídeo vem, mas isso demora. Só que as pessoas não conseguiram fazer a distinção entre atriz e personagem, mesmo tendo uma cartela no final do vídeo, com texto, interpretação, edição. Agora já conseguem mais, porque você vai fazendo de novo e de novo, e aí a coisa vai. Num primeiro momento, fui muito atacada. Não me importei tanto, sinceramente. A energia é ruim, mas decidi não ficar vendo. Deixa o pessoal falar, deixa que a própria rede vai se organizar também. As próprias pessoas respondem. Até já respondi uma época, mas depois parei.

  • G |Hoje todo mundo tem motivos para ficar meio “pistola”? Você usa como uma válvula de escape?

    MF |

    É realmente uma forma de colocar ali uma indignação que é minha. Como todo trabalho artístico de certa forma também é. Não que seja arte o que estou fazendo com a Flor Pistola, mas o ator está sempre usando as suas ferramentas, os seus afetos no personagem. Fui também construindo com o tempo. Hoje tenho a Flor muito mais clara na minha cabeça. Fica bem mais divertido de fazer.

  • G |Como foi voltar a fazer novelas, agora com “Um Lugar ao Sol”, em meio a uma pandemia?

    MF |

    Inclusive gravei ontem. A novela ficou parada do dia 23 de março até há mais ou menos uma semana. Quando a gente começou a gravar, em janeiro, a novela estava sendo preparada havia um ano. Porque no final de 2019 tivemos a primeira reunião, e a gente ia começar em março ou abril de 2020. Aí a novela parou. Voltar foi, por um lado, muito bom, porque estava com muita saudade de trabalhar, de ir para o set, pegar o texto… Eu estava estudando a personagem e trabalhando nela havia muito tempo, então queria muito interpretá-la. Mas o protocolo da Globo é super rígido. Então, enquanto uma pessoa está de máscara em um plano, a outra fica sem. Você contracena com uma pessoa de máscara, com um acrílico no meio e distanciamento. É uma loucura porque são muitas limitações. Isso interfere no trabalho, não tem como. Ao mesmo tempo, o set ficou muito mais silencioso, mais concentrado, e a gente está fazendo menos cenas, o que faz com que tenha mais tempo. Ontem fiz uma cena em que não podia abraçar minha irmã na novela. Não podia. É muito louco porque você criou uma distância, mas é a limitação que a gente tem. Tem que ser assim. É legal, mas é difícil de gravar.

  • G |Quais são suas perspectivas para a cultura nesse cenário de crise, considerando o audiovisual e o setor como um todo.

    MF |

    Espero que o Bolsonaro caia e a CPI responsabilize as pessoas que precisam ser responsabilizadas. Não vejo nesse governo a possibilidade de nenhum tipo de incentivo. Até tem gente entrando com um processo para que a Lei Rouanet seja liberada, as pessoas vejam os editais e a coisa ande. Mas o Mario Frias é um secretário de Cultura que, pelo que sei, não está fazendo nada pela cultura brasileira. As perspectivas são muito difíceis não só para a cultura, mas para o país como um todo. As pessoas estão passando fome. Li uma matéria na Folha de S.Paulo que diz que a classe C está voltando para a miséria. Todo o progresso social que o país tinha conquistado está voltando para trás de maneira muito veloz, e isso é desesperador. Quem vai pagar a conta sempre serão os mais pobres, e a pobreza vai só aumentar. É uma tristeza para o nosso país. Não consigo entender como tem gente que ainda não consegue perceber isso. Inclusive influenciadores, jornalistas, pessoas que não entendem a gravidade do que está acontecendo…

  • G |Dá para fazer alguma coisa? Como parte da classe artística, você sente que está sob ataque?

    MF |

    Posso estar sendo muito ingênua, mas acho  que a gente pode se mobilizar desde já. A Flor Pistola é uma tentativa disso, de, através do humor, da ironia, chamar a atenção das pessoas e tentar pensar desde agora em 2022. É impressionante como influenciadores de direita são organizados nesse sentido. São máquinas de fazer conteúdo e compartilhamento. Você vê um vídeo do Caio Coppolla, e ele já chega pedindo para compartilhar, que a meta é chegar em não sei quantos mil likes. A galera é profissional. Já os artistas da esquerda estão sem saber como se colocar. Eu entendo, mas temos como fazer coisas que possam unir as pessoas, mesmo que só as de esquerda. A gente tem que fazer alguma coisa. Eu também não sei o que é, mas sinto que o outro lado é mais profissional e a gente está perdido. Ficamos tão horrorizados com tudo que está acontecendo que isso dá uma paralisada na gente

Produto

  • Já Não me Sinto Só
  • Maria Flor
  • Planeta
  • 192 páginas

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