Trecho de Livro: As entrevistas de David Foster Wallace - Gama Revista

Trecho de livro

Um Antídoto Contra a Solidão

A obra reúne entrevistas que o escritor americano David Foster Wallace, autor de “Graça Infinita”, deu ao longo da vida, revelando um personagem incomum

Leonardo Neiva 03 de Setembro de 2021

“Sou péssimo em entrevistas, e só aceito fazer se for muito coagido.” Com a fala do escritor americano David Foster Wallace (1962-2008), o professor de literatura Stephen J. Burns introduz este livro de entrevistas com o autor do célebre — e gloriosamente quilométrico — “Graça Infinita” (Companhia das Letras, 2014). Mas, se Wallace era avesso a dar seus pitacos em frente a jornalistas, “Um Antídoto Contra a Solidão” (Âiyné, 2021) demonstra que ele era um personagem muito mais interessante e envolvente do que se dava crédito — a um mesmo tempo tímido e provocador, extremamente crítico sem no entanto soar insincero ou prepotente.

O título do livro foi extraído de uma entrevista que aparece na obra, em que Wallace destaca a solidão extrema como parte da espécie humana. Segundo ele, além de abordar essa solidão, a boa literatura deve agir como um antídoto momentâneo contra ela. E é esse sentimento de estar só, se não no mundo, ao menos num determinado espaço ou tempo, que os tradutores brasileiros Caetano Galindo — a quem também coube a tarefa hercúlea de trazer “Graça Infinita” para o português — e Sara Grünhagen usam para se aprofundar na escrita do autor.

“Muitas das palavras de Wallace, nestas entrevistas, na sua ficção, são uma forma de dizer: repare nisto, preste atenção”, destaca a dupla no prefácio. Para eles, o autor foi uma espécie de vidente sobre a importância que viriam a ganhar coisas como a própria internet, a manipulação da informação e o culto da imagem. Foi também um filósofo constantemente ocupado em pensar a literatura e a arte que produzia. Como ele mesmo diz na entrevista publicada a seguir, a escrita servia para lhe apagar o tempo por algumas horas. Era o mais próximo que sentia chegar da imortalidade.

O que se pode afirmar é que Wallace foi um escritor profundamente talentoso e original, que não à toa continua sendo lido e estudado mais de uma década após sua morte. “É o modo de olhar, mais do que o objeto em si, que permanece atual”, lembram Sara e Caetano. “Ler e conversar com Wallace é, pois, uma forma de dialogar diretamente com o nosso tempo.”


David Foster Wallace: Um perfil

William R. Katovsky/ 1987

David Wallace está ajoelhado no corredor, feito um golfista que prepara uma tacada curta. Ele bate um Marlboro Light na perna da calça cinza de veludo cotelê, depois acende. Antes que o cigarro chegue até sua boca de novo, uma de suas alunas, membro de alguma sororidade, bronzeada, roliça, com uma cabeleira loura espessa, aproxima-se dele.

— Não vou conseguir ir à aula da quinta-feira —, diz ela.

De onde está, ele tem olhos contra a virilha dela, então ele se põe de pé, com o cigarro ainda a vários centímetros da boca. — Você pode repetir? —, pede.

— Não vou poder ir na quinta. Acho que peguei uma bronquite. — Os braceletes de prata que envolvem os dois pulsos da moça tinem, batem com um ruído nada musical, enquanto ela afasta a franja da testa. Inglês 210, Introdução à escrita de ficção, vai começar daqui a pouco.

— É, eu também não estou muito legal —, diz ele. — Acabei de me curar de uma pneumonia viral. Parece que todo mundo está pegando essa febre do vale.

— Que é isso?

— Febre do vale — um fungo que cresce no deserto e é transportado pelo ar. — Ele tosse.

Ela está inquieta, desconfiada. Mexe de novo na franja. — Vai piorar a minha nota se eu não vier pra aula?

Ele a olha fixamente, de cara fechada.

— Eu tenho que estar bem cedinho no aeroporto no dia seguinte, pra pegar um voo pro Havaí.

— Ah.

Alto, pálido, esquálido, com o esboço de uma barba, David usa uma camisa Brooksgate de manga comprida, vermelha e listrada, e botinas Timberland com os cadarços parcialmente amarrados

— É às cinco da manhã, o voo. — Ela está segurando um copo gigante, cheio de Coca-Cola. De um lado do copo há algo escrito: Sou uma garota materialista — os diamantes são os melhores amigos de uma garota.

— Acho que não estou entendendo. Você vai pro Havaí? Fale comigo na sala de aula. — O Marlboro nunca chega aos lábios dele. Ele o apaga de uma vez e o joga no cesto de lixo no caminho para a sala.

Os dois conversam baixinho diante da mesa dele enquanto o resto da turma vai entrando. Eles redistribuem as mesas para formar um semicírculo. Um aluno apaga conjugações de verbos franceses do quadro-negro.

Estamos no meio de março, lá fora faz trinta graus. Quase todos os alunos estão de bermuda, camiseta, sandália, blusa de alcinhas. Alto, pálido, esquálido, com o esboço de uma barba, David usa uma camisa Brooksgate de manga comprida, vermelha e listrada, e botinas Timberland com os cadarços parcialmente amarrados — provavelmente o único espécime desse tipo de calçado em toda a Universidade do Arizona.

Ele lê o caderno verde de chamada.

— Stephanie?

Nenhuma resposta.

— A Stephanie sumiu? A Stephanie é ruiva?

Nenhuma resposta.

— Brandon?

Nenhuma resposta.

— Cadê todo mundo?

Risos.

— Cory?

— Ela devia estar aqui, ela estava na aula de Ciência Política —, adianta a Garota Materialista.

— Jack?

— Presente.

Um murmúrio de alívio se espalha pela sala.

— Estou vendo que o George deu no pé — ele vai se ferrar.

Quando você escreve ficção (…), você está contando uma mentira. É um jogo, mas você precisa fazer os detalhes se encaixarem

Há vinte alunos presentes, e na hora e meia que segue eles analisam dois contos escritos pelos colegas da turma. David guia a oficina dos graduandos como um profissional calejado, dissecando, esmiuçando, delineando as falhas e os pontos fortes dos contos. — Quando você escreve ficção —, explica ele, como parte de sua análise de um conto a respeito de uma menina, seu tio e um mau-olhado, — você está contando uma mentira. É um jogo, mas você precisa fazer os detalhes se encaixarem. O leitor não quer lembrar que é uma mentira. Tem que ser convincente, ou o conto nunca decola na mente do leitor.

Engraçado, encantador, atencioso e esclarecedor, David conduz seu rebanho por entre os espinheiros e a mata cerrada da teoria literária. À exceção da Garota Materialista e de George, que chega atrasado e toma uma bronca por ficar lendo o jornal, os alunos estão hipnotizados, empolgados, prestando toda atenção, pois no que se refere à avaliação mais crua de suas habilidades mágicas de docente, a Universidade do Arizona recentemente escolheu este rapaz de vinte e cinco anos como Professor Assistente do Ano.

Quando a aula vai chegando ao fim, ele parece exausto, como um carro de corrida prestes a ficar sem combustível. Ele pesca um palito de dentes do bolso da camisa e o deixa pendurado, imóvel, no canto esquerdo da boca.

Uma campainha gagueja no corredor.

— Eu normalmente vomito até não poder mais no banheiro quando a aula acaba —, admite, depois. Estamos na cantina. “Acho que sou o tipo do sujeitinho tímido mesmo. Odeio ser o centro das atenções.” — Escolhe uma fatia grossa de torta de creme de Boston — chapado de açúcar.

Conversamos sobre outras coisas. Como ser o autor de The Broom of the System, que lançou a nova coleção de ficção americana contemporânea da Viking. O romance, escrito como uma monografia de conclusão de curso com 1.100 páginas, é o produto de uma imaginação ensandecida e talentosa. Ambientado em Cleveland, Ohio, no ano de 1990, The Broom gira em torno de Lenore Beadsman, uma confusa telefonista de 24 anos de idade, e de sua busca desesperada pela bisavó, uma protegida de Wittgenstein que inexplicavelmente desapareceu de sua casa de repouso em Shaker Heights, cujo proprietário é o grupo fabricante de comida de bebês que pertence ao pai de Lenore. No desenrolar da história, ficamos conhecendo todo um elenco de personagens hilariamente delineados: um obeso, Norman Bombardini, cuja única missão na vida é preencher o mundo inteiro com sua corpulência — o quê, é claro, acarreta comer tudo o que puder; a desbocada cacatua de Lenore; seu irmão perneta, apelidado de Anticristo, que mata tempo em Amherst dando aulas particulares para os amigos sobre temas cabeludos, como Hegel, em troca de maconha, que guarda numa gaveta embutida na prótese; e seu namorado Rick Vigorous, um falastrão inveterado cuja necessidade compulsiva de contar histórias macabras é sua forma de disfarçar o medo de ficar impotente.

A narrativa em múltiplas camadas de The Broom, assim como o seu estilo excessivamente antiminimalista, evoca o playground metaficcional de Thomas Pynchon e Robert Coover. O livro, vivo e alegre, está longe de ser uma leitura fácil ou rápida. O desafio para o leitor é atravessar o pântano de passagens escritas numa prosa densa, que tratam de enigmas metafísicos, jogos de linguagem, teorias da identidade e antinomias tantalizantes como “o barbeiro que barbeia exclusivamente aqueles que não se barbeiam”. Mas contrabalançando essa filosofia cabeça existe uma jocosidade que se embasa na cultura pop. Em que outro romance encontrar um bar temático baseado na Ilha dos Birutas, cheio de palmeiras e garçons bocós com chapéus de marinheiro que são pagos para andar trombando com todos e derramar as bebidas que servem?

O desafio para o leitor é atravessar o pântano de passagens escritas numa prosa densa, que tratam de enigmas metafísicos, jogos de linguagem, teorias da identidade e antinomias tantalizantes

“O meu maior horror nesse último ano foi a ideia de a Viking tomar prejuízo por minha causa”, diz Wallace. Ele acende o primeiro de uma série aparentemente infinita de cigarros. “Eles compraram The Broom of the System num leilão, por 20 mil dólares. Eu achava que o livro ia ser O portal do Paraíso do mercado editorial.” Ele se corrige. “Bom, na época me parecia muita grana.”

Vinte mil por um romance de estreia, mais uma leva de resenhas favoráveis, inclusive da patronesse do jornalismo literário no New York Times, Michiko Kakutani, bom… não parece pouca coisa para um aluno de pós-graduação que ainda está compondo contos no famoso programa de escrita criativa da universidade do Arizona. “Eu escrevi ‘Lyndon’ aqui”, diz ele, “mas tenho de admitir que o conto não foi muito bem recebido na oficina. Os programas de escrita criativa favorecem demais a ficção mais hermética, a parte mecânica, a artesania, a técnica, o ponto de vista, em oposição ao lado mais oculto ou espiritual da escrita — de extrair prazer do processo de criação”.

“Não me interessa a ficção que está apenas preocupada em capturar a realidade de uma maneira engenhosa. O que me emputece em boa parte da ficção de hoje em dia é que ela é simplesmente chata, acima de tudo a ficção jovem que sai da Costa Leste, e cujo objetivo é ser interessante para os yuppies mais estereotipados, e que enfatiza a moda, as celebridades e o materialismo.”

Ele faz uma pausa, percebe que estava palestrando. “Ãh”, acrescenta, encolhendo os ombros como quem não merece ser levado a sério, “mas e eu com isso?”. Afinal, são apenas as opiniões de um rapaz de 25 anos de idade. “Eu não pretendo dizer que tenho uma visão privilegiada do que anda acontecendo.” Fico procurando um vestígio de pose, de insinceridade na voz dele, mas não há como encontrá-lo.

Ele cresceu no mundo acadêmico. Seu pai é professor de filosofia na Universidade de Illinois em Champaign-Urbana, e sua mãe dá aula de retórica numa faculdade pública local. “Era uma família intelectual. Eu lembro dos meus pais lendo Ulysses juntos, em voz alta, antes de dormir. Meu pai leu Moby Dick para mim e para a minha irmã mais nova quando a gente estava com oito e seis anos de idade. Houve princípios de uma rebelião lá pela metade do romance. Imagine a gente ali — ainda remelentos — e aprendendo a etimologia dos nomes da baleia.”

“Depois, no ensino médio, as competições de tênis e o desejo desabrido pelas meninas eram meio que a minha existência toda. Se bem que a universidade alterou isso tudo.” Ele se formou em Amherst em 1985, com habilitação dupla em letras-inglês e filosofia — e com o maior rendimento acadêmico da sua turma. Sua monografia de conclusão do curso de filosofia, diz ele, não tinha nada a ver com escrita. “Ela apresentava uma solução para se lidar com a semântica e com modalidades físicas derivadas da batalha marinha de Aristóteles. Se agora é verdade que amanhã haverá uma batalha marinha, a batalha marinha de amanhã é necessária? Se agora é falso, será a batalha impossível amanhã? É uma maneira de lidar com proposições que empregam o futuro verbal na lógica modal, já que o que é fisicamente possível num dado momento é esquisito porque você precisa distinguir o tempo da possibilidade do evento da possibilidade do tempo do evento.”

Oi?

Depois da formatura, ele recusou uma oportunidade de estudar filosofia em Harvard e foi seduzido para a Costa Leste graças a uma bolsa de estudos no programa de escrita da Universidade do Arizona, que ele achou melhor que os de Iowa e da Johns Hopkins. “Escrever ficção apaga o tempo para mim”, explica ele. “Eu sento e o relógio deixa de existir por umas horas. É provavelmente o mais perto da imortalidade que eu vou chegar. Fico com medo de soar pretensioso porque todo mundo que escreve ficção está dizendo, ‘Olha isso aqui que eu escrevi.’”

Ele fez um voilà com as mãos, e aí disse, ‘Eu movo montanhas.’ Eu não esqueci essa frase. Ficção ou move montanhas ou é uma coisa chata; ou ela move montanhas ou não faz nada

Da torta resta apenas a massa de farelo de biscoito, que ele achata no prato com o garfo. Antes de levantar da mesa ele decide tentar explicar mais uma vez o que espera realizar como escritor. “Passei bastante tempo como voluntário numa casa de repouso em Amherst no verão passado. Eu estava lendo A divina comédia de Dante para um velho, o senhor Shulman. Um dia, perguntei de onde ele era. Ele disse, ‘Um pouco ao leste daqui, as Rochosas.’ Eu disse, ‘senhor Shulman, as Montanhas Rochosas estão a oeste daqui.’ Ele fez um voilà com as mãos, e aí disse, ‘Eu movo montanhas.’ Eu não esqueci essa frase. Ficção ou move montanhas ou é uma coisa chata; ou ela move montanhas ou não faz nada.”

Produto

  • Um Antídoto Contra a Solidão
  • Org. Stephen J. Burn
  • Âyiné
  • 316 páginas

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