'O Ministério da Verdade' investiga '1984', de Orwell — Gama Revista

Trecho de livro

O Ministério da Verdade

Aos 72 anos de idade e mais atual do que nunca, o livro ‘1984’, de George Orwell, entra na lupa do crítico inglês Dorian Lynskey

Leonardo Neiva 11 de Junho de 2021

POR QUE LER?

Em 1949, ano de sua publicação, um crítico questionou se a obra-prima de George Orwell, o livro “1984”, oportuno como era naquele momento, continuaria sendo tão relevante para as gerações seguintes. Passadas mais de três décadas, quando o mundo parecia distante do sombrio futuro imaginado pelo autor britânico, chegou a se cogitar a possibilidade de o livro cair no ostracismo. Hoje, em tempos de fake news e realidade distorcida, no entanto, o slogan “2 + 2 = 5” parece mais próximo de nós do que nunca.

É essa trajetória do livro pela consciência e a cultura popular que o texto introdutório de “O Ministério da Verdade” (Companhia das Letras, 2021) busca resgatar. Defensor da tese de que o romance foi o mais influente do século passado, o autor Dorian Lynskey faz uma análise aprofundada, ao longo de mais de 500 páginas, tanto da vida e carreira de Orwell quanto dos fatores que levaram à criação de “1984”, seu derradeiro trabalho.

Nos últimos anos, o livro voltou a alcançar as listas de best-sellers no Brasil e no mundo. “Não creio que o tipo de sociedade que descrevi vá necessariamente ocorrer, mas estou convencido (lembrando, claro, o fato de que o livro é uma sátira) de que algo parecido poderia ocorrer”, declarou Orwell certa vez, num raro comentário sobre o livro, publicado na revista Life. A seguir, destacamos um trecho da obra que explora como algumas das principais ideias fundamentais para a gênese de “1984” foram se formando na mente e escrita do autor.


Certa vez Orwell afirmou que 1984 “não teria ficado tão soturno se eu não estivesse tão doente”. Os indícios contam outra história. Nos últimos dias de 1945, os leitores do Tribune se viram diante de um desalentador artigo intitulado “O almanaque do velho George”. O título fora concebido para dar um ar semicômico às previsões de Orwell para 1946, que incluíam crise econômica, ressurgimento do fascismo, “guerras civis, bombardeios, execuções públicas, surtos de fome e de epidemias, e renascenças religiosas”. Feliz Ano-Novo! “Alguém poderia contestar que as minhas predições são sombrias demais”, concluía. “Mas serão de fato? Acho que vão mostrar, pelo contrário, que fui otimista demais.” Nessa mesma época, saindo de um almoço com Orwell, o poeta e crítico Herbert Read, que nada tinha de Poliana, exclamou: “Santo Deus, Orwell é mesmo um tipo deprimido!”.

Essa historieta dá a impressão de que Orwell era o sujeito mais fatalista de Londres, mas a verdade é que não detinha o monopólio sobre o pessimismo. Na introdução à edição de 1946 de Admirável mundo novo, Aldous Huxley previu uma epidemia mundial de totalitarismo, que embalaria as populações cativas por meio de drogas, promiscuidade sexual e engenharia genética. E lhe parecia que os seiscentos anos de contagem regressiva até a distopia, tal como consta do romance, haviam resultado de um otimismo excessivo: “Hoje, parece bem possível que o horror venha a nos alcançar num único século. Isto é, se conseguirmos não explodir o mundo em pedacinhos até lá”. No mesmo ano, Albert Camus escreveu que “o século XX é o século do pavor”.

Ou seja, mais do que projetando no mundo algum excêntrico tormento privado, Orwell estava amplificando um sentimento de desconforto generalizado, ocasionado pela bomba atômica. Como afirmou numa “Carta de Londres” de 1946, “nenhuma pessoa ponderada que conheço traça um quadro esperançoso do futuro”. Apesar disso tudo, continuava sendo excelente companhia. Um de seus companheiros de almoço, Michael Meyer, o considerava “o comentarista de política mais bem informado e mais esclarecedor que conheci. A conversa dele era como a sua prosa, despretensiosa, lúcida, espirituosa e compassiva”. Outro escritor, Christopher Sykes, recordou que, sempre que se encontravam, “falávamos de assuntos melancólicos — e era muito prazeroso”.

Outro escritor, Christopher Sykes, recordou que, sempre que se encontravam, ‘falávamos de assuntos melancólicos — e era muito prazeroso’

Havia algo de frenético na atividade de Orwell após a guerra. Talvez fosse o derradeiro entusiasmo como jornalista em tempo integral e como londrino, ou talvez preenchesse todas as horas para que não restasse espaço para o sofrimento. Ele trabalhava como um operário padrão, à maneira de Stakhanov, e socializava como nunca: chá em Canonbury Square com velhos amigos como Fyvel e Potts, e almoços na Fleet Street com conhecidos do mundo literário, como Malcolm Muggeridge, Julian Symons e Anthony Powell — o primeiro grupo de amigos a conhecê-lo apenas como George, e nunca como Eric. Embora exaltasse o homem comum, passava a maior parte do tempo com indivíduos incomuns. Muggeridge se recordava de um almoço animado com Orwell, Symons e outro escritor: “Todos nós éramos anticomunistas, mas por motivos distintos, e era interessante ver como discordávamos a respeito da nossa concordância”.

A despeito da aversão a grupos e comitês, Orwell aceitou se tornar vice-presidente do Comitê de Defesa da Liberdade — organizado por George Woodcock e com apoiadores politicamente diversos, dentre os quais E. M. Forster, T.S. Eliot, Bertrand Russell e Victor Gollancz —, que defendia uma anistia para todos aqueles sentenciados sob a draconiana legislação da época de guerra, fossem eles anarquistas, comunistas ou fascistas. Um leitor do Tribune acusou Orwell de ter “uma atração irresistível por causas impopulares simplesmente por serem impopulares”, mas havia anos que defendia que um ato é certo ou errado independentemente de quem o fizesse. Quando se suprime os direitos políticos dos adversários políticos, mais cedo ou mais tarde estes certamente vão agir da mesma forma. Ele tinha, portanto, imenso orgulho em dizer que, durante a guerra, defendera os direitos tanto de Oswald Mosley (uma vez que este deixara de ser perigoso) e do Daily Worker, apesar de seu intenso desapreço por ambos. Como disse a Woodcock, “ninguém deve ser perseguido por expressar suas opiniões, por mais antissociais, & nenhuma organização política suprimida, a menos que se comprove uma ameaça substancial à estabilidade do Estado”.

Orwell também tentou preencher o vazio emocional deixado pela morte de Eileen, por meio de uma série de propostas de casamento desesperadamente inaptas a mulheres mais jovens: Celia Paget, irmã gêmea da companheira de Koestler, Mamaine, e prima de Inez Holden; Sonia Brownell, protegida de Cyril Connolly na Horizon e famosa por ser atraente; e Anne Popham, a historiadora da arte que era a sua vizinha do andar de baixo. “É apenas porque às vezes me sinto desesperadamente sozinho”, disse a Popham, se desculpando por tê-la colocado numa situação constrangedora. “Tenho centenas de amigos, mas nenhuma mulher que se interesse por mim e possa me estimular.” Isso parece um tanto desprovido de romantismo, mas ainda é muito melhor do que o pedido de casamento, sombriamente pragmático, na carta que enviou em seguida: “O que na verdade estou pedindo é se você aceitaria ser a viúva de um literato”. Obviamente, Popham não se mostrou muito entusiasmada.

Assim, restava o trabalho. Orwell estava escrevendo dois ou três artigos por semana, para mais de meia dúzia de publicações. Somente quando começou a tossir sangue, resultado de uma hemorragia tubercular não diagnosticada, ele se dispôs a tirar uma semana de folga em fevereiro. A maioria das suas cartas contém queixas sobre a quantidade de trabalho (“sufocado pelo jornalismo”) e votos de largar tudo para se dedicar apenas ao livro. “Provavelmente vai dar uma trabalheira infernal no início, mas acho que com seis meses inteiros consigo superar o mais difícil”, disse a Popham.

Quando se lê tudo o que Orwell produziu entre outubro de 1945 e maio de 1946, duas coisas se destacam. Uma é que o seu estilo amadureceu de tal modo que muito pouco do que escreveu revela sinais de tensão ou de precipitação. A outra é que quase tudo, em retrospecto, parece pertinente a 1984, até mesmo no caso de frases e imagens específicas. Ele não tinha o menor problema em reutilizar uma frase bem torneada.

…quase tudo, em retrospecto, parece pertinente a 1984, até mesmo no caso de frases e imagens específicas

O livro havia então se instalado permanentemente em sua cabeça. “Em vários jantares e chás e almoços e drinques rápidos em bares, eu o ouvi expondo quase todas as ideias expressas em 1984”, lembrou George Woodcock, “embora nada soubesse do enredo até o livro ser publicado.”

Orwell não podia deixar de explorar as implicações sinistras de qualquer novo desenvolvimento. Ele se preocupava com o fato de que os conjuntos habitacionais muito necessários, que estavam sendo construídos por todo o país, podiam se tornar “colônias que poupam trabalho onde [as pessoas] vão perder muito de sua privacidade”, e descrevia os acampamentos de férias, como o de Butlin, como se pertencessem a Estados policiais, oferecendo o tipo de recreação comunitária compulsória e os exercícios regrados que afligem Winston na Pista de Pouso Um. Em “A prevenção contra a literatura”, um brilhante resumo de suas ideias sobre arte, política e a necessidade fundamental das mentiras no totalitarismo, ele recorreu aos desenhos animados da Disney para ilustrar o “processo quase industrial” por meio do qual o entretenimento massificado poderia ser produzido mecanicamente no futuro. Ainda que o exemplo possa ter sido injusto com os desenhistas de animação, isso o levou ao Departamento de Ficção no Ministério da Verdade.

Por outro lado, os elegantes e breves artigos sobre a xícara de chá perfeita, o pub ideal e o apelo meditativo de sapos se acasalando exprimiam valores que mereciam ser arrancados da boca da política: “As bombas atômicas estão se acumulando nas fábricas, a polícia patrulha as cidades, as mentiras continuam a ser despejadas de alto-falantes, mas a Terra continua a girar em torno do Sol, e nem os ditadores nem os burocratas, por mais que desaprovem o processo, conseguem impedi-lo”. A descrição que faz de uma arquetípica loja de objetos usados, numa coluna para o Evening Standard, pode ser lida como uma prefiguração da loja de Mr. Charrington, incluindo o peso de papel de coral apreciado por Winston Smith, bem como uma caneta-tinteiro, o nome Shakespeare ou a canção “Sem casca nem semente”, como provas conclusivas da vida antes do Socing.

Todos os fios estavam se juntando. “In Front of Your Nose” [“Debaixo do seu nariz”] mostra Orwell mapeando o processo do duplipensamento, ou “esquizofrenia política”: “O poder de sustentar ao mesmo tempo duas crenças que se anulam. Estreitamente aliado a isso é o poder de ignorar fatos óbvios e inalteráveis, e que terão de ser enfrentados mais cedo ou mais tarde”. Mesmo quando confrontadas com os seus erros, notou ele, as pessoas tinham uma propensão a torcer os fatos, ou abandonar as opiniões anteriores, a fim de indicar que estavam certas desde o início. “Ver o que está debaixo do nosso nariz é um esforço constante.” Orwell estava estudando as formas pelas quais as pessoas mentiam para si mesmas, sem que fossem forçadas a tanto por um Estado totalitário. A tirania precisa de cúmplices.

Mesmo quando confrontadas com os seus erros, notou ele, as pessoas tinham uma propensão a torcer os fatos, ou abandonar as opiniões anteriores, a fim de indicar que estavam certas desde o início

Woodcock notou que outra das inquietações de Orwell era “a maneira pela qual a preocupação com a liberdade e a verdade havia se deteriorado na consciência pública”. Em “A liberdade do parque”, Orwell chamava a atenção dos leitores do Tribune para a detenção por obstrução de cinco pessoas que vendiam jornais pacifistas fora do Hyde Park — um incidente menor, mas um lembrete ameaçador de algo que os cidadãos de democracias maduras tendem a esquecer: “O problema é que a relativa liberdade que desfrutamos depende da opinião pública. A lei não é nenhuma proteção”. O argumento de que as pessoas somente desfrutariam da liberdade de expressão, ou de qualquer outra liberdade, se tivessem suficiente apreço para exigi-las está por trás dos proletas em 1984, que têm um enorme poder mas não fazem uso dele.

Se o direito de falar era crucial, igualmente importante era a qualidade do que se dizia. O ensaio “A política e a língua inglesa”, que Orwell publicou em Horizon, foi usado para ensinar gerações de estudantes a escrever de forma clara. Para ser honesto, o ensaio é um tanto confuso, misturando exemplos incisivos das “falcatruas e perversões” da prosa ruim com uma miscelânea peculiar daquilo que o irritava. Até a relação entre a degradação da política e a corrupção da linguagem não é tão simples quanto faz parecer: você pode enganar usando palavras monossilábicas (Guerra é Paz) e expor uma grande verdade por meio de um clichê. Mas o que muitas vezes faz falta é a humildade de Orwell. Ele admite que as suas “regras” — na verdade, aspirações — não são impositivas e, de qualquer modo, nesse mesmo ensaio ele transgride algumas delas. Ainda assim, poucos não concordariam que “a ortodoxia, de qualquer cor, parece exigir um estilo imitativo e sem vida”, tampouco que a ponderação cuidadosa das palavras que usamos
ajuda a aprimorar as nossas ideias. Somente ao depurar a barafunda verbal é possível entender com clareza não apenas o que pensamos mas também como pensamos. O objetivo é escrever de tal modo que não seja possível mentir para si mesmo sem estar plenamente consciente de que é isto o que se está fazendo.

“Por que escrevo”, encomendado por uma revista literária trimensal de breve existência intitulada Gangrel, ajudou Orwell a definir as suas prioridades enquanto se preparava para iniciar 1984. No ensaio, ele afirma que quatro motivos principais lutam para se impor na mente de todo escritor — o ego, o entusiasmo estético, o impulso histórico e o objetivo político — e conclui que as suas melhores obras desde 1936 foram eletrizadas pelo último desses motivos. Ele escreve porque “existe uma mentira que pretendo expor, um fato para o qual pretendo chamar a atenção, e minha preocupação inicial é atingir um público”. Sem uma missão que dê um foco à sua pena, o que escreve não passa de uma bobagem desprovida de vida. E o seu romance seguinte, promete, tem uma missão. “Será fatalmente um fracasso, todo livro é um fracasso, porém tenho uma noção clara do tipo de livro que pretendo escrever.”

“Será fatalmente um fracasso, todo livro é um fracasso, porém tenho uma noção clara do tipo de livro que pretendo escrever”

Produto

  • O Ministério da Verdade
  • Dorian Lynskey
  • Companhia das Letras
  • 488 páginas

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