Trecho de Livro: Mundo Real, de Brandon Taylor — Gama Revista

Trecho de livro

Mundo Real

Finalista do Booker Prize, livro de estreia do americano Brandon Taylor apresenta um protagonista que abandona um passado indesejável, mas também se sente deslocado no presente

Leonardo Neiva 15 de Outubro de 2021

Wallace perdeu o pai há semanas, mas não contou nem aos colegas mais próximos nem fez grandes mudanças em sua rotina. Em vez de ir ao enterro, mergulhou ainda mais num cotidiano de estudos e pesquisas dentro da universidade na qual conseguiu entrar graças a uma bolsa — uma bem-vinda fuga do ciclo de pobreza e violência representado pela família. E, apesar de impactado, não entende que os amigos esperem dele uma tristeza e um sofrimento que julga não sentir.

Romance de estreia do americano Brandon Taylor, “Mundo Real” (Fósforo, 2021) explora o estranhamento e o desconforto de um protagonista que acredita ter abandonado um passado indesejável, mas também se sente deslocado em sua vida presente. Negro e homossexual, Wallace observa com incredulidade — e um certo tédio —as tentativas frustrantes dos amigos de se mostrar liberais e “mente aberta”, também numa busca por se afastar dos pais e do lugar de onde vieram.

Finalista do Booker Prize de 2020, uma das premiações de língua inglesa mais tradicionais do mundo, e considerado um dos melhores livros do ano pelo The New York Times, a obra traça sua história pelo ponto de vista de uma personalidade incomum, que olha para o mundo num estado constante de estranhamento. Rompendo as contradições que existem entre o sensível e o insensível, a trama aborda temas como racismo, homofobia e violência sexual numa toada quase cotidiana e um estilo criativo, que vai do poético ao dolorosamente sarcástico em questão de segundos.


Na beira da água, degraus de pedra desciam para o fundo turvo do lago. Eram feitos de um tipo de pedra bruta e áspera, que tinha sido alisada pela água e pelo tráfego de pessoas. A dois ou três metros de Wallace havia mais pessoas sentadas, assistindo ao nascer da Lua. E na outra margem, onde a península forrada de pinheiros e abetos se inclinava para dentro do lago como se fossem dedos, havia casas construídas sobre grandes palafitas, as luzes nas janelas como os olhos de grandes pássaros. Às vezes, quando Wallace caminhava em volta do lago à noite olhando através do emaranhado das árvores, imaginava que aquelas casas todas pareciam um bando de aves enormes agachadas no outro lado. Ele mesmo nunca havia estado lá, nunca tinha tido qualquer razão para cruzar o lago até aquela parte exclusiva e isolada da cidade.

Pareciam pessoas comuns, de nenhum lugar específico: brancos, vestindo roupas feias e folgadas, queimados de sol, descascando e sorrindo com bocas grandes e elásticas

Os barcos pequenos já tinham voltado e estavam armazenados em seus suportes, cobertos para a noite. Os barcos maiores tinham sido levados mais para baixo, perto da casa dos barcos, onde Wallace às vezes fazia caminhadas até o outro lado, onde o mato crescia solto e as árvores eram mais densas e pesadas. Havia uma ponte coberta, e uma família de gansos vivia lá. Às vezes, ele via suas grandes asas se abrindo, enquanto eles deslizavam sobre a água. Outras vezes, ele os via avançando pela sombra, preguiçosa e confiantemente, na direção dos campos de futebol e da área de piquenique, como guardas florestais sisudos. Mas, àquela hora da noite, os gansos não estavam lá, e as gaivotas tinham voltado para seus ninhos, e Wallace tinha a beira do lago só para si, a não ser pelos outros observadores anônimos por ali. Deu uma olhada rápida e imaginou como seria a vida deles, se estavam contentes, se estavam com raiva ou decepcionados. Pareciam pessoas comuns, de nenhum lugar específico: brancos, vestindo roupas feias e folgadas, queimados de sol, descascando e sorrindo com bocas grandes e elásticas. Os jovens eram altos e bronzeados e davam risadas enquanto empurravam uns aos outros. Mais para trás, a grande massa de gente espalhada pelo píer, como musgo. A água logo abaixo dele espirrava um pouco, molhando a barra de sua bermuda. A pedra estava gelada e escorregadia. Uma banda começava a tocar atrás dele. Os instrumentos zunindo, pulsando para a vida.

Wallace abraçou os joelhos e apoiou o queixo nos braços. Tirou os sapatos de lona e deixou a água subir até os tornozelos. Estava fria, embora não tanto quanto ele esperava ou gostaria. Havia algo viscoso naquela água, algo além da própria água, como uma segunda pele movendo-se solta sob a superfície. Houve dias em que os lagos foram interditados por causa das algas, que podiam secretar neurotoxinas potencialmente fatais. Ou abrigar parasitas que se agarravam aos nadadores, sugando-os ou transmitindo-lhes doenças que faziam seus corpos se carcomerem por dentro. A água aqui podia ser perigosa, mesmo sem você se dar conta. Ainda assim, não havia placas de aviso. O que quer que houvesse nela, ainda não era considerado perigoso para as pessoas. Agora que ele estava próximo, a água fedia mais, como álcool, extremamente químico e adstringente.

Isso o fez se lembrar da água preta que o encarava no ralo da pia de seus pais tantos anos atrás. Preta e redonda, como uma pupila perfeita olhando para ele, cheirando a azedo, como algo estragado. Seu pai também juntava baldes de água parada. Estou guardando, ele dizia quando Wallace tentava despejá-los. Guardando como se guardasse roupas velhas, garrafas, canetas sem tinta ou lápis quebrados. Porque nunca se sabe, um dia o lixo guardado pode valer a pena. A água nos baldes era escura como alcatrão, porque dentro deles caíam folhas do telhado que se decompunham. Às vezes, ele identificava os restos marrons e frágeis dos caules, depois que todo o verde tinha se degradado. Do ângulo correto, era possível ver as formas das larvas dos mosquitos se contorcendo, flutuando ao longo da superfície. Seu pai havia lhe dito uma vez que eram girinos. Wallace havia acreditado nele. Colocara as mãos em concha na água viscosa e olhara bem de perto, tentando identificar os girinos. Mas, é claro, eram apenas mosquitos.

Emma e Wallace tinham ficado amigos pelo fato de nenhum dos dois ser um homem branco no curso. Foram quatro anos de olhares cúmplices por sobre as cabeças de garotos de confiança inabalável

Água escura.

Havia um nó de tensão em seu peito, algo duro, apertado. Parecia que ele tinha uma bola preta presa nos pulmões. Seu estômago também doía. Ele só tinha se alimentado de sopa o dia todo. A superfície de sua fome era áspera, como a língua de um gato. A pressão se acumulava no fundo de seus olhos.

Ah, pensou, quando se deu conta do que era: lágrimas.

Naquele momento, havia alguém ao lado dele. Wallace se virou, esperando por um instante ver o rosto do pai, materializado da memória, mas, em vez disso, era Emma, que tinha finalmente chegado com o noivo, Thom, e a cachorra, Scout, uma coisa alegre e felpuda.

Ela colocou um braço em volta dos ombros dele e riu. “O que você está fazendo aqui?”

“Olhando a vista, eu acho”, disse, tentando corresponder à risada dela. Fazia uma semana ou mais que ele não via Emma. Ela trabalhava dois andares abaixo, em um laboratório no final de um longo corredor sombrio. Toda vez que Wallace a visitava — para ir almoçar ou deixar algo —, ele se sentia como se estivesse saindo do prédio de biociências e entrando em um lugar proibido, como se tivesse se perdido e adentrado em uma curiosa dimensão paralela. Não havia nada nas paredes, exceto um quadro de avisos, no qual folhetos e pôsteres amarelados da década de 1980 ainda estavam pendurados, como se as oportunidades que ofereciam ainda valessem. Emma e Wallace tinham ficado amigos pelo fato de nenhum dos dois ser um homem branco no curso. Foram quatro anos de olhares cúmplices por sobre as cabeças de garotos altos, de confiança empertigada e inabalável, vozes altas e opiniões veementes. Foram quatro anos de conversas tranquilas naquele longo corredor sombrio, momentos em que parecia que as coisas melhorariam para eles. Ela afastou o cabelo escuro e encaracolado do rosto e olhou para ele. Naquele momento ele se sentiu tão transparente quanto os guardanapos de Cole.

“Wallace, o que foi?”, perguntou ela. A palma macia de sua mão estava pousada no pulso dele. Ele pigarreou.

“Nada, nada”, disse. Seus olhos ardiam.

“Wallace, o que aconteceu?” Emma tinha um rosto pequeno, com traços amplos e uma compleição morena que às vezes levava as pessoas a pensarem, dependendo da iluminação, que ela não fosse branca. Mas ela era branca, ainda que de uma variedade étnica. Seus avós, de um lado, eram boêmios, ou tchecos, como se dizia agora. Pelo outro lado, eram sicilianos. Seu queixo era pontudo como o de Yngve, mas sem covinha. Sua mão era pequena para o punho de Wallace, mas, mesmo assim, ela o segurava com firmeza.

“Não é nada”, disse ele de novo, desta vez com convicção, porque não sabia o que de fato o incomodava. O que poderia dizer, exceto que não era nada?

“Não parece, meu caro.”

“Meu pai morreu”, disse ele, porque era a pura verdade, mas, quando disse isso, não sentiu alívio. Ao contrário, aquilo o sobressaltou, como um grito repentino em uma sala silenciosa.

“Porra”, ela disse. “Porra.” Então, se recompondo e balançando a cabeça, disse: “Sinto muito, Wallace. Sinto muito pela sua perda.”

Ele sorriu porque não sabia como lidar com a empatia dos outros por ele. Sempre lhe parecera que, quando as pessoas se entristeciam por alguém, entristeciam-se, na verdade, por elas mesmas, como se aquele infortúnio fosse apenas uma desculpa para que elas sentissem o que quer que quisessem sentir. Empatia era uma espécie de ventriloquismo. Seu pai morrera a centenas de quilômetros de distância. Wallace não tinha contado a ninguém. Seu irmão havia ligado. Depois vieram as postagens nas redes sociais dos familiares, dos conhecidos e dos que só queriam informação, aquele espetáculo feio e inútil de luto público. Era estranho, pensou Wallace enquanto sorria para Emma, porque ele não tinha a sensação de perda arrasadora; não, quando pensava na morte do pai, sentia a mesma coisa que quando alguém faltava no laboratório pela manhã. Mas talvez essa tampouco fosse a verdade. Ele não sabia o que sentir, então tentava não sentir nada. Parecia mais honesto assim. Um sentimento real.

Ele sorriu porque não sabia como lidar com a empatia dos outros por ele. Sempre lhe parecera que, quando as pessoas se entristeciam por alguém, entristeciam-se, na verdade, por elas mesmas

“Obrigado”, disse, pois o que é que se pode dizer quando se percebe objeto da empatia de alguém?

“Espera”, disse ela, olhando por cima do ombro para a mesa onde os outros estavam sentados, agora ocupados com Scout, que apreciava as carícias. “Eles não sabem?”

“Ninguém sabe.”

“Caralho”, disse ela. “Por quê?”

“Porque era mais fácil, acho. Sabe?”

“Não, Wallace. Não sei. Quando é o enterro?”

“Foi semanas atrás”, ele disse, e ela pareceu realmente surpresa. “O quê?”

“Você foi?”, ela perguntou.

“Não, não fui. Eu tinha que trabalhar”, disse ele.

“Jesus. A demônia não deixou?”

Wallace riu, e sua voz se projetou sobre a água à frente deles. Que ideia. Que ele poderia ter contado a sua orientadora e ela poderia ter lhe dito para não ir. Era tentador deixar Emma acreditar nisso, porque era algo que Simone poderia ter feito. Mas isso provavelmente chegaria a Simone, e ele teria de esclarecer a confusão.

“Não foi isso”, disse. “Ela não é tão ruim assim, sabia? Nem estava na cidade.” Simone era alta e chamava a atenção, uma mulher de inteligência assustadora. Ela não era particularmente demoníaca. Era mais como uma brisa quente constante que, depois de um tempo, começava a enfraquecer Wallace.

“Não a proteja”, disse Emma, estreitando os olhos. “É sério que ela disse que você não podia ir ao enterro do seu próprio pai? Isso é doentio.”

“Não”, disse ele, ainda rindo, dobrando-se e segurando a barriga. “Não foi assim. Eu simplesmente não tinha tempo.”

“É o seu pai, Wallace”, disse Emma. A risada dele morreu. Ele se sentiu cobrado. Sim, era o pai dele. Ele sabia disso. Mas o problema com essas pessoas, com seus amigos, com o mundo, era que eles achavam que as coisas com a família tinham que ser só de um jeito. Achavam que você tinha que sentir por eles a mesma coisa que todo mundo sentia, ou então você estava errado. Como é que ele poderia rir da ideia de não ir ao enterro do pai? Tem coisa mais estranha? Wallace não se achava estranho. Ele tampouco se achava errado ou mau por ter rido, mas transformou seu rosto numa máscara de placidez, triste e imóvel.

“Puta que pariu”, disse ela. Emma estava com raiva por ele. Deu um chute na água, espirrando-a pela noite, gotas de prata desbotando para o preto. Então colocou o outro braço em volta dele e o abraçou. Ele fechou os olhos e deu um suspiro. Emma começou a chorar um pouco e ele colocou os braços em volta das costas dela e a abraçou.

Parecia impossível que tal demonstração de pesar pudesse ser totalmente sincera, que o corpo dela tremesse em seus braços por causa de uma perda que ele tinha sofrido

“Está tudo bem, está tudo bem”, disse ele, mas o choro dela só aumentava, enquanto ela balançava a cabeça. Ela lhe deu um beijo no rosto e o abraçou ainda mais forte.

“Sinto muito mesmo, Wallace. Meu Deus. Eu queria poder mudar isso. Juro que queria”, disse.

O grau e a extensão da tristeza dela o alarmaram. Parecia impossível que tal demonstração de pesar pudesse ser totalmente sincera, que o corpo dela tremesse em seus braços por causa de uma perda que ele tinha sofrido. Ele queria chorar por ela, se não por ele mesmo, mas não conseguiu. As pessoas nas mesas ao lado começaram a assobiar e gritar para eles, batendo palma e mandando beijos.

Produto

  • Mundo Real
  • Brandon Taylor
  • Fósforo
  • 296 páginas

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