Conversas Desconfortáveis com um Homem Negro — Gama Revista

Trecho de livro

Conversas Desconfortáveis com um Homem Negro

De sucesso  no YouTube a best-seller, o ex-jogador de futebol americano Emmanuel Acho responde perguntas sobre racismo e negritude que muita gente tem medo de fazer

Leonardo Neiva 02 de Julho de 2021

POR QUE LER?

Por que não se pode celebrar um mês de história branca, assim como acontece com a história negra? O ideal é criar filhos para que não diferenciem as pessoas por suas cores? E como lidar com a violência policial contra a população negra? São essas e várias outras perguntas que o ex-jogador de futebol americano dos Philadelphia Eagles e comentarista esportivo Emmanuel Acho tenta responder no YouTube, nas chamadas “Conversas Desconfortáveis com um Homem Negro”. Seu canal é uma espécie de local seguro para as mais diferentes perguntas que muita gente ainda tem medo de fazer. Por exemplo: se uma pessoa branca usar tranças, trata-se de apropriação cultural?

Além de sanar questões de internautas, ele ainda faz entrevistas com interlocutores que vão desde famílias inter-raciais até policiais brancos. Os vídeos fizeram tanto sucesso — alguns deles ultrapassando milhões de visualizações — que Acho acabou lançando um livro com o mesmo nome do canal, que virou best-seller em duas semanas. Filho de imigrantes nigerianos, Acho e sua família dirigem uma organização sem fins lucrativos para oferecer tratamento médico às pessoas pobres na Nigéria. A ideia é, além de responder perguntas, convidar o leitor a conhecer um pouco mais sobre tudo a que pessoas negras são submetidas diariamente, como discriminação, desigualdade e violência. E, de quebra, informar e dar sugestões valiosas sobre a forma mais adequada de agir em várias situações.

“Como abordar a questão da raça com as minorias? Sinceramente, tenho tanto medo de dizer algo errado e ser rotulada de ‘racista’”, diz Melissa na primeira questão do livro, que chega ao Brasil com tradução de Marina Vargas. A partir disso, de forma didática, Acho traça uma explicação completa, que passa pelo movimento Black Lives Matter (vidas negras importam) e as dificuldades históricas de definir uma única forma de denominar os negros americanos. Finalmente, arremata: basta perguntar. “Pode ser que nem todas as pessoas que você conhece tenham uma preferência, mas algumas talvez tenham. Confie em mim, as palavras importam.”


“Se existe um penteado ou um estilo de modo geral que alguém acha bonito e quer experimentar, mas esse penteado ou estilo é visto principalmente em mulheres ou homens negros, usá-lo é sempre uma apropriação cultural?” – Kerri

Cite suas fontes ou abandone a aula
Apropriação cultural

Alguns meses atrás, Kim Kardashian postou vídeos dela mesma no Instagram usando um monte de tranças com contas brancas. Alguns de seus seguidores não gostaram nem um pouco:

“Você não é negra!”

“Ei, é melhor você parar de usar isso.”

“Como ela pode continuar fazendo essas coisas e se safar?”

Kim K havia tentado “se safar” antes, quando, num agora infame vídeo do Snapchat, ela apareceu num carro falando sobre quanto amava suas “tranças Bo Derek” recém-feitas. A internet criticou fortemente a postagem, apontando que suas tranças na verdade não eram “Bo Derek”, mas sim tranças fulani, cujo padrão copiava o estilo da tribo fulani da África Ocidental. (Se você é muito jovem para saber quem é Bo Derek, pesquise sobre ela – basta dizer que ela não é da África Ocidental.) Os negros no Twitter ficaram furiosos porque Kim não apenas se apropriou de um penteado negro, mas também deu crédito a uma mulher branca por ele. Isso é o que eu chamo de colocar o dedo na ferida.

Deixe-me explicar de outra forma. Quando eu estava na faculdade, meus professores nos alertaram sobre o plágio: usar palavras ou ideias de outra pessoa sem dar o devido crédito. Plágio não era apenas considerado errado, era uma infração que acarretava sérias consequências, inclusive a expulsão da faculdade. Embora possa ser verdade que a imitação é a forma mais sincera de elogio, plágio não é elogio – é roubo. É não fazer nenhum trabalho e levar todo o crédito. É não saber e não se importar com que tipo de esforço foi dedicado à criação de outra pessoa, e usá-la para obter boas notas – ou alguns milhares de curtidas no Instagram.

Tomar emprestadas as influências da cultura negra não é um problema em si ou por si só. O problema surge quando você pega algo emprestado de uma cultura sem citar as fontes e/ou sem conhecer sua história. Contanto que faça essas duas coisas, na maioria dos casos não há problema. (Palavra-chave: maioria.)

Então, quando algo deixa de ser homenagem, influência criativa ou elogio e se torna o tipo de cópia ruim – o reino da apropriação cultural? Quando os brancos devem ser questionados por tomarem parte em culturas que não são deles – e quando uma trança é apenas uma trança?

Vamos passar a limpo

Na década de 1830, um ator branco chamado Thomas “Daddy” Rice teve uma ideia brilhante. Depois de testemunhar um ex-escravizado cantando uma música chamada “Jump Jim Crow”, ele criou o personagem que o tornaria famoso: uma caricatura ficcional de um escravizado desajeitado e estúpido chamado Jim Crow. Rice fazia o blackface, pintava o rosto de um preto cor de alcatrão, desenhava lábios vermelhos exagerados e realizava uma “apresentação teatral” cômica na qual zombava das pessoas negras. Seu show fez grande
sucesso entre o público branco dos Estados Unidos, chegando até a Grã-Bretanha. Não demorou muito para que outros menestréis brancos começassem a zombar dos negros e da cultura negra e fossem celebrados por isso.

Você talvez não saiba que rumo o tal do Jim Crow tomou a partir daí, mas vou lhe contar: Jim Crow virou o nome das leis que mantiveram a segregação no Sul dos Estados Unidos até os anos 1960. Foi uma cruel piada centenária à custa dos negros. E talvez você também não saiba que rumo o blackface tomou a partir daí, porque ainda estamos falando sobre ele. A lista de figuras públicas brancas envolvidas em escândalos de blackface não para de crescer e, embora pudéssemos perder tempo listando todos os infratores surpresa, o ponto mais importante é que é por isso que você sempre precisa conhecer a história antes de tomar alguma coisa emprestada da cultura negra ou de qualquer outra cultura. Você pode achar que está se comportando apenas como um fã ao reproduzir o visual de Beyoncé no Halloween, mas o que seu rosto escurecido evoca para muitos negros é o espírito de Thomas Rice e suas apresentações de cunho racista. (E, só para deixar claro, o blackface é um daqueles casos em que conhecer a história não faz com que isso seja aceitável.)

O intercâmbio de ideias, estilos e tradições é um dos princípios de uma sociedade multicultural moderna. É parte de como crescemos, aprendemos, avançamos. A apropriação cultural, no entanto, é algo bem diferente. A apropriação cultural acontece quando os membros de um grupo dominante – nos Estados Unidos, os brancos – se apropriam de elementos da cultura de um povo destituído de poder. É problemática por uma série de razões. Para começar, ela banaliza a opressão histórica. Também permite que as pessoas professem amor por uma cultura ao mesmo tempo que continuam sendo preconceituosas em relação às pessoas que são parte dessa cultura, e permite que os privilegiados lucrem com o trabalho dos oprimidos. Além disso, pode perpetuar estereótipos racista

Vamos examinar mais alguns exemplos. Pense em Little Richard inventando o rock and roll e Elvis sendo considerado o “rei” desse gênero musical. Pense no jazz se desenvolvendo na comunidade negra e Kenny G sendo possivelmente o artista de jazz mais famoso da atualidade. Pense no nascimento do hip-hop no Bronx, como uma forma de arte destinada a chamar a atenção para a luta das pessoas não brancas e, anos depois, o artista de rap mais vendido de todos os tempos ser Eminem. Ainda não está convencido da onipresençada apropriação cultural? Deixe-me lembrar a você de Blake Lively exibindo suas curvas em Cannes em determinado ano e postando fotos com a legenda “rosto de L.A. com bunda de Oakland”. Para quem não sabe, Oakland, na Califórnia, é a cidade onde surgiram os Panteras Negras, hoje considerada a de maior diversidade do mundo. Pense no mascote culturalmente insensível da equipe de futebol americano Washington Redskins [peles-vermelhas de Washington]. Parabéns ao time por ter mudado seu nome para Washington Football Team em 2020. Pense também no da equipe de beisebol Cleveland Indians [índios de Cleveland]. Parabéns à equipe por considerar uma mudança de nome e por já terem se livrado do mascote, o chefe Wahoo. O esporte é um dos principais culpados, mas as grandes marcas de moda também têm cometido suas infrações. Basta ver a Gucci vendendo um lenço de cabeça chamado Indy Full Turban [turbante indiano volumoso]. Basta ver a Prada vendendo um chaveiro com uma caricatura de blackface. Basta ver uma modelo da Burberry desfilando pela passarela com uma corda de forca em torno do pescoço. Sim, uma corda de forca! E assim por diante.

Vamos ficar desconfortáveis

A conversa sobre apropriação cultural é sempre uma conversa incômoda. Pense em por quanto tempo os negros foram humilhados nos Estados Unidos. Pense em por quanto tempo sua maneira de falar, seu corpo, a cor de sua pele e sua cultura foram vistos como inferiores. Agora imagine como é doloroso ver essas mesmas características serem apropriadas por pessoas brancas e celebradas como delas. (Sem querer implicar com Kim K, mas nossa amiga também levou o crédito por dar início à corrente do “traseiro avantajado” – algo pelo que as mulheres negras foram desmerecidas por muito tempo e que, de repente, pertence a todo mundo agora que é popular.) É preciso conversar sobre o que é e o que não é apropriação cultural, sobre a história daquilo que está sendo apropriado, sobre como isso faz pessoas há muito marginalizadas se sentirem.

Olha, eu entendo o que você quer — talvez eu seja parcial, mas os negros produziram muitas das músicas mais legais, muitos dos melhores looks, muitos dos atletas mais incríveis. Modéstia à parte, há pessoas negras brilhantes e criativas em todas as esferas da vida estadunidense, pessoas que vêm realizando um trabalho brilhante e criativo há gerações, claro que sim. O objetivo ao soar o alarme sobre a apropriação cultural não é impedir ninguém, nem mesmo os brancos, de celebrar a cultura negra. Mas é preciso celebrá-la como cultura negra – não se apropriar dela como se fosse sua. O desconforto surge nas áreas nebulosas, eu sei. Apenas acredite em mim: perguntar mais, fazer mais o dever de casa, é sempre melhor do que plagiar.

Não basta falar

Se você está interessado ou interessada em aspectos da cultura negra, em tranças ou outro penteado, em usar moda étnica, em ouvir música negra, ler literatura escrita por pessoas não brancas ou assistir a filmes baseados em outra cultura, você precisa fazer o dever de casa. Aprenda mais sobre a gênese da cultura com a qual deseja se envolver. Se quiser usar tranças, tudo bem. Mas pesquise de onde elas vieram. Seja capaz de falar sobre isso. Isso vai impedir que atribuam a Bo Derek – uma mulher de apenas 63 anos de idade – um estilo que existe há centenas, senão milhares, de anos. Não estou dizendo que todo mundo precisa se tornar historiador, mas quando não tiver certeza de algum aspecto da cultura negra, converse sobre isso com pessoas que entendam do assunto. Sim, pode ser desconfortável, mas há uma grande chance de também ser esclarecedor.

Algumas dicas. Blackface nunca é aceitável, por nenhuma razão. Evite adotar qualquer estereótipo étnico: poderíamos passar o dia falando dos detalhes, mas basicamente se o que você busca se baseia em evocar uma raça que não é a sua, não o faça. E, por favor, pense muito sobre adaptar artefatos culturais sagrados. Nada de cintos indígenas ou turbantes sikh, por favor. Por fim, tente se envolver com as culturas além do nível estético. Se o primeiro objetivo aqui é deixar de ser ignorante, o segundo objetivo é simplesmente aprendermos mais uns sobre os outros. E isso pode ser muito divertido.

Produto

  • Conversas Desconfortáveis com um Homem Negro
  • Emmanuel Acho
  • LeYa
  • 240 páginas

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