Trecho de Livro: Catorze Camelos para o Ceará - Gama Revista

Trecho de livro

Catorze Camelos para o Ceará

Livro do jornalista Delmo Moreira narra tentativa de aclimatar camelos no Ceará em primeira grande expedição científica brasileira

Leonardo Neiva 10 de Setembro de 2021

Camelos no Ceará. Por mais inusitada que essa curta frase possa parecer, ela já foi uma realidade. No dia 18 de junho de 1859, 14 deles desembarcaram na cidade de Fortaleza após uma travessia de 34 dias saída da Argélia. Os animais, acredite se quiser, seriam testados como uma alternativa para as mulas de carga na região, num plano do Império que pretendia aproximar cientificamente França e Brasil, tornando nosso país mais relevante no cenário mundial.

Palco de várias expedições europeias, que ainda descreviam o solo nacional como uma terra exótica e estranha, os cientistas brasileiros queriam nessa mesma época realizar uma jornada 100% nacional, catalogando fauna, flora, topografia e costumes numa perspectiva interna. Os camelos configurariam uma primeira etapa da expedição ao interior do Ceará, onde os cientistas testariam eles mesmos a aptidão dos animais recém-chegados. Historicamente — e injustamente — lembrada como um fracasso da nossa história, a viagem durou cinco anos e ajudou a catalogar e sistematizar o conhecimento sobre nosso país de uma forma ainda inédita por aqui.

É essa história que o jornalista Delmo Moreira reconta em “Catorze Camelos para o Ceará” (Todavia, 2021). Com passagens de destaque por veículos como TV Globo, O Estado de S.Paulo, Zero Hora, Isto É e Época, o gaúcho retrata no livro desde as preparações até os obstáculos encontrados e algumas das principais descobertas feitas pela expedição do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, que já virou até tema de enredo de escola de samba, nas mãos da Imperatriz Leopoldinense.


Na manhã de 9 de abril de 1859, o naturalista Richard Du Chantal partiu de Argel com a missão de comprar catorze camelos para o imperador do Brasil. Pedro II encomendara os animais à Sociedade Imperial Zoológica de Aclimatação de Paris, interessado em promover uma experiência de adaptação da espécie ao Nordeste brasileiro. Du Chantal, vice-presidente da instituição científica francesa e conhecedor de expedições na colônia, foi o encarregado da compra. Com receio dos ataques de rebeldes tuaregues, ainda frequentes na Argélia, ele garantiu lugar num comboio militar que viajava para o interior.

A caravana cruzou as montanhas do Atlas e seguiu por quatro dias em direção às terras entre as cidades de Boghar e Laghouat, na fronteira do Saara, região habitada por criadores renomados pela qualidade dos dromedários. Uma enorme feira de clãs árabes e beduínos atraía colonos europeus que estavam abrindo fazendas pelo país com o apoio da França. A oferta ali era farta e Du Chantal pôde escolher com cuidado a cáfila imperial. Arrematou dez fêmeas e quatro machos, todos de três a quatro anos, exceto um dos camelos, de sete. Quatro das fêmeas estavam prenhes. Numa homenagem ao Brasil, Du Chantal marcou os animais com a letra B no lado esquerdo do pescoço. No total, ao fim de negociações arrastadas, pagou 12320 francos aos vendedores. A soma pareceu “bem moderada” ao presidente da Sociedade de Aclimatação, o biólogo Isidore Saint-Hilaire: “A média de 880 francos por cabeça foi vantajosa em comparação com o que se vê em outras províncias, de animais de qualidade bem inferior”, relatou na prestação de contas. Ao câmbio da época, cada besta custou 330 mil-réis ao governo brasileiro. No Ceará, para onde seriam enviados os camelos, um cavalo encilhado valia em torno de 100 mil-réis. O jegue era mais barato e variava muito de preço a cada localidade.

Du Chantal contratou na feira quatro argelinos para acompanhar os camelos na viagem transatlântica até o “Siara”, o nome com que a província brasileira constava nos documentos. Os tratadores ficaram encarregados de vigiar a tropa na propriedade de um chefe tribal, nos arredores de Boghar, enquanto, em Marselha, um navio de três mastros passava por uma reforma para acomodar a carga inusual. O Splendide era citado como uma joia da construção naval francesa: “Trata-se de uma das melhores e mais belas embarcações da marinha mercante”, atestou Saint-Hilaire. O representante da Sociedade em Marselha, o naturalista Antoine Hesse, fez o fretamento e se encarregou, durante três meses, da adaptação do veleiro. Sobre o convés, construiu uma espécie de estrebaria dupla. A estrutura retangular, com aberturas dos quatro lados, era alta o suficiente para receber os camelos e baixa o bastante para não atrapalhar as manobras das velas. Um corredor central dividia o espaço em dois blocos, com manjedouras fixadas em cada um deles. O teto de madeira recebeu como proteção uma lona untada de alcatrão que se estendia pelas laterais do estábulo improvisado.

A viagem de Argel a Fortaleza durou 34 dias. Apesar das fortes tempestades e das dificuldades com alimentação, os camelos chegaram bem-dispostos e com saúde para enfrentar os testes de aclimatação ao Nordeste. Numa ensolarada manhã de julho, foram empurrados, um a um, para uma baia móvel e içados do Splendide até jangadas que os levaram, com água pelas canelas, ao trapiche do porto. Na praia, protegida por uma cobertura de panos leves, a comitiva de políticos e cientistas enviados pelo imperador acompanhou o desembarque. Logo atrás das autoridades, juntava-se uma multidão, assustada com os animais exóticos e desconfiada dos mouros.

Apesar das fortes tempestades e das dificuldades com alimentação, os camelos chegaram bem-dispostos e com saúde para enfrentar os testes de aclimatação ao Nordeste

“Não vos parece, senhores, que já era tempo de entrarmos, sem auxílio estranho, no exame e investigação desse solo virgem?”, propôs o visconde de Sapucaí. “De desmentirmos esses viajantes de má-fé ou levianos que nos têm ludibriado e caluniado?” Ex-preceptor de Pedro II, Sapucaí presidia o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB). Na sessão solene de maio de 1856, os sócios da instituição denunciavam, em discursos exaltados, exploradores estrangeiros que haviam publicado na Europa uma série de informações falsas e fantasiosas sobre o Brasil. Defendiam que o país tinha o dever de patrocinar uma missão exploratória e propunham a formação de um grupo de cientistas para estudar por conta própria, sem controle estrangeiro, como nunca havia sido feito antes, o imenso e desconhecido território nacional. Até então, naturalistas locais serviam como meros colaboradores de expedições estrangeiras, sem autonomia sequer para escolher roteiros. Agora eles almejavam “mostrar ao mundo que não nos faltam talentos e habilitações” para as pesquisas científicas. O Império só teria a ganhar: “Tudo seria do mais alto interesse nessa exploração; conhecimentos positivos da topografia, dos cursos dos rios, dos minerais, das plantas e animais, dos costumes, da língua e das tradições dos autóctones, cuja catequese seria também mais facilmente compreendida”, previu o visconde.

Pedro II assumiu a criação da Imperial Comissão Científica de Exploração das Províncias do Norte (designação usada para todas as terras acima da Bahia), tornando lei a despesa prevista para a empreitada. A jovem monarquia tentava tomar pé de seu tempo, a era de ouro dos naturalistas viajantes, discípulos de Humboldt, que redesenharam o planeta no século XIX. A missão brasileira cobiçava, como as demais, fazer ciência e descobrir riquezas. Pretendia também entender um pouco mais uma nação que mal se conhecia. No Oitocentos, o Norte e o sertão nordestino eram rincões ermos e impermeáveis para a corte.

O Ceará foi definido como primeiro destino da expedição por causa de suas promessas de riqueza. Desde a colônia, havia relatos sobre indícios minerais nas serras cearenses, e duas lendas muito difundidas falavam de jazidas escamoteadas por holandeses e tesouros abandonados pelos jesuítas com a expulsão da Companhia de Jesus do Brasil. O problema da seca não teve relevância, pois era visto como uma questão regional, sem a dramaticidade que assumiu em poucos anos. E um atrativo extra pesou na escolha pelo Ceará. Havia alguns meses, o governo estudava com cientistas franceses um projeto de aclimatação de camelos ao Nordeste brasileiro. O IHGB poderia, assim, assumir também a responsabilidade de testar os dromedários como alternativa ao jegue no transporte em longas distâncias desérticas.

As catorze cobaias importadas entraram para a história como um fracasso exemplar entre os inúmeros planos insanos e perdulários adotados pelos governos, do Império à República, para enfrentar o drama da seca

A tropa que Du Chantal comprou, três anos depois da criação da Comissão Científica imperial, se destinava a um experimento paralelo, mero anexo de um programa repleto de ambições. A potente mistura de ineditismo e exotismo, porém, transformou o projeto dos camelos na marca da missão de Pedro II. As catorze cobaias importadas entraram para a história como um fracasso exemplar entre os inúmeros planos insanos e perdulários adotados pelos governos, do Império à República, para enfrentar o drama da seca. Uma fama equivocada. Ninguém cogitava solucionar a desgraça das estiagens com dromedários, e os animais não foram testados o suficiente para poderem fracassar. Viraram, sim, uma encrenca política, foram abandonados pelos cientistas e doados a fazendeiros do sertão que não os usaram sequer como jegues. Apesar de tudo, o Camelus dromedarius saiu do episódio com a reputação chamuscada e a pecha de inadequado às veredas nordestinas.

Da preparação à extinção, entre os cinco anos que durou, a Comissão produziu e sistematizou conhecimento numa quantidade e qualidade que o país jamais experimentara. Formou coleções botânicas e zoológicas de milhares de exemplares, realizou pesquisas geológicas, estudos de etnologia e levantamentos geográficos e astronômicos. Comparada às missões transcontinentais da época, foi modesta, embora se revelasse pesadíssima para a incipiente monarquia, com suas precariedades e circunstâncias. Sob pressão permanente dos políticos conservadores, que consideravam desperdício gastar mais dinheiro com ciência e educação, sofreu boicote e injustamente ganhou notoriedade por conta de seus reveses. Além dos camelos, é mais lembrada pelos apelidos que levou no plenário do Senado: Comissão das Borboletas, pela acusação de inutilidade; ou Comissão de Defloramento, pelos escândalos provocados na província.

Três ilustres brasileiros foram os principais responsáveis pela aventura: o barão de Capanema; o médico e botânico Freire Alemão; e o poeta e etnólogo Gonçalves Dias. Eram diferentes em tudo, da origem familiar ao estilo de vida. Filho de humildes colonos fluminenses, Freire Alemão se tornara um cientista reconhecido na Europa e conselheiro do Império. Capanema, de pai austríaco e mãe suíça, era um rico empreendedor, formado em engenharia e mineralogia. Gonçalves Dias, de sangue indígena, já conquistara o posto de maior poeta nacional e publicara estudos sobre as migrações de povos tupi. Pessoalmente, Freire Alemão encarou o desafio da viagem como a grande chance de sua carreira de pesquisador. Capanema não escondeu de ninguém que uma façanha pioneira lhe valia mais que qualquer coisa. Para Dias, tratava-se da oportunidade de fugir de um casamento infernal.

Homens da corte, os expedicionários se depararam com um país que julgaram brutal, embora o cenário descrito por eles pareça estranhamente familiar a um leitor de hoje. A vida testemunhada nos vilarejos, os costumes, as formas como viram se organizar a política e a riqueza, as manhas da justiça, o modo corriqueiro e insidioso com que a chaga da escravidão ia definindo a alma da nação — tudo foi registrado por pesquisadores disciplinados a descrever o desconhecido. Esse retrato dos grotões do século XIX, no entanto, não apareceu nos relatórios finais da Comissão. O trabalho dos cientistas foi censurado pelo governo, preocupado com o que a Europa poderia pensar do Brasil.

O trabalho dos cientistas foi censurado pelo governo, preocupado com o que a Europa poderia pensar do Brasil

Com o tempo, as coisas não melhoraram muito para a memória histórica dos expedicionários nem para a dos camelos. Mais de um século depois da chegada, os catorze infelizes dromedários do imperador se consolidaram em definitivo como símbolo da primeira expedição científica brasileira. Em 1995, a escola de samba Imperatriz Leopoldinense levou à Marquês de Sapucaí o enredo “Mais vale um jegue que me carregue do que um camelo que me derrube… lá no Ceará”.

Para os cientistas, o golpe fatal veio em 2017, com o incêndio do Museu Nacional, onde haviam depositado suas coleções.

Produto

  • Catorze Camelos para o Ceará
  • Delmo Moreira
  • Todavia
  • 288 páginas

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