Coluna da Winnie Bueno: O Carnaval não vai morrer — Gama Revista
COLUNA

Winnie Bueno

O Carnaval não vai morrer

Podem tentar aniquilar o Carnaval de todas as formas, elitizá-lo, deformá-lo, fazer dele algo que ele não é, mas nenhuma tentativa terá mais força do que as comunidades do samba

27 de Abril de 2022

Quando eu era criança o mês de fevereiro significava ir até a rodoviária me despedir da minha avó e da tia Eva. Íamos eu, minha irmã Ayanna e nossa prima Renata abanar para o ônibus que levava as duas para o Rio de Janeiro. Na década de 1990 pessoas negras não tinham acesso fácil a viagens aéreas e para chegar ao Carnaval minha avó e minha tia atravessam longas horas de estrada. A gente chorava na plataforma ao mesmo tempo que alimentava a espera de chegar a nossa vez de conhecer a Sapucaí de perto. Esses anos de espera foram alimentados por uma tradição: assistir aos desfiles na televisão. Era o único momento do ano em que era permitido dormir muito depois das 22h. Fazíamos um pequeno acampamento na sala e comíamos pipoca, pastel, pizza caseira enquanto éramos inundadas pelas imagens que não eram recorrentes na televisão: gente preta alegre, cantando, vivendo e brilhando.

Para as crianças negras que viviam a aridez da falta de representatividade na mídia, o Carnaval era uma possibilidade de nos ver em outro lugar. Eu criança sonhava em ser passista ou porta-bandeira. Várias meninas da minha geração sonharam. Não cheguei nem perto mas agradeço imensamente às mulheres negras do Carnaval que me ajudaram a sentir orgulho dos meus traços, da cor da minha pele. Que me ensinaram que eu não precisava sentir vergonha.

Agradeço imensamente às mulheres negras do Carnaval que me ajudaram a sentir orgulho dos meus traços, da cor da minha pele

O Carnaval das escolas de samba me apresentou pressupostos civilizatórios diferentes dos que me eram impostos na educação formal. Assistindo aos desfiles eu aprendi o que significava fazer coletivamente, brilhar em conjunto, explodir potências para além do eu. As escolas de samba são coletividades que jamais acontecem em singular. E eu, muito criança, sabia disso.

A criança carnavalesca que acompanhava a transmissão na tela da televisão foi crescendo, esperando chegar a sua vez de ir ao Rio de Janeiro acompanhar o maior espetáculo da terra, para voltar ao Rio Grande do Sul com a mala cheia de memórias da festa. Levou tempo, mas finalmente em 2012 eu tive a oportunidade de pela primeira vez pisar na Sapucaí. Dessa primeira vez até agora, foram nove carnavais presencialmente na Marquês que me marcaram de formas diferentes, mas 2022 teve algo de especial. Algo que merece ser registrado em palavra.

Eu ansiosamente aguardei a volta das escolas de samba por saber o que elas significam para o povo negro brasileiro. A emoção que cada agremiação imprime na passarela ao contar seus enredos é algo que o Brasil precisa. A doçura e as bênçãos de cada ala de baianas derramam sobre nós a esperança de uma vida que vai melhorar. Depois dos dias de luto e do desesperançar provocado por um governo que tem por projeto destruir a alegria, celebrar as potências dos amores que batem no peito da gente a cada escola que atravessa a Sapucaí nos renova. Deixa a pele da gente viçosa, enche nossas bocas de sorrisos e gargalhadas que há muito já não saiam. Os abraços, as lágrimas emocionadas, a sensação de fazer parte de cada escola quando cantamos seus sambas das arquibancadas nos lembram da tarefa intransigente de manter acesa nossa cultura e nossas tradições. O ano de 2022 deixou evidente que o Carnaval não vai morrer. Podem tentar aniquilar o Carnaval de todas as formas, elitizá-lo, deformá-lo, fazer dele algo que ele não é, mas nenhuma tentativa terá mais força do que as comunidades do samba. Nenhuma tentativa é maior do que a inovação que parte do resgaste da ancestralidade negra e da possibilidade de contar algo novo sobre nós, todos os anos e de novo.

É preciso respeitar o Carnaval, respeitar as comunidades, reconhecer as potências pedagógicas de quem faz tanto com tão pouco

Cada escola de samba tem muitas coisas a ensinar a quem está disposto a com elas aprender. Das mais aclamadas às mais singelas, em todas pulsa o compromisso em letrar nossa sociedade com ensinamentos que se fazem da resistência cotidiana. Que viram alegrias, dança, encontro, celebração e afeto ornado em brilho, plumas, esplendores, tripés e ritmos. É preciso respeitar o Carnaval, respeitar as comunidades, reconhecer as potências pedagógicas de quem faz tanto com tão pouco.

As comunidades carnavalescas avisaram muitas vezes durante esses duros anos de pandemia que não iriam morrer, não só não morreram como estão mais vivas do que nunca. Sorte a minha ter sido uma criança educada para respeitar e amar o Carnaval, fez de mim uma adulta capaz de se emocionar com o bailado de uma porta bandeira, com a coreografia de uma comissão de frente, com as bossas de uma bateria, com cada acontecimento de uma escola de samba. A minha emoção com o Carnaval faz de mim parte dessa coletividade ainda que viva tão longe. Eu só posso agradecer.

Winnie Bueno Winnie Bueno é iyalorixá, pesquisadora e escritora daquelas que gosta muito de colocar em primeira pessoa sua visão do mundo e da sociedade. É criadora da Winnieteca, um projeto de distribuição de livros para pessoas negras

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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