Nós contra a fome — Gama Revista

Nós somos aquelas que imprimiram outras vozes e outros olhares às lutas contra o racismo e o sexismo. As mulheres negras brasileiras exigiram ter suas agendas acolhidas e respeitadas no movimento social negro e no movimento feminista. Nosso lugar no mundo exigiu de nós um compromisso com a justiça social que ultrapassa nossos próprios interesses. Essa é a nossa forma de lutar por justiça social. Lutamos por direito ao trabalho digno, lutamos contra a violência doméstica, lutamos pelo direito à maternidade e lutamos também contra o controle de nossos corpos. Lutamos pelo respeito a nossa sexualidade e pelo direito à livre expressão de gênero. Nosso legado de lutas não começa agora, aprendemos com as que vieram antes de nós e com elas aprimoramos múltiplas ferramentas de reivindicação dos nossos direitos. Nossa presença pública é histórica, embora silenciada e suprimida. Enegrecemos o feminismo não por pirraça, mas porque ao final do século 20 passava da hora daquelas que são a maioria da população brasileira terem suas lutas e vivências em um lugar central. Feminizamos o movimento negro para que nossos companheiros de lutas entendessem o papel do patriarcado na manutenção do racismo enquanto sistema de dominação.

A Coalizão Negra por Direitos é reflexo desse diagnóstico, ferramenta ativista que construímos juntas. A solidariedade política que visamos em nossas instancias reflete o legado de Lélia Gonzales, Beatriz Nascimento, Carolina de Jesus, Laudelina de Campos Mello e tantas outras que se inspiraram e inspiram nas trajetórias dessas mulheres. Como Lélia, entendemos que o racismo e o sexismo moldam a cultura política brasileira e tomamos como desafio amefricanizar nossas lutas e identidades, repercutindo as reivindicações das mulheres da améfrica-ladina. Atentas ao legado de Beatriz, reivindicamos nosso direito de fazer nossa História sem nos enganar. Mobilizamos o exemplo de Carolina em nosso compromisso em lutar contra a fome que assola nosso povo. Como Laudelina construímos espaços de luta comprometidos com as lutas da classe trabalhadora, especialmente das mulheres negras trabalhadoras domésticas.

O vírus afeta a comunidade negra de forma desproporcional. Somos nós as que mais sofrem nas filas de hospitais sem leitos para nossos familiares

Estamos vivendo o pior momento da pandemia de covid-19 e as bandeiras de lutas que empenhamos são muitas. Não renunciamos a nenhuma delas. Estivemos mobilizadas em exigir que as agendas do 8 de março não ocultasse que as vidas de mulheres negras durante a pandemia foram atingidas brutalmente : somos nós as que mais sofrem nas filas de hospitais que não mais tem leitos para atender nossos familiares; somos aquelas que precisam lembrar constantemente que a primeira pessoa a ser vitimada por este vírus letal foi uma empregada doméstica negra, contaminada por seus empregadores. Também somos aquelas que estão na linha de frente nos serviços de saúde nas piores condições de trabalho. O vírus afeta a comunidade negra de forma desproporcional, a ausência de políticas públicas e o baixo acesso a serviços básicos fez com o impacto do covid-19 para mulheres negras seja mais profundo e mais duradouro. O espaço que ocupamos no mercado de trabalho ficou ainda mais reduzido, a maioria de nós viu-se face a face com o desemprego ou com o risco de morte. As que conseguiram manter seus empregos trabalham com ainda mais sobrecarga.

O movimento de mulheres negras transnacionalizou as lutas do movimento negro. Levamos as demandas da população negra para a esfera pública internacional destacando a situação específica do Brasil no combate ao racismo. Se atualmente é internacionalmente reconhecido os efeitos do mito da democracia racial na complexa situação social do negro no Brasil é porque coletivamente articulamos múltiplas vozes que partiram além-mar para descentralizar uma visão estadunicêntrica sobre o racismo, para estabelecer uma agenda transnacional de combate ao racismo.

Seguir construindo diálogos transnacionais entre mulheres negras é fundamental no combate a covid-19 Vivemos em um país em desgoverno, que ultrapassou a marca de 300 mil mortos em decorrência da covid-19, onde a vacinação foi comprometida por falta de gestão. A solidariedade internacional entre mulheres negras, mobiliza a construção de reivindicações globais aos desafios que enfrentamos de forma semelhante. Plataformas de denúncia da misoginia antinegra global são fortes instrumentos de respostas aos desafios que enfrentamos por toda a diáspora, como por exemplo a menor aplicação das vacinas em nossas comunidades. Nossas lutas têm contribuído para avançar nas agendas políticas de justiça social no mundo inteiro, principalmente a partir das ideias e ações que construímos para reivindicar o restabelecimento da nossa plena humanidade.

O colapso da saúde no contexto brasileiro nos exige o isolamento social. Mas isso não significa nosso isolamento político. Estamos exigindo nosso direito à vida em várias frentes, queremos vacinas e queremos comida no prato da população brasileira. Pois há gente com fome, e se tem gente com fome é preciso dar de comer. Esse é o mote da campanha que estamos construindo na Coalizão Negra por Direitos, entendemos o que significa para uma mãe, uma avó, uma mulher negra não ter como alimentar sua comunidade. A nossa luta é para que a solidariedade que construímos como política de coalizão, nos auxilie a dar de comer.

Para fazer parte dessa grande rede, que somos protagonistas mas que construímos com a empatia daqueles que reconhecem que este país não pode continuar mantendo pessoas negras em lugar de subordinação, acesse www.temgentecomfome.com.br

*Essa coluna foi escrita com Regina Adami, companheira de muitas lutas e referência política e afetiva

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