Não despolitize — Gama Revista
COLUNA

Winnie Bueno

Não despolitize

O racismo epistêmico oculta, suprime e silencia a respeito do protagonismo e da potência criativa de mulheres negras em vários espaços

19 de Julho de 2021

Essa escrita surge do cansaço e da urgência. Ando absolutamente cansada de perceber as categorias políticas das lutas de mulheres negras sendo esvaziadas de sentido e alteradas. A despolitização intensa e as tentativas de deslocamento das construções teóricas de mulheres negras não são inocentes, estão inscritas em um processo de apagamento da relevância das lutas que mulheres negras travaram, sobretudo nos últimos 30 anos. O racismo epistêmico se estende para além das universidades. Ele oculta, suprime e silencia a respeito do protagonismo e da potência criativa de mulheres negras em vários espaços. As ideias e ações do feminismo negro brasileiro não se inscrevem apenas nas políticas específicas, sendo em verdade potentes conhecimentos de oposição que contestam visões parciais sobre a sociedade.

O conhecimento produzido pelo movimento de mulheres negras é profundamente político, ele permite visualizar as experiências de dominação e resistência a partir de uma perspectiva mais ampla, que não oculta o impacto do racismo e do sexismo na formação social brasileira. Contudo, apesar da potência de seus conhecimentos e estratégias políticas, mulheres negras continuam precisando se colocar à prova. O espaço político para nós exige afirmação constante, pois a todo tempo somos empurradas para fora dele. Não é um espaço acolhedor, ao contrário, somos muitas vezes impedidas de exercer a política mesmo quando fomos eleitas para isso. Somos lidas como aquelas que não pertencem ao espaço do fazer político e do saber acadêmico. A desvalorização de nossas vozes é constante, sobretudo nas narrativas histórico-culturais como nos atenta Sônia Beatriz Santos.

Somos muitas vezes impedidas de exercer a política mesmo quando fomos eleitas para isso. Somos lidas como aquelas que não pertencem ao espaço do fazer político e do saber acadêmico

As raras ocasiões em que somos reconhecidas como vozes públicas relevantes frequentemente são dependentes de uma imposição que nos distancia da nossa relação com as lutas do movimento social. Isso é resultado da forma binária com que se mobiliza a política e o ativismo. A resistência a esse tipo de distanciamento é construída a partir de uma intensa luta pela desarticulação das lógicas de supressão do pensamento e da ação política da comunidade negra.

A emergência de conceitos e categorias que se originam do ativismo da negritude desafia inclusive a noção de intelectualidade. A noc?a?o de intelectual mobilizada pelo pensamento feminista negro se articula a partir do pressuposto de que intelectuais sa?o aqueles que produzem conhecimentos de resiste?ncia, logo, a intelectualidade de mulheres negras na?o esta? contida em pressupostos, paradigmas, teorias e processos de validac?a?o de conhecimento que excluem seus saberes.

Por isso, lembrar que as categorias e conceitos do pensamento de mulheres negras são oriundos de um profundo trabalho de articulação do ativismo com a produção acadêmica é tão relevante. Considerando que o negro é um sujeito implícito nos movimentos sociais e na formulação do pensamento, é central afirmar que as estratégias empreendidas pela intelectualidade negra se mobilizam no sentido de articular paradigmas, metodologias e projetos de conhecimento, que passam a ser reivindicados pela população negra.

No pro?prio contexto da teoria sociolo?gica, se estabelece um ci?rculo interno no qual, ate? muito recentemente, os participantes, ostensivamente brancos e homens, mantinham dina?micas, co?digos e linguagens que limitavam, cerceavam e/ou impediam a participac?a?o daquelas que na?o correspondiam a essa caracterizac?a?o. As mudanc?as ocorreram pela insiste?ncia da resiste?ncia intelectual de pensadores e pensadoras “de fora”, daqueles que sa?o lidos como outros. Homens e mulheres na?o brancos que ousaram desafiar o conhecimento objetificado que ta?o constantemente e? celebrado nos ci?rculos internos da sociologia, ausentando ou ignorando que esse modo de repercussa?o da teoria sociolo?gica acaba por apresentar apenas uma visa?o parcial da sociedade e dos feno?menos sociais. Para compreender a sociedade de conjunto, portanto, e? preciso desafiar esses paradigmas, como mulheres negras brasileiras te?m feito em seus processos de inscric?a?o acade?mica e política.

Respeitem os nossos processos de conhecimento e luta.

Winnie Bueno Winnie Bueno é iyalorixá, pesquisadora e escritora daquelas que gostam muito de colocar em primeira pessoa sua visão do mundo e da sociedade. É criadora da Winnieteca, um projeto de distribuição de livros para pessoas negras

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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