Coluna da Winnie Bueno: Defesas — Gama Revista
COLUNA

Winnie Bueno

Defesas

O Brasil tornou-se um país onde a população vive em legítima defesa e lutando para defender o direito à alimentação, o direito ao acesso à cultura e à educação, o direito à saúde e o direito à informação

26 de Abril de 2021

Desde que o governo Bolsonaro assumiu o país estamos vivendo mediante a necessidade de defender nossos direitos mais básicos. Não passa semana sem que precisemos levantar uma campanha de defesa dos princípios mais basilares de cidadania. Somente neste mês me vi diante da tarefa de defender o direito à alimentação, o direito ao acesso à cultura e à educação, o direito à saúde e o direito à informação. Estamos vivendo em um país onde a população vive em legítima defesa.

Precisamos defender o livro e dizer que o acesso à cultura e educação oriundo do incentivo à leitura deveria ser um direito estendido à todos. Em um governo minimamente razoável, em um momento de restrição do acesso à bibliotecas e centros culturais, veríamos o fomento a projetos que possibilitem que pessoas acessem a leitura de forma facilitada. O que temos, entretanto, é um projeto de governo que visa taxar os livros com a justificativa de que livro é coisa de rico. Ou seja, ao invés de democratizar o acesso a leitura, restringe-se ainda mais a possibilidade de aquisição de livros. O entendimento do atual governo brasileiro de que livros são acessados apenas pela população mais rica é raso, mesquinho e descontextualizado. Ele não leva em consideração as inúmeras iniciativas país afora que visam circular livros nas periferias, por exemplo. Projetos como a Winnieteca, do qual sou criadora, as inúmeras bibliotecas comunitárias dirigidas pela juventude negra por todo o país, os clubes de leitura mobilizados por mulheres negras, nada disso é considerado e fomentado. Ao propor a taxação de livros, o governo federal vai na contramão dos esforços sociais pela democratização do acesso à educação.

O entendimento do atual governo brasileiro de que livros são acessados apenas pela população mais rica é raso, mesquinho e descontextualizado

Da mesma forma, é a sociedade civil que organiza campanhas, mutirões, formas de arrecadação de recursos que possam minimamente aplacar a fome que assola o Brasil e se aprofunda largamente neste momento de pandemia. Saímos de um país que zerou a fome para um país em que pessoas estão morrendo de inanição. No momento não há articulação de nenhuma estratégia governamental que possibilite as pessoas terem acesso à alimentos. Todos os dias crescem os números de pessoas que estão em situação de extrema miserabilidade e a única saída para essas pessoas tem sido contar com a solidariedade da população brasileiro. Plano de emergência promovido pelo governo para essa situação inexiste, inexiste porque o projeto principal deste governo é garantir o muito de poucos e exterminar o mínimo de muitos.

O descaso com a vida no governo Bolsonaro atingiu níveis exorbitantes. No país do SUS, não há mais vagas nem mesmo no regime particular

O descaso com a vida no governo Bolsonaro atingiu níveis exorbitantes. Em um país que conta com Sistema Único de Saúde, não há mais vagas nem mesmo no regime particular. Os hospitais públicos e privados carecem de insumos básicos e as pessoas estão optando por morrer em casa no lugar de perder o que resta de sua dignidade nos hospitais. Os servidores da saúde lutam para garantir o mínimo de cuidado aos seus pacientes; em troca, tem sua saúde física e mental vulnerabilizada a cada nova internação. Estamos próximos da marca de 400 mil mortes provocadas por covid-19 e a cada minuto se agravam as condições de vida em nosso país, não por decorrência da doença mas por consequência de um projeto de governo pensado para deixar morrer a maioria da população brasileira.

O nome disso é genocídio.

Nós estamos lutando contra um genocida.

Estamos lutando contra alguém que quer ver morrer tudo o que produz potência nas mais variadas esferas sociais.

Contra um genocida, nossa única saída é a legítima defesa.

Winnie Bueno Winnie Bueno é iyalorixá, pesquisadora e escritora daquelas que gosta muito de colocar em primeira pessoa sua visão do mundo e da sociedade. É criadora da Winnieteca, um projeto de distribuição de livros para pessoas negras

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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