Coluna da Luara Calvi Anic: Tá conseguindo acompanhar? — Gama Revista
COLUNA

Luara Calvi Anic

Tá conseguindo acompanhar?

Quando vejo a gritaria que é o Twitter, dou um alô aos colegas jornalistas que organizam a informação pra dar uma facilitada na nossa vida

12 de Abril de 2022

Se você é daqueles que tem saudade de ler um par de revistas e sentir que está bem informado, temos algo em comum. De frente para o Twitter eu penso: houve uma época em que as notícias cabiam em algumas revistas por ano. Hoje, infinitos tuítes não dão conta de explicar o caso do Bacio di Latte, do bar Miúda e da onça-pintada cancelada – e ainda rendem os mais criativos tipos de assédio. Na minha casa de infância, assinar revista não cabia no orçamento. Mas minha mãe se agilizava para pegar emprestado os títulos da editora Abril que chegavam na casa da minha tia: Claudia para a esposa; Playboy para o esposo.

Nunca vi ela pegar a Playboy emprestada. Se livrou de umas bobagens, mas também perdeu entrevistas históricas, como as que renderam estas falas:

Se o Maluf tivesse sido presidente, o Brasil estaria melhor. Ele é um dos melhores administradores que temos” (Pelé, agosto de 1993)

Tenho pesadelos com acidentes, mas também sonho que encontro minha garota e dou um tremendo beijo nela” (Ayrton Senna, agosto de 1990)

Eu vi a hora em que o espermatozóide e o óvulo se juntaram. Nessa hora, entrou um raio de sol na minha barriga. E era de noite” (Maitê Proença, fevereiro de 2005)

Lembro de diferentes fases da vida em que encontrei revistas que tinham alguma coisa a ver comigo e pensei: eles sabem o que eu quero ler. Essa é a minha turma. Revistas tinham muito isso de turma. No documentário “Diários de Andy Warhol”, que acaba de ser lançado pela Netflix, vemos como em 1969 Warhol decide abrir o seu próprio título, a Interview.

Andy Warhol e sua turma em um lançamento revista Interview no Studio 54: o editor Bob Colacello, a modelo Jerry Hall, a cantora Debbie Harry, que estampava a capa da edição, o escritor Truman Capote e a designer de joias Paloma Picasso  Foto Robin Platzer/Getty Images

A publicação era uma porta de entrada para a turma dos ricos & famosos & poderosos, pela qual o artista tanto se interessava. Lá no episódio três, quando Reagan é eleito presidente nos Estados Unidos, Warhol diz: “Quando escuta o discurso de posse você se anima. Eu me senti um republicano. Mas quando acabou e olhei ao redor, para o rosto dos republicanos, fiquei feliz por ser democrata. Existe mesmo uma diferença”.

Quando vejo a gritaria que é o Twitter, fico com saudade dos silêncios entre uma edição e outra das revistas

As revistas que os republicanos liam na época deviam ser diferentes das que os democratas se identificavam. No Brasil, a Interview brasileira, que chegou por aqui em 1977, era lida pela esquerda e pela direita. Esse jeito champagne na mão sorriso no rosto de uma high society majoritariamente branca atraia uma turma de jornalistas que tocava a revista. Mas eles também se interessavam pelos artistas, pelos cineastas, pelos escritores.

Fotografado por Vania Toledo, Ney Matogrosso estampava a quinta edição da Interview brasileira, em 1978, com a chamada: “Acho que vim homossexual nesta vida para cumprir uma missão”.  Reprodução

Foi lá que o jornalista Mario Mendes me conta que começou na profissão. Aos 20 anos, aluno da USP, ele bateu na porta da Interview uma, duas, três vezes para pedir emprego. Precisava provar para o pai que não morreria de fome ao cursar jornalismo. Mario conseguiu a vaga e começou transcrevendo as entrevistas gravadas em fita. Nomes como Glauber Rocha, Fernanda Montenegro, Carmen Mayrink Veiga e Lygia Fagundes Telles (esta entrevistada pelo jovem repórter) falaram à Interview. Na edição de estreia de Mario, Ney Matogrosso, fotografado por Vânia Toledo, disse: “Acho que vim homossexual nesta vida para cumprir uma missão”. Uma frase que significava muito naquele Brasil de 1978, final da ditadura militar.

A revista foi uma das pioneiras em uma tendência que se tornaria comum nesse mercado: o licenciamento de títulos internacionais, como Vogue (1975), Elle (1988), Marie Claire (1991), para produzir conteúdo local. E representou também um período de muito dinheiro publicitário concentrado em uma coisa só. Uma página de anúncio custava muito e rendia um vidão aos donos das editoras – e uma vida aos jornalistas.

Hoje, sabemos, o jornalismo de maneira geral vive uma crise de receita. O dinheiro que antes era direcionado a essa única mídia foi pulverizado entre influencers, redes sociais e diferentes ações que os publicitários apostam. O negócio da assinatura também mudou: os assinantes são a velha guarda e também aqueles que sabem da importância de apoiar um jornalismo de qualidade e os que buscam conteúdo exclusivo. Mas muita gente pensa que, se você tem o Twitter e essa coisa toda, pra que pagar por mais?

O tuíte clássico, que diz muito sobre os dias de hoje (“tudo acontece demais”, em tradução livre) foi ressuscitado pela excelente seção ‘Garimpo’, do site Nucleo, que traz tendências do Twitter.

Há mais de dez anos, no começo da internet e quando as revistas já se sentiam ameaçadas, o jornalista Alberto Dines deu uma entrevista em que dizia que com esse fluxo contínuo de informação que são as redes alguém precisava organizar essa bagunça, e que as revistas cumpririam esse papel. Lembro de sentir um certo alento e ficar repetindo essa teoria para todo mundo que me consultava sobre a crise desse mercado. Hoje, não sei dizer se ele acertou 100%, mas quando vejo essa gritaria que é o Twitter, com usuários adoecendo, fico com saudade dos silêncios entre uma edição e outra e dou um alô aos jornalistas que ainda organizam tudo direitinho – seja em títulos impressos ou digitais.

Luara Calvi Anic é jornalista, editora-chefe da Gama revista. Foi livreira, editora de cultura e comportamento da ELLE e de outros títulos da Editora Abril, repórter da Trip/Tpm e colaborou com Folha de S.Paulo e Marie Claire. Atualmente, cursa mestrado em ciências da comunicação pela ECA-USP

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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