Rutger Bregman: "Crises trazem à tona o que há de melhor nas pessoas" — Gama Revista
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Guilherme Falcão / Stephan Van fleteren

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Rutger Bregman: 'Crises trazem à tona o que há de melhor nas pessoas'

Em tempos de individualismo, o polêmico historiador e escritor holandês defende uma visão otimista sobre a natureza humana e afirma que grandes tragédias tendem a nos unir. Para ele, a maioria das pessoas é bastante decente

Leonardo Neiva 28 de Março de 2021

Rutger Bregman: ‘Crises trazem à tona o que há de melhor nas pessoas’

Leonardo Neiva 28 de Março de 2021
Guilherme Falcão / Stephan Van fleteren

Em tempos de individualismo, o polêmico historiador e escritor holandês defende uma visão otimista sobre a natureza humana e afirma que grandes tragédias tendem a nos unir. Para ele, a maioria das pessoas é bastante decente

Seriam os seres humanos boa gente? A depender do consenso geral, principalmente no atual contexto de pandemia e crise, com a ascensão do negacionismo e uma impressão de que ligamos pouco para a vida alheia, a resposta provavelmente seria negativa. Mas nos últimos tempos uma voz tem se levantado contra essa tendência.

O historiador e escritor holandês Rutger Bregman já está acostumado a ser pivô de pensamentos e discursos polêmicos. Em 2019, causou controvérsia no Fórum Econômico Mundial de Davos ao falar sobre a necessidade de bilionários arcarem com sua fatia de impostos — a fala não repercutiu bem entre o público do evento, mas acabou viralizando mais tarde na internet.

E, se em seu trabalho anterior, o best-seller “Utopia para Realistas” (Sextante, 2018), o historiador defendia questões polêmicas como a renda básica universal e uma semana de trabalho reduzida, em seu novo livro ele faz uma afirmação que também não é exatamente lugar comum: lá no fundo, o homem é um ser bastante decente e generoso — e ele pode provar.

“Humanidade: Uma História Otimista do Homem” (Crítica, 2021) oferece uma viagem histórica através da aventura humana na Terra, sob o viés improvável do otimismo. Você sabia que as interações entre humanos são, em média, muito mais positivas do que negativas? Ou que, enquanto Londres sofria bombardeios diários da força aérea alemã, durante a Segunda Guerra, o moral dos londrinos aumentou?

Segundo essa teoria, até mesmo boas ações genuínas ganham o verniz do egoísmo e individualismo para que a visão negativa do homem e da nossa sociedade se perpetue. “Psicólogos modernos descobriram que quando pessoas fazem
alguma coisa boa de coração, em geral, inventam motivos egoístas. Isso fica evidente nas culturas ocidentais individualistas (…). E faz sentido: ao partir do princípio de que a maioria das pessoas é egoísta, qualquer boa ação é inerentemente suspeita”, narra em um trecho do livro.

Confira a seguir um resumo do que disse o autor, em entrevista a Gama, sobre esses e outros temas, analisando como a pandemia, as notícias e as mídias sociais têm afetado a humanidade e sua suposta predisposição à gentileza.

Cooperação na paz e na guerra

“Existe uma teoria enraizada na cultura ocidental que diz que nossa civilização é apenas um verniz fino sob o qual se esconde a verdadeira natureza humana. No fundo, as pessoas seriam monstros fundamentalmente egoístas. Se você assistir a um filme de Hollywood sobre um desastre, vai ver pessoas em pânico total, correndo por aí ou começando a saquear lojas. É o que acontece nas notícias, também cheias de histórias sobre pânico e pilhagem.

Na verdade, a ciência diz exatamente o oposto. Centenas de estudos mostram que crises trazem à tona o que há de melhor nas pessoas. O que realmente acontece no calor do momento é uma explosão de cooperação. Pessoas muito diferentes umas das outras, de esquerda ou direita, ricas ou pobres, jovens e velhas, começam a trabalhar juntas.

Centenas de estudos mostram que crises trazem à tona o que há de melhor nas pessoas.

Decidi iniciar meu livro citando o comportamento positivo e de cooperação do povo britânico durante a Segunda Guerra Mundial porque era o oposto do que as elites britânicas esperavam. Pensavam que, assim que as bombas começassem a cair, o pandemônio estouraria. Na realidade, aconteceu o oposto. A grande ironia é que alguns imaginaram que isso se deu por causa da superioridade da cultura britânica. Na verdade, é a natureza humana. Cientistas e historiadores argumentam que o estresse prolongado da guerra teve o mesmo efeito de reforçar os laços de solidariedade também entre os alemães.”

E a pandemia?

“Vimos muita cooperação, bilhões de pessoas ao redor do mundo que ajustaram radicalmente seus estilos de vida para impedir que o vírus se espalhasse ainda mais. Um sacrifício extraordinário. Ao mesmo tempo, também há muitos que são contra as medidas atuais, o que é compreensível. O problema de um vírus é que ele representa um ataque aos próprios fundamentos da humanidade. É humano conectar-se. Como espécie, queremos sentir, ouvir, ver e tocar um ao outro. E essa característica humana fundamental agora se tornou dolorosa e perigosa.

Evidências mostram que a solidão é muito perigosa para a saúde. É comparável, dizem alguns cientistas, a fumar 15 cigarros por dia. Somos uma espécie completamente interdependente. É isso que torna toda a situação tão extraordinariamente difícil. Aliás, as doenças infecciosas modernas são um fenômeno relativamente recente. Quer esteja falando da peste, do sarampo, ou da covid-19, eles se originaram porque vivemos muito perto de nossos animais. Especialmente agora, com a agricultura industrial moderna. Não estou dizendo que podemos voltar atrás, mas devemos aprender com isso, ver a covid-19 como oportunidade de repensar nossa relação com os animais em práticas agrícolas.

Que triunfo impressionante essa corporação científica global, especialistas de todo o mundo se comunicando tão rapidamente e compartilhando conhecimento entre si

Hoje temos a Astra Zeneca, a Pfizer, a Johnson & Johnson’s, as vacinas cubana, russa e chinesa. É incrível que todas funcionem bem. Que triunfo impressionante essa corporação científica global, especialistas de todo o mundo se comunicando tão rapidamente e compartilhando conhecimento entre si. Isso nunca aconteceu antes na história da humanidade. Antigamente, se uma nova doença surgia, significava carnificina, morte e destruição em massa. Há apenas 100 anos, com a gripe espanhola, estávamos basicamente indefesos. Morreram dezenas de milhões de pessoas, mais do que em toda a Segunda Guerra Mundial. E hoje? O coronavírus se espalhou rapidamente, mas já temos a vacinação em curso. Portanto, é inegável que fizemos um tremendo progresso. Ainda não sabemos as consequências a longo prazo, mas existem motivos para ter esperança.”

O viés da negatividade

“Existe o que chamamos de viés de negatividade. Aquilo que é negativo acaba sendo bem mais forte que o positivo, nos impressiona mais. Precisamos apenas ter em mente que há muito mais coisas boas do que ruins por aí. Essa é a única maneira de os bons vencerem com uma maioria esmagadora.

Para dar um exemplo, os pesquisadores investigaram bastante a importância do contato interpessoal. Acontece que, em média, as pessoas têm interações muito mais positivas com estranhos do que negativas. Mas, se você estiver numa viagem de trem e alguém for rude com você ou empurrá-lo, isso vai causar uma impressão muito maior do que as centenas de vezes em que alguém lhe deu passagem ou cedeu o assento.

Imagine que você tem dois grupos de diferentes origens étnicas. Como reuni-los? Na Holanda, existe uma grande população de origem marroquina. Se uma pessoa tiver um problema com alguém dessa ascendência, pode tirar a conclusão de que são todos ruins. No entanto, essa impressão seria rechaçada caso houvessem múltiplas interações entre as etnias, porque a maioria delas seria positiva. Por isso o contato é o remédio mais importante que temos contra o racismo, o ódio e o preconceito. Se os ricos e os pobres, os altamente educados e os de baixa educação, negros e brancos viverem separadamente, será muito mais fácil a intolerância se espalhar. Quando as pessoas se conhecem, torna-se muito mais difícil odiar.”

Um conceito antigo

“O viés negativo é uma ideia muito antiga, profundamente enraizada na cultura ocidental. O historiador grego Tucídides (460 a.C. – 400 a.c.) era um defensor dela. Você também pode encontrá-la nas velhas religiões do mundo, especificamente no cristianismo, em que um dos pais da Igreja, Santo Agostinho, acreditava que somos todos pecadores por natureza, mesmo um bebê com um dia de vida. Se você olhar para o Iluminismo, esse período tão importante na história intelectual europeia, vai encontrar muitos filósofos e pensadores influentes que também acreditam que as pessoas são fundamentalmente egoístas. Eles diziam que a razão era o antídoto para isso.

Se você e eu não podemos confiar um no outro, então precisamos de alguém no comando, um rei ou rainha, um policial, alguém do exército

No século 19, a evolução foi rapidamente interpretada como uma teoria em que os animais mais cruéis e competitivos sobrevivem. E o próprio capitalismo neoliberal é baseado na visão de que as pessoas são fundamentalmente egoístas e temos que estar bem com isso. Então essa ideia volta várias vezes ao longo da história. Às vezes de forma religiosa, às vezes de forma secular, às vezes de esquerda, às vezes de direita, mas a ideia é a mesma.

E a razão pela qual a ideia volta é porque é do interesse daqueles que estão no poder. Se você e eu não podemos confiar um no outro, então precisamos de alguém no comando, um rei ou rainha, um policial, alguém do exército. Senão, talvez pudéssemos realmente governar nossas próprias vidas e nos mover em direção a uma sociedade genuinamente democrática e igualitária. O colonialismo fazia a mesma suposição, de que os selvagens precisavam ser mudados. A realidade mostra o contrário. Colombo era o verdadeiro selvagem, o assassino em massa genocida. Mas, de alguma forma, nos ensinaram algo diferente na escola.”

Domesticando a espécie

“Os biólogos acreditam que somos umas das chamadas espécies domesticadas. Outros animais domesticados, como vacas e ovelhas, foram selecionados para esse fim. Sabemos o que acontece com seu genoma, sabemos que eles ficam com ossos mais finos e cérebros menores, ficam mais brincalhões, levam mais tempo para crescer etc. Você também vê todos esses traços em humanos. Mas, obviamente, nós nos domesticamos.

A teoria da autodomesticação é oposta ao que sempre nos ensinaram. A história padrão era que tínhamos conquistado o mundo por sermos mesquinhos, espertos ou poderosos. A realidade é que nossa simpatia e a capacidade de cooperar com outras pessoas foi o segredo do sucesso. Um dos exemplos mais fascinantes é nossa habilidade de corar. Os humanos são os únicos animais com essa capacidade. Entregamos voluntariamente nossos sentimentos a outros membros da espécie para estabelecer confiança. Por que fazemos isso? Como poderia ser uma vantagem evolutiva? A resposta é que nos ajuda a ser cooperativos.”O jornalismo e as mídias sociais

A positividade muda tudo

“O que você pensa sobre as pessoas é o que acaba conseguindo delas. Se presumir que a maioria é egoísta e que o mundo é um lugar horrível, você organiza sua sociedade em torno dessa ideia. Isso produzirá o tipo de pessoa que sua teoria pessoal pressupõe. A mudança acontece quando começamos a contar um tipo diferente de história.

Se presumir que a maioria é egoísta e que o mundo é um lugar horrível, você organiza sua sociedade em torno dessa ideia.

Portanto, meu livro é um projeto duplo. Por um lado, fala de um novo consenso científico, uma revolução entre psicólogos, sociólogos e antropólogos, que têm defendido uma visão mais esperançosa da natureza humana nas últimas décadas. Por outro, também é um livro que diz: se realmente acreditarmos que isso é verdade, podemos começar uma revolução. Uma vez que você presume que a maioria das pessoas, embora não sejam anjos, lá no fundo são bastante decentes, vai acabar fazendo tudo de maneira totalmente diferente.”

Um conselho final

O mais importante é mudar as instituições e construir um movimento contra todas as injustiças que você vê ao redor: racismo, desigualdade, etc. Não quero dar às pessoas a impressão de que a autoajuda vai alterar algo. A mudança real não começa com o indivíduo, e sim com o coletivo, a criação de um movimento. Estatisticamente, a maioria das pessoas tem boas intenções. Obviamente, você pode ser vítima de um mal-intencionado. Mas, se não aceitar que isso pode acontecer, qual a alternativa? Quer realmente passar a vida inteira desconfiando de todos? É uma maneira terrível de se viver, e você paga um preço alto por isso.

Estatisticamente, a maioria das pessoas tem boas intenções. Obviamente, você pode ser vítima de um mal-intencionado

Uma determinada pesquisa questiona: você acha que a maioria das pessoas é confiável? Em muitos países europeus, cerca de 70% das pessoas dizem que sim. Na década de 50, 60% dos americanos respondiam a mesma coisa. Hoje, esse número caiu para 30%. No caso do Brasil, apenas 5% dos brasileiros responderam positivamente a essa questão. Então, apesar de ter publicado este livro em holandês, talvez ele seja muito mais relevante para os leitores brasileiros. A confiança é o capital mais precioso que você tem. É preciso construir pontes entre pessoas de cores, bairros e origens diferentes. Se elas não se conectarem, não se olharem nos olhos, será muito difícil que aceitem umas às outras.”

Produto

  • Humanidade: Uma História Otimista do Homem
  • Rutger Bregman
  • Crítica
  • 464 páginas