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Artigo

Vanessa Rozan: Envelhecer antes mesmo de envelhecer

Maquiadora e apresentadora que pesquisa a imagem da mulher na sociedade escreve sobre o advento e os efeitos dos chamados filtros de envelhecimento

Vanessa Rozan 16 de Novembro de 2025

Vanessa Rozan: Envelhecer antes mesmo de envelhecer

Vanessa Rozan 16 de Novembro de 2025

Maquiadora e apresentadora que pesquisa a imagem da mulher na sociedade escreve sobre o advento e os efeitos dos chamados filtros de envelhecimento

Tem momentos em que escapo para as redes sociais para cinco minutos de apodrecimento de cérebro e, entre vídeos de gatinhos e tutoriais malucos de maquiagem, observo as sugestões que a plataforma vai me fazendo, baseada na esperteza dos algoritmos que sabem quantos milissegundos meu olho passou por esse ou aquele vídeo, o que eu salvei, o que eu compartilhei, o que eu comentei, tudo.

Nessas escapadas, me deparei com uma nova modalidade de filtro. Antes de contar como ele funciona, vou entrar no assunto deste texto que é a passagem do tempo e o processo natural de envelhecimento. Há dois anos, o Tiktok lançou um filtro que dividia a tela do seu celular em duas partes, uma delas mostrava seu rosto atual e a outra, seu rosto envelhecido, com a aplicação de um filtro que simulava os efeitos da passagem do tempo, como uma previsão do futuro. Kylie Jenner, a fundadora da marca de beleza que leva seu nome, gravou um vídeo em seu perfil usando esse filtro. Ela fala “eu não gosto disso”, “eu não gosto nada disso”, e segue balançando a cabeça e dizendo alguns nãos enquanto reage a sua imagem com rugas, bolsas embaixo dos olhos e cabelos brancos.

O processo natural de envelhecimento do ser humano acontece lentamente, uma pessoa nunca teria vinte e cinco anos em um dia e sessenta no dia seguinte. Essa passagem do tempo vai se apresentando no nosso corpo de forma que também nossa mente possa, na mesma velocidade, assimilar esse processo. Você vai amadurecendo e entendendo as maravilhas que ganha com isso, a experiência, a tranquilidade e a confiança em si, e também vai entendendo que o corpo muda.

Antes da existência desse filtro aí, a gente não tinha como saber como se daria essa passagem do tempo no nosso rosto. Tínhamos uma certa referência ao ver fotografias dos parentes e imaginar, mas ainda assim, imaginar num lugar bem difícil de tatear, de montar a imagem final. Nem era algo que uma pessoa ficava se pegando em pensar horas, “nossa como será que eu vou ser daqui cinquenta, sessenta, setenta anos?”, pelo menos não lembro de com vinte anos ficar projetando uma Vanessa de oitenta.

A coisa acontecia um dia por vez, e ali na frente vinha um cabelo branco, primeiro só um fio, depois uma mecha, daí uma linha no rosto, que por conta de repetidas expressões, ficou mais presente e acabou deixando a marca da passagem de várias emoções por aquele lugar. Essas emoções todas também trouxeram mais discernimento, um entendimento maior da estrutura em que se vive, uma simplificação de jeito de encarar a vida, pensando em aproveitar mais e se preocupar menos com o que o outro acha. Agora imagina se ver envelhecido de um jeito muito realista, refletido no espelho da tela do seu celular subitamente só que com a vivência e a mente de vinte e poucos anos ou menos?

Nem o nosso descanso agora é livre da tentativa do controle da passagem do tempo

Não à toa, nem o nosso descanso agora é livre da tentativa do controle da passagem do tempo. É só buscar pela hashtag Morning Shed, que se tornou um estilo de vídeo onde pessoas muito jovens mostram suas rotinas matinais removendo camadas e camadas de skincare e acessórios que usaram durante a noite para combater o envelhecimento.

Só que a maior loucura é que os sinais desse envelhecimento nem se apresentam nessas pessoas, parece um delírio de que, ao fazer isso, o sujeito está organizando um banco de juventude, como se fosse possível não envelhecer. “Eu me cuidei tanto que vou envelhecer menos”, tipo a ideia do milionário que estava gastando sua fortuna e testando seu corpo para estabelecer um protocolo que poderia reverter a passagem do tempo. Alerta spoiler, não deu certo.

Claro, a dermatologia e a cosmetologia caminham a passos largos no desenvolvimento de procedimentos e produtos que amenizam os sinais da passagem do tempo no corpo mas, ainda assim, esse tempo passará, de forma mais ou menos evidente a depender dos seus genes e do seu estilo de vida. Hoje, também, vivemos muito mais do que no século passado, e todo mundo quer um certo conforto estético. Entre as mulheres, a pressão é muito maior. Somos julgadas pela aparência desde o nascimento até o último suspiro. A indústria cinematográfica já fez muitas bruxas e monstros com a imagem de mulheres mais velhas, temos um ótimo exemplo prático disso no filme “A Substância”. Nada pior pode acontecer a uma mulher do que ela aparentar velhice.

Temos hoje cirurgias plásticas que são feitas de forma tão moderna, minimamente invasivas, com resultados impressionantes — mesmo não tendo ainda a cura para a endometriose. Prioridades, amores. E sim, que ótimo contar com poder aparentar 35 anos pra sempre, não necessariamente para sempre-sempre, mas por mais tempo, com esses novos métodos cirúrgicos (para quem pode pagar por eles). Recomendo a ótima coluna de Bridget Read na New York Magazine sobre o assunto.

O ponto é que cada vez mais cedo começa a preocupação com o resultado apresentado no filtro do envelhecimento: skincare aos nove anos, toxina aos 20, preenchedor aos 30, facelift aos 40. Agora existe uma nova modalidade de filtro onde a IA anima uma foto sua abraçando sua versão mais velha, foi isso que vi esses dias. Não sei se numa tentativa de “fazer as pazes” com a possível imagem do futuro, ainda assim, a coisa te apresenta sua versão adiantada sem te dar a chance de processar isso um dia após o outro, no tempo do tempo real. Isso só pode causar angústia em alguém jovem, despreparado para lidar com uma projeção de futuro que nem sabe se vai ser aquilo mesmo, mas que aos seus olhos é entendido como algo horrível, um choque. Ainda mais de forma comparativa, colocando seu rosto atual ao lado da versão madura.

O filtro do envelhecimento apareceu primeiro em 2019, no FaceApp, um aplicativo que usa IA para editar suas fotos. Depois, logo entrou nas plataformas de redes sociais. No Tiktok primeiro, onde apareceu em várias versões desde então. E não é que a gente viu, na sequência, a invasão dos pré-adolescentes nas lojas de beleza atrás de skincare? Uma baita coincidência. O medo de envelhecer parece ser mesmo o maior medo, atormenta nosso sono e se torna tão assustador que vira monstro de filme de terror.

Vanessa Rozan é maquiadora, apresentadora de TV, curadora de beleza e bem-estar e colunista da Gama. É fundadora do Liceu de Maquiagem, uma escola e academia de maquiagem e beleza profissional, que durou 14 anos. Fez mestrado em comunicação e semiótica pela Puc-SP, onde pesquisou o corpo da mulher no Instagram e, agora, segue com o doutorado na mesma instituição.

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