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Reportagem

Existe uma idade certa para parar?

Qual a faixa etária em que dirigir e até atividades básicas como cozinhar se tornam um risco? Especialistas mostram que a idade nem sempre é o principal fator

Leonardo Neiva e Tereza Novaes 15 de Novembro de 2025

Existe uma idade certa para parar?

Leonardo Neiva e Tereza Novaes 15 de Novembro de 2025

Qual a faixa etária em que dirigir e até atividades básicas como cozinhar se tornam um risco? Especialistas mostram que a idade nem sempre é o principal fator

Parar de dirigir, deixar de cozinhar, abdicar da carreira ou mesmo abrir mão de cuidar das próprias finanças. Para muita gente, ainda pode parecer algo distante, mas envelhecer também significa diminuir o ritmo ou até parar de exercer algumas dessas atividades — inclusive as mais básicas, que ajudaram a nos forjar como adultos.

Mas existe idade certa para se aposentar ou parar de cuidar da casa, por exemplo? Consultados pela Gama, especialistas apontam um cenário bem mais complexo e individualizado do que isso. Na grande maioria dos casos, não há idade certa para interromper essas atividades. Em vez disso, o prazo tem muito mais relação com nosso organismo, nossa motivação e as capacidades físicas e mentais.

Quando corpo e mente começam a dar sinais de que as tarefas cotidianas estão exigindo mais do que eles podem oferecer de maneira segura, pode ser hora de reavaliar e empreender mudanças profundas na rotina. E os familiares são uma peça central da equação, não só para coordenar essa mudança como para realizá-la da maneira mais adequada possível. Até porque proibir totalmente certas atividades nem sempre é a melhor solução. A seguir, veja como identificar a melhor forma de agir nesses momentos.

Dirigir

“Não é a idade que define, e sim a funcionalidade”, explica a médica geriatra Natália Barbato. “Tenho pacientes com 87, 90 anos que ainda dirigem muito bem. E outros bem mais novos que já não têm condições de fazê-lo.”

Após os 70, a carteira de habilitação precisa ser renovada a cada três anos, mas é muito importante avaliar também no dia a dia as condições da pessoa. “Ande de carro com a pessoa, se ela dirige bem, não tem porque você proibi-la”, sugere a médica.

Já quando há tremores, perda de reflexo, falta de concentração, lapsos de memória e redução da força muscular talvez já não seja mais seguro. “Muitas vezes, o idoso não percebe que perdeu a coordenação necessária”, diz Barbato. “É aí que a família precisa intervir, às vezes de forma firme, porque dirigir não envolve só a própria segurança, mas a dos outros.”

Nessa hora, se a pessoa insistir em dirigir, procure um médico e peça ajuda para convencê-la a parar. Em alguns casos, a intervenção precisa ser um pouco mais extrema. “Há famílias que escondem a chave ou até arrancam o motor do carro”, conta a médica.

Trabalho

De 2012 a 2024, o número de idosos ocupados no país subiu quase 69%, chegando a 8,6 milhões, segundo um estudo do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV IBRE). Essa realidade abarca uma série de fatores, como o envelhecimento da população brasileira, as mudanças na legislação trabalhista, o aumento do custo de vida — que se reflete na necessidade de se manter empregado até mais tarde — e também alterações na relação da sociedade com o trabalho.

Como em outros casos, a hora certa de se aposentar ou reduzir as atividades profissionais depende menos da idade do que de outros fatores que variam de pessoa para pessoa. Por exemplo, o tipo de trabalho que você realiza. Esse cálculo pode ser muito diferente para alguém que exerce funções físicas, como o operário de uma fábrica ou um trabalhador da construção civil, e para quem está num emprego que demanda habilidades mais intelectuais.

“Depende muito de quais habilidades você utiliza, se são físicas, cognitivas, visuais, auditivas, e como elas estão dentro do seu organismo”, explica o médico geriatra e mestre em ciências da saúde aplicadas ao esporte Carlos André dos Santos. “Quanto mais física for a atividade, maiores são as chances de você ter que se adaptar, abandonar ou reciclar as suas funções mais cedo.”

O geriatra também leva em conta elementos que vão além do envelhecimento, como a motivação no trabalho. Ele aponta que as próximas gerações de idosos devem contemplar indivíduos que se reinventaram ou até mudaram totalmente o ramo de atuação ao longo da vida, seja por afinidade pessoal seja por necessidade — devido aos avanços tecnológicos ou às rápidas alterações no mercado.

“Recentemente, fui ao aniversário de uma paciente minha que está fazendo 96 anos de idade e toca uma editora de livros especializados na área de artes. Ela trabalha até hoje e vai continuar trabalhando”, exemplifica.

Atividades domésticas

Cozinhar, ir à feira e ao mercado são tarefas do cotidiano que se tornam uma distração, às vezes até mais do que uma necessidade, mas que requerem destreza e atenção. “A partir do momento em que a pessoa esquece as coisas no fogo ou não desliga o fogão, não dá mais. É também uma questão de segurança”, afirma Barbato.

Mas esse também pode ser um momento delicado, que demanda equilíbrio. Afinal, a principal meta deve ser cuidar da segurança dos idosos, sem necessariamente suprimir atividades que costumam ser prazerosas para eles. Um possível empecilho em idades mais avançadas é a resistência a grandes alterações na rotina ou mesmo um sentimento crescente de perda de autonomia.

Para Santos, quanto mais cedo os familiares conseguirem abordar o assunto junto ao idoso, melhor. “Nos últimos dez anos, isso tem sido feito com mais frequência [nas famílias brasileiras], principalmente com octogenários que passaram por experiências parecidas com seus pais 20 ou 30 anos atrás. Como essas pessoas tiveram oportunidade de refletir sobre esse momento da vida, fica mais fácil tratar do assunto e alterar ou redividir tarefas”, afirma o geriatra.

Como no caso da direção, o ideal na maior parte das vezes é observar de perto o comportamento e também se precaver. Em relação às atividades na cozinha, por exemplo, um bom caminho é equipar a casa com detectores de fumaça e gás. “Claro que precisa ter cuidado, mas eu também costumo aconselhar a família a não tirar tudo que a pessoa gosta de fazer, como, por exemplo, ir à feira ou ao mercado. Em alguns casos, é só questão de ter alguém para acompanhá-la”, diz Barbato.

Cuidar do próprio dinheiro

Um dos temas mais delicados é o controle financeiro. “Além de todos os golpes, às vezes, a pessoa idosa não consegue mais coordenar pagamentos, paga conta em duplicidade, ou vai ao banco retirar dinheiro, onde outras pessoas podem abordá-la”, lista Barbato. A sugestão em casos como esses é abrir uma conta com um montante mínimo, para a pessoa usar no dia a dia, e deixar as quantias maiores e a coordenação da vida financeira para os filhos.

Uma pesquisa da Universidade de Binghantom, em Nova York, quebr estereótipos sobre o tema ao mostrar que os adultos se tornam até mais competentes com suas finanças conforme o avançar da idade. Por isso, o papel dos familiares pode ser mais de orientadores e guardiões do que necessariamente de tomar para si todos os encargos financeiros.

Especialmente se a pessoa ainda se mantém lúcida e com boas condições cognitivas, Santos defende sempre o caminho do diálogo franco, calmo e transparente, que aponte os riscos e possíveis problemas que podem surgir pelo caminho caso não haja nenhum tipo de cuidado.

A história muda, claro, quando existe um quadro de declínio cognitivo. Em casos graves, muitas vezes é preciso até fazer uma intervenção judicial. “Se a pessoa já não tem mais condição e está começando um quadro demencial, nós, como médicos, fazemos uma avaliação e redigimos uma carta para a família entrar na Justiça”, Barbato acrescenta.

Praticar esportes

Ao tratar de atividades físicas, o geriatra e especialista em saúde no esporte Carlos André dos Santos reforça que a discussão principal ainda deve acontecer no sentido contrário. Até porque ainda são poucos os idosos que se mantêm frequentemente ativos no Brasil — cerca de 14% deles, de acordo com o IBGE. Portanto, a discussão continua centrada no incentivo à prática de exercícios leves ou moderados com regularidade, como um dos principais fatores inclusive para um envelhecimento saudável.

Mas, para a parcela de pessoas que já praticam atividades físicas, o que o médico recomenda é uma orientação e acompanhamento individualizados. “Não é só o tempo que você se exercita, mas também a intensidade dessa atividade. Se for uma intensidade que exige menos do seu organismo, provavelmente você vai conseguir fazer isso por um tempo maior”, explica o especialista.

O declínio fisiológico natural, como a perda de massa muscular, a redução da capacidade aeróbica e o surgimento de doenças, podem sim restringir a capacidade de se exercitar, especialmente em alta intensidade. Mas isso não deve necessariamente fazer com que o idoso passe a ser menos ativo.

Santos dá como exemplo provas de triatlo, em que costumam haver competidores com mais de 70 anos. “Essas pessoas têm que ser acompanhadas, avaliadas, reavaliadas, orientadas, por profissionais preparados, educadores físicos, médicos do esporte e nutricionistas”, afirma o geriatra.

Ele destaca a importância de evitar lesões e problemas de saúde caso o exercício se mostre excessivo. “O risco circulatório muitas vezes é alto, e isso precisa ser adequado individualmente.” Outros fatores importantes a avaliar são a força óssea e muscular e as capacidades cognitivas. Por isso, contam mais a condição física e o acompanhamento contínuo do que propriamente a faixa etária. Se surgirem sinais de alerta como dores e lesões, pode ser necessário reduzir a intensidade ou até buscar outra modalidade mais adequada — mas não deixar de se movimentar.

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