E aquele projeto, andou?
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Depoimento

Wesley de Jesus: como sustentar um projeto que parece inalcançável

Primeiro lugar em Medicina na USP relata o caminho até a aprovação, marcado por fé, disciplina e a decisão de transformar o estudo em prazer

Depoimento a Sarah Kelly 22 de Fevereiro de 2026

Wesley de Jesus: como sustentar um projeto que parece inalcançável

Depoimento a Sarah Kelly 22 de Fevereiro de 2026
Foto: Arquivo pessoal

Primeiro lugar em Medicina na USP relata o caminho até a aprovação, marcado por fé, disciplina e a decisão de transformar o estudo em prazer

Morador de Cajazeiras, na periferia de Salvador, Wesley de Jesus Batista, de 23 anos, cresceu entre os corredores lotados do Sistema Único de Saúde. Ele, que é filho da empregada doméstica dona Liliana e do pedreiro seu Djalma, convive com a asma crônica, condição que o levou a sucessivas internações. Foi justamente ali, observando médicos e enfermeiros em ação, que passou a sonhar em se tornar médico.

Sem espaço adequado para estudar em casa, ele fez da biblioteca da escola seu refúgio e adotou a disciplina de um “competidor de alto rendimento”, recorrendo a apostilas usadas e aulas gratuitas na internet. Após cinco anos de preparação intensa, conquistou o primeiro lugar em Medicina na Universidade de São Paulo (USP) em 2026, usando a nota do Enem. Hoje, mobiliza uma rede de solidariedade para custear sua mudança e a vida em São Paulo. A seguir, Wesley conta como construiu seu projeto de aprovação em meio às dificuldades, o que o motivou e o que espera para o futuro.

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“Eu acho que o sonho de estudar Medicina na USP começou a ganhar mais contornos de realidade quando eu entrei no ensino médio. Também tem muita relação com o meu processo de conversão enquanto cristão. Foi nesse meio tempo que comecei a observar e ver as coisas com outros olhos — não só a questão educacional, mas a vida como um todo. Eu sempre gostei de estudar, mas quem vem do ensino público sabe que o estímulo não consegue ser mantido de forma sustentável por muito tempo. No meio do caminho surgem pedras: problemas pessoais, dificuldades na escola, falta de professor, criminalidade que impede aula, greve, uma série de situações que fogem do nosso controle.

Quando a gente chega no ensino médio, pelo que eu notei, muitos ficam ainda mais desestimulados, porque começam a perceber que não têm o arcabouço de conteúdo que precisariam para fazer uma prova como o Enem, que cobra todo o ensino médio. Só que em vez de olhar os problemas como falta de combustível, passei a usá-los como combustível. O que eu pude fazer foi, a partir daquele momento, dimensionar o que eu precisava fazer para mudar aquela realidade. E o que eu tinha que fazer era estudar: entender o que eu já sabia, o que eu não sabia e o que eu achava que sabia, mas na verdade não sabia.

A partir desse panorama, comecei a me organizar e buscar uma solução. Sabia que não seria imediata, porque, normalmente, o jovem acha que o retorno da educação é a curto prazo, mas na verdade é médio e longo prazo. E aí muitos não conseguem se manter nesse processo.

No terceiro ano do ensino médio intensifiquei mais a preparação, já sabendo que muito provavelmente eu não conseguiria naquele momento. Já sabia que tinha um problema enorme a enfrentar: fechar lacunas no meu processo de estudos. Eu já tinha iniciado essa etapa, e daí também nasceu a vontade de fazer USP, por ser a maior e melhor universidade da América Latina, principalmente para medicina, um dos cursos mais disputados do Brasil. Mas também sabia que seria uma missão árdua, que não seria da noite para o dia, e eu nem conseguia dimensionar em quanto tempo isso aconteceria.

Eu tinha outra carta na mão: passar no meu estado, para não ficar só ‘dando soco em ponta de faca’. Consegui passar nessa segunda opção, que era o meu plano B, mas continuei estudando. Esse foi o processo mais difícil, porque eu tinha que conciliar os estudos para o Enem com os estudos da faculdade em que já tinha ingressado. O tempo ficou mais escasso, eu precisava dedicar mais esforço e energia para ter bom desempenho nos dois.

A fé foi essencial nesse processo. Lendo a Bíblia, ampliei meu repertório e passei a buscar no dicionário o sentido das palavras dentro do contexto, o que me trouxe discernimento. Aos 15, 16 anos, em meio a tantas mudanças, essa transformação me fez perceber que eu vivia no automático e que me faltavam disciplina, constância e resiliência. A partir daí, entendi que nada viria sem esforço e que qualquer oportunidade, por menor que fosse, precisava ser agarrada. Nem todo mundo enxerga assim, mas aprendi que a educação não é só meio de ascensão social: ela transforma a forma de pensar. Quanto mais estudo, mais percebo que sei pouco. O conhecimento é um oceano, e sigo tentando me aproximar dele.

Para não desistir, eu precisava tornar o estudo prazeroso. Muitas vezes você senta para estudar e aquilo parece massante. Mas eu tentava olhar o processo com outros olhos. Se eu começasse estudando com raiva, com ódio, achando que era só obrigação, eu já começaria fracassando. Esse tipo de motivação tem limite. Chega uma hora em que ela se dissipa, e você precisa da constância. E constância exige disciplina.

Eu me disciplinei e me policiei para não me dispersar. Tentava focar de verdade no que precisava fazer, porque não adianta estar sentado com o livro aberto e não estar estudando de fato. Eu me diagnosticava o tempo todo: fazia listas de questões, simulados, principalmente no final da preparação, para ver se estava realmente retendo o conteúdo.

Eu não delimitava um número fixo de questões. Pegava o assunto, estudava, e depois buscava listas sobre aquele tema. Se eu estivesse acertando 85% ou mais, entendia que estava indo bem. Se estivesse indo mal, precisava investigar o que estava acontecendo. Era um diagnóstico mesmo. Se fosse falta de atenção, eu redobrava a atenção na resolução. Se fosse falta de domínio, voltava ao conteúdo.

De onde vem a motivação

O principal combustível era olhar para a minha realidade. Eu pensava: se eu não correr atrás, se eu não pedir a Deus força e ânimo para me manter firme, eu não vou conseguir continuar. No início a gente começa com todo o gás, mas depois esfria. Se eu não tivesse um propósito muito claro, eu poderia simplesmente parar.

Então, passei a olhar o estudo não só como meio para conquistar uma vaga na universidade — isso era um foco, claro —, mas como forma de ampliar minha visão de mundo, romper bolhas, entender que eu não sou o único no planeta e que passar numa prova não me torna especial. Sou só mais um. Inclusive, acredito que existam e existiram pessoas com mais aptidão do que eu para estar onde estou. Mas entendo que há um propósito por trás dessa trajetória e que, principalmente dentro da medicina, ainda vou compreendê-lo melhor.

Meu projeto levou cinco anos e incluiu tentativas frustradas. Quando vi os resultados negativos, me questionei muito: será que eu estava estudando certo? Será que estava perdendo tempo? Será que não deveria estar trabalhando, ajudando em casa? O desânimo vinha, mas era quase agridoce, porque junto com ele vinha uma força para continuar. Ano após ano, meu desempenho aumentava. Quando comparava minha primeira nota com a última, via uma evolução clara. Eu estava subindo a ladeira, podia estar demorado, mas estava subindo.

No fim, eu já acertava entre 140 e 150 questões de 180 nos simulados, mas sabia que precisava ir além, porque a disputa era alta. No Enem em que passei, acertei 167 das 177 questões válidas e tive ótimo desempenho nas áreas, chegando a gabaritar algumas. Minha redação, porém, veio com 780 pontos, algo totalmente fora do meu padrão — eu sempre tirava acima de 900. Mandei para correção paralela e recebi nota mil. Depois vieram denúncias de mudanças nos critérios de correção após a aplicação da prova, o que prejudicou muita gente. Foi desesperador pensar que poderia perder tudo por causa disso, porque não há recurso no Enem. Mas, graças a Deus, minhas notas nas outras áreas foram suficientes para aprovação.

Eu poderia ter usado minha nota em outras universidades públicas, mas sempre quis a USP pela excelência em ensino e pesquisa. Sempre mirei alto porque sabia que, se alcançasse esse nível, teria portas abertas em qualquer lugar.

Sobre a rede de apoio, ela foi fundamental. A gente pode entender que tem um propósito, mas no meio do caminho sempre surge uma pedra — e às vezes uma rocha enorme, que parece intransponível. Lembro de frases que me marcaram. Um professor de português disse que, se achávamos difícil a vida na escola, imagina lá fora: ‘Vocês vão levar paulada das moleiras’. Aquilo ficou na minha cabeça, comecei a queimar neurônios, gastar energia para poder entender o que ele queria dizer: ‘Acho que ele está falando em relação à dureza da vida mesmo lá fora’.

Eu já tinha trabalhado no ensino médio, ajudando a pintar parede numa empresa, saía de manhã para o trabalho e ia direto para a escola, almoçava lá mesmo. E comecei a entender que eles falavam por experiência. Outra professora dizia que difícil é entrar na faculdade, mas sair pode ser ainda mais difícil. Eu não via isso como desmotivação, mas como preparação. Eles estavam me forjando para entender que seria árduo, mas que eu não deveria desistir.

Aprendi que o fracassado de verdade não é quem tenta e não consegue, mas quem desiste no meio do processo ou nem tenta. Quem dá o primeiro passo já começa vitorioso. Mesmo que não alcance exatamente o objetivo inicial, a educação retribui de alguma forma.

Os próximos passos

Agora, aprovado em Medicina na USP, minha expectativa é alta. Sei que novos desafios virão: mudar de estado, enfrentar um custo de vida muito maior. Por isso surgiu a vaquinha, para ajudar a me manter durante os seis anos de curso. Muita gente tem ajudado, mandado mensagens, demonstrado solidariedade. Eu vejo nisso também a mão de Deus, mostrando que não estive sozinho nesse processo.

Sempre pensei em cirurgia, às vezes é um clichê pra muita gente que quer virar médico, mas no meu caso é desde pequeno, talvez por causa das minhas internações na infância por problemas respiratórios. Quero retribuir o atendimento que recebi, mas com ainda mais qualidade. Já encontrei médicos que nem olhavam no meu rosto, e isso se tornou para mim um exemplo do que não fazer. Sempre tentei transformar experiências negativas em aprendizado.

E se eu pudesse dar um conselho para quem está começando um projeto ambicioso, diria: confie em Deus e mantenha os pés no chão. Entenda onde você está e onde quer chegar. Não coloque a carroça na frente dos bois. É um processo, como uma criança aprendendo a andar: primeiro engatinha, depois fica de pé, depois dá os primeiros passos. Na educação é igual. Você começa como uma página em branco e escreve sua própria história. Com propósito claro, disciplina e fé, lá na frente você olha para trás e entende que valeu a pena cada abdicação, cada esforço. E aí você percebe que foi protagonista da própria trajetória.”

Um assunto a cada sete dias