Reino Transcendente — Gama Revista

Trecho de livro

Reino Transcendente

Livro da autora ganense-americana Yaa Gyasi narra os dramas familiares e cotidianos de uma jovem imigrante na busca por se integrar

Leonardo Neiva 18 de Junho de 2021

POR QUE LER?

Um pai fugido para seu país natal, uma mãe depressiva que busca na obsessão religiosa um consolo para a vida sofrida e um irmão antes promissor, que acaba se afundando em drogas após sofrer uma grave lesão. É essa a ironia do “sonho americano” vivido pela jovem protagonista Gifty no livro “Reino Transcendente”. Filha de pais africanos que deixaram Gana em busca de oportunidades nos Estados Unidos, ela representa os dramas e cicatrizes cotidianos com que muitos dos imigrantes precisam lidar na tentativa de se integrar a uma sociedade que não está disposta a acolhê-los de braços abertos.

Ela mesma uma imigrante de origem ganesa que cresceu no estado do Alabama, a autora Yaa Gyasi busca em sua literatura explorar o presente sempre à sombra do passado. Em seu livro de estreia, “O Caminho de Casa” (Rocco, 2017), ela traçava as histórias de duas irmãs e sete gerações de descendentes, delineando o impacto da escravidão em suas diversas faces. Além do título de best-seller pelo The New York Times, a obra garantiu a Gyasi um lugar na lista de cinco autores com menos de 35 anos do National Book Foundation e o prêmio PEN/ Hemingway 2017 na categoria melhor livro de estreia.

Sem recorrer a sentimentalismos, maniqueísmo ou poupar o leitor de detalhes desagradáveis, a escrita da autora é direta como o cotidiano de seus personagens. No seu segundo livro, ela equilibra de forma invejável resignação e inconformismo, desespero e esperança, na trama de uma jovem cientista, que, apesar de reunir todos os elementos para dar certo, precisa ainda lidar com racismo, xenofobia e uma pesada herança histórica em sua árdua caminhada rumo ao sucesso pessoal e profissional.


Na época em que eu queria ouvir toda a história dos motivos de meus pais terem imigrado para os Estados Unidos, ela já não era uma história que minha mãe quisesse contar. A versão que chegou a mim — que minha mãe queria dar o mundo a Nana, que o Cara do Chin Chin tinha relutado em concordar — nunca me pareceu suficiente. Como muitos americanos, eu sabia pouquíssimo sobre o resto do mundo. Eu tinha passado anos contando mentiras rebuscadas aos colegas da escola sobre como meu avô era um guerreiro, um domador de leões, um chefe de uma tribo.

– Na verdade, eu sou uma princesa — eu disse a Geoffrey, um aluno na minha turma no jardim de infância que estava sempre com o nariz escorrendo. Geoffrey e eu nos sentávamos a uma mesa, sozinhos, bem nos fundos da sala de aula. Sempre desconfiei de que minha professora me pusera ali como uma espécie de castigo, como se tivesse me designado aquele lugar para eu ser obrigada a olhar para a lesma de ranho no centro do lábio superior de Geoffrey e sentir meu não pertencimento com ainda maior intensidade. Eu me ressentia com tudo isso e me esforçava ao máximo para torturar Geoffrey.

– Não é, não — disse Geoffrey. — Uma negra não pode ser princesa.

Fui para casa e perguntei à minha mãe se isso era verdade, e ela me mandou calar a boca e parar de importuná-la com perguntas. Era o que ela dizia a qualquer hora em que lhe pedisse para contar histórias; e, naquela época, tudo o que eu fazia era pedir que contasse histórias. Queria que suas histórias sobre a vida que levava em Gana com meu pai fossem cheias de reis, rainhas e maldições, que explicassem por que meu pai não estava ali, em termos muito mais grandiosos e elegantes do que a história simples que eu conhecia. E, se nossa história não pudesse ser um conto de fadas, eu até estava disposta a aceitar um relato como os do tipo que eu via na televisão, naquele tempo em que as únicas imagens que chegava a ver da África eram as de pessoas atingidas pela guerra e pela fome. Mas nas histórias da minha mãe não havia guerra; e, se havia fome, era de um tipo diferente, a simples fome daqueles que tinham recebido um alimento, mas queriam outro. Uma fome simples, impossível de saciar. Eu também tinha uma fome, e as histórias que minha mãe me servia nunca eram exóticas o suficiente, nunca desesperadas o suficiente, nunca eram suficientes para me fornecer a munição que eu achava que precisava para enfrentar Geoffrey, sua lesma de ranho, minha professora do jardim de infância e aquela cadeira no fundo da sala.

Queria que suas histórias sobre a vida que levava em Gana com meu pai fossem cheias de reis, rainhas e maldições, que explicassem por que meu pai não estava ali

Minha mãe me contou que o Cara do Chin Chin veio ao encontro dela e de Nana nos Estados Unidos, alguns meses depois que eles se mudaram para o Alabama. Foi a primeira vez que viajou de avião. Ele pegou um tro-tro para Accra, levando só uma mala e um saquinho do achomo da minha avó. Enquanto sentia os corpos das centenas de outros passageiros no ônibus fazendo pressão contra ele, com suas pernas cansadas e doloridas de ficar em pé por quase três horas, ele era grato por ser alto, por poder respirar profundamente o ar fresco que pairava acima de todas as cabeças.

Em Kotoka, os funcionários do portão de embarque o tinham incentivado e lhe desejado boa sorte quando viram seu destino. “Manda me buscar, chale”, eles disseram. No JFK, o pessoal da Alfândega e Imigração confiscou seu saco de chin chin.

Naquela época, minha mãe ganhava dez mil dólares por ano, trabalhando como cuidadora doméstica para um homem chamado sr. Thomas.

“Não posso acreditar que os panacas dos meus filhos me impingiram uma negra”, ele costumava dizer. O sr. Thomas tinha mais de oitenta anos e estava nos estágios iniciais da doença de Parkinson, mas os tremores não o impediam de ser desbocado. Minha mãe limpava seu traseiro, dava-lhe comida,assistia ao Jeopardy! com ele, sorrindo desdenhosa quando ele errava praticamente todas as respostas. Os panacas dos filhos do sr. Thomas tinham contratado cinco outras cuidadoras antes da minha mãe. Todas tinham largado o serviço.

“VOCÊ. FALA. INGLÊS?”, gritava o sr. Thomas todas as vezes que minha mãe lhe trazia as refeições saudáveis para o coração, pelas quais os filhos pagavam, em vez do bacon que ele tinha pedido. O serviço de cuidadoras domésticas tinha sido o único lugar que contratou minha mãe. Ela deixava Nana com a prima, ou o levava junto para o trabalho, até o sr. Thomas começar a chamá-lo de “macaquinho”. Daí em diante, na maioria das vezes, ela deixava Nana sozinho enquanto cumpria as doze horas do seu turno noturno, rezando para ele dormir até de manhã.

O Cara do Chin Chin teve mais dificuldade para encontrar trabalho. O serviço de cuidadores domésticos o contratou, mas muita gente se queixava quando o via entrar pela porta.

– Acho que as pessoas tinham medo dele — minha mãe me disse uma vez, mas se recusou a me dizer por que tinha chegado a essa conclusão. Ela quase nunca admitia a existência do racismo. Até mesmo o sr. Thomas, que nunca chamou minha mãe de outra coisa que não fosse “aquela negra”, era, aos olhos dela, só um velho com a mente confusa.

Até mesmo o sr. Thomas, que nunca chamou minha mãe de outra coisa que não fosse “aquela negra”, era, aos olhos dela, só um velho com a mente confusa

Mas quando caminhava com meu pai, ela via como o povo americano mudava diante de homens negros altos. Ela o via tentar se encolher de tamanho, com as costas longas e altivas se curvando enquanto ele andava com minha mãe pelo Walmart, onde foi acusado de furto três vezes em quatro meses. A cada vez, eles o levavam para uma salinha perto da saída da loja. Eles o encostavam na parede e apalpavam seu corpo inteiro, com as mãos subindo por uma perna da calça e descendo pela outra. Com saudades da terra natal, humilhado, ele parou de sair de casa.

Foi então que minha mãe encontrou a Primeira Igreja da Assembleia de Deus na Bridge Avenue. Desde sua chegada aqui, ela deixara de ir à igreja, preferindo trabalhar todos os domingos, porque o domingo era o dia da semana que os moradores do Alabama queriam ter de folga para os dois atos sagrados — ir à igreja e assistir ao futebol. O futebol americano não significava nada para minha mãe, mas ela sentia falta de um lugar de culto. Meu pai fazia com que ela se lembrasse de tudo o que devia a Deus, fazia com que se lembrasse do poder contido em suas orações. Queria fazê-lo sair daquela situação medonha; e para isso precisava ela mesma sair da sua própria.

A Primeira Igreja da Assembleia de Deus era uma pequena construção de tijolos, não maior do que uma casa de três quartos. Lá na frente, havia um grande letreiro que exibia mensagens bonitinhas destinadas a atrair as pessoas. Às vezes, as mensagens eram perguntas. Você já se encontrou com Ele? ou Sabe quem é Deus? ou Está se sentindo perdido? Às vezes, eram respostas. Jesus é a razão do Natal! Não sei se as mensagens do letreiro foram o que atraiu minha mãe, mas sei que a igreja se tornou seu segundo lar, seu mais profundo local de culto.

No dia em que ela entrou, a música estava tocando pelos alto-falantes do templo. Enquanto a voz da cantora a chamava, minha mãe foi avançando lentamente rumo ao altar. Minha mãe obedecia. Ela se ajoelhou diante do Senhor e orou, orou e orou. Quando ergueu a cabeça, com o rosto molhado de lágrimas, ela achou que poderia se acostumar a viver nos Estados Unidos.

Quando ergueu a cabeça, com o rosto molhado de lágrimas, ela achou que poderia se acostumar a viver nos Estados Unidos

Produto

  • Reino Transcendente
  • Yaa Gyasi
  • Rocco
  • 320 páginas

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