Trecho de Livro: Hello, Brasil!, de Contardo Calligaris

Trecho de livro

Hello, Brasil!

O psicanalista Contardo Calligaris vai da herança escravocrata e corrupção política à tradição do autodesprezo para tentar entender o Brasil

Leonardo Neiva 20 de Agosto de 2021

Pode-se dizer que, ao decidir trocar o solo da França pelo Brasil, lá pelo fim dos anos 1980, o psicanalista italiano Contardo Calligaris (1948-2021) estava seduzido pelo país na mesma medida em que tinha dificuldade de compreendê-lo. De uma série de anotações iniciais rabiscadas na tentativa de entender esta terra que, por escolha, decidiu chamar de sua, nasce “Hello, Brasil!” (Fósforo, 2021), um livro que acaba se estendendo para muito além de seu propósito inicial.

Do país, onde se casou e com o qual se casou, Contardo analisou desde a persistência da tradição escravocrata até a corrupção inerente à política, sem deixar de passar pelo marcante desprezo do brasileiro por sua própria nação, o que de início foi motivo de choque para ele. “Parece-me que um europeu poderia afirmar que um governo não presta, que a situação econômica não presta ou mesmo que o povo não presta, mas dificilmente ele diria que o seu país não presta”, escreve em um dos primeiros textos da obra.

Além de um prefácio inédito da historiadora Lilia Schwarcz, esta nova edição traz também um caderno de imagens. O texto, publicado originalmente em 1991, foi revisto pelo autor em 2017, e agora está acrescido de cinco outros ensaios que também buscam apreender os caminhos da complexa psique brasileira. Nesta obra que mescla a análise de um país-sujeito a uma espécie de autoanálise, o autor, morto de um câncer em março de 2021, não apenas se coloca como uma das vozes mais interessantes da escrita e psicanálise no Brasil, como também, nas palavras de Schwarcz, traça uma das mais vigorosas interpretações já feitas da cultura nacional.


“Este país não presta”

No fim de 1988, tenho a impressão de me insinuar no Brasil no contrafluxo. Quanto mais vou decidindo me estabelecer no país, mais me deparo com a estupefação dos amigos brasileiros. Acredito que, na calorosa tentativa de me dissuadir, não haja nenhum, ou quase nenhum, ciúme (no estilo “o Brasil é meu, não venha para cá, seu estrangeiro”): parece mesmo que eles estão antevendo e querendo prevenir a necessária repetição de uma decepção secular.

Nessas tentativas de dissuasão volta assiduamente uma frase: “Este país não presta”. É uma frase corriqueira; ela aparece na conversa ocasional com motoristas de táxi e inevitavelmente ressoa nas palavras das próprias pessoas que deveriam ter e têm grande interesse na minha presença no Brasil. Causa-me estranheza ainda a facilidade com que, mesmo em situações que não são extremas, é enunciado — como prova e demonstração — um projeto de emigração: aqui não presta, vamos embora para um lugar que preste.

Finalmente entendo por que essa frase me deixa perplexo cada vez que a ouço. De fato, pouco importam as razões que cada um dá para justificar que o país não presta: a enunciação mesma da frase configura um enigma. Como é possível enunciá-la? De onde será que se pode dizer “este país não presta”? A frase pareceria natural se fosse dita por um estrangeiro, mas, como enunciação dos próprios brasileiros, ela surpreende.

Parece-me que um europeu poderia afirmar que um governo não presta, que a situação econômica não presta ou mesmo que o povo não presta, mas dificilmente ele diria que o seu país não presta. Deve haver alguma razão para que os brasileiros, em relação à própria identidade nacional, se situem em curiosa exclusão interna, que permite articular a frase que me interpela. Essa razão não deve datar de hoje.

De onde será que se pode dizer “este país não presta”? A frase pareceria natural se fosse dita por um estrangeiro, mas, como enunciação dos próprios brasileiros, ela surpreende

“Brasil, ame-o ou deixe-o”, propunha a ditadura — frase que também soa estranha aos meus ouvidos. Um fascista europeu teria dito sobre seu país: “Ame-o ou te mato”. E nenhum europeu teria encontrado como resposta a famosa frase “o último a sair apague a luz”, pois ele antes responderia reivindicando uma filiação que não aceita a alternativa proposta: “Eu sou daqui e não vou a lugar nenhum”. A história do Partido Comunista Italiano, durante a primeira década do fascismo, é exemplo disso: havia uma incessante substituição dos quadros do partido, que era clandestino, a cada vez que seus membros eram descobertos. E isso se justificava, antes de mais nada, para afirmar o direito, o dever e a necessidade de permanecer na Itália. Matem-nos, mas não sairemos daqui.

Em suma, algo nessa frase me parece testemunhar um problema de umtegração — se o leitor me permite o neologismo. Não digo um problema de integração, pois não se trata de uma dificuldade em ocultar ou uniformizar as diferenças originárias das diversas etnias. Também não se trata, é evidente, de uma falta qualquer de sentimento patriótico. Trata-se de uma dificuldade relativa ao um — ao qual uma nação refere os seus filhos —, ao significante nacional em sua história e sua significação.

Em outras palavras: se os brasileiros podiam falar de seu país como se fossem estrangeiros, é porque, de alguma forma, “Brasil” — o um das suas diferenças — devia ser algo a mais ou a menos do que um traço identificatório fundador da filiação nacional. Pois tal traço normalmente não se discute, assim como normalmente um sujeito não discute o seu sobrenome.

Mas, diabos, como funciona então esse significante nacional que permite que quem o reivindica para si enuncie a frase “este país não presta”? Encontrei ecos dessa expressão de exclusão interna em formas às vezes extremas de execração ou escárnio nas páginas dos jornais; lembro, por exemplo, de uma reportagem de capa da revista Veja sobre a fuga dos brasileiros para o exterior; outra, inacreditável, da IstoÉ, em que se via na capa o Brasil derretendo e esvaindo-se pelo ralo.

Resistindo ao contrafluxo, imaginei, então, duas figuras brasileiras que pudessem, nos corredores dos aeroportos, lançar-me a frase “este país não presta”: o colonizador e o colono.

Essas duas figuras, que desde aquela época não me deixaram e com as quais fui pensando o Brasil, devem ser entendidas como figuras retóricas. E são, na minha leitura, as figuras retóricas dominantes do discurso brasileiro. Elas têm relação com a história, pois certamente é a história da nação que compõe o quadro, a estrutura dos lugares possíveis de enunciação no Brasil.

Esteja claro que o povo brasileiro não se divide em colonizadores e colonos. Poderíamos, porém, dizer que cada um tem em si um colonizador e um colono, mas esse raciocínio seria ainda psicológico e impreciso. O certo seria dizer que, no discurso de cada brasileiro, seja qual for a sua história ou a sua posição social, parecem falar o colonizador e o colono.

O certo seria dizer que, no discurso de cada brasileiro, seja qual for a sua história ou a sua posição social, parecem falar o colonizador e o colono

O colonizador

O colonizador é aquele que veio impor a sua língua a uma nova terra, ou seja, ao mesmo tempo demonstrar a potência paterna (a língua do pai saberá fazer gozar um outro corpo que não o corpo materno) e exercê-la longe do pai. Pois talvez o pai interdite só o corpo da mãe pátria, e aqui, longe dele, a sua potência herdada e exportada me abra o acesso a um corpo que ele não proibiu.

Em outras palavras, a questão do colonizador é: será que vou poder gozar desta nova terra sem os limites, as inibições, os interditos que me limitavam no meu país de origem? Se eu conseguir, será uma dupla façanha:

1) vou demonstrar a potência paterna, pois a língua dele, o saber dele, tudo o que trouxe na embarcação e dentro de mim, vão me permitir explorar esta nova terra;

2) vou me servir da potência paterna, mas, por estar longe do pai, poderei fazer isso sem as chatas limitações que ele me impunha lá em casa.

O colonizador é o verdadeiro “explorador”, na duplicidade do fantástico equívoco que só a língua portuguesa — que eu saiba — propõe: em português, “explorar uma terra” significa tanto arrancar os seus recursos como ser o primeiro a conhecê-la (para designar as duas diferentes coisas, o francês emprega dois verbos, explorer e exploiter, e o inglês, explore e exploit). O colonizador maneja a nova terra como se possuísse o corpo de uma mulher e gritasse “goza, Brasil!”, esperando seu próprio gozo do momento em que a mulher, esgotada, se apagará em suas mãos — prova definitiva da potência do estuprador.

O colonizador deve ser quem inventou, ainda em sua embarcação rumo ao Brasil, as piadas de português, pois essa extraordinária proliferação de chistes a partir de uma vítima escolhida, embora seja frequente em outros países (os belgas, vítimas dos franceses; os berneses, dos genebrinos etc.), apresenta a característica única de ter como vítima o povo do qual se origina um grande número de brasileiros. E as piadas de português parecem-me todas redutíveis a um denominador comum, do qual resta a emblemática história das portuguesas de grandes seios. Sabe por que são elas assim? Porque os portugueses, em vez de chupar, sopram. Os portugueses são os que ficaram, os que não vieram para cá, e por isso são para sempre os que não sabem e nunca saberão gozar direito, pois renunciaram a gozar de um corpo que talvez não lhes fosse proibido.

O colonizador maneja a nova terra como se possuísse o corpo de uma mulher e gritasse “goza, Brasil!”

Mas o colonizador também é triste, pois, de qualquer forma, mesmo que o corpo entre as suas mãos não seja proibido e goze, ele sempre saberá que não é bem esse o corpo que ele queria. O corpo que queria fazer gozar era o corpo que deixou para trás, o corpo materno interditado. Esse outro corpo, que é o Brasil, explorado, gozado até o fim, esgotado, deslocado em suas mãos como um manequim, lhe aparecerá como simples lembrança de que só conseguiu fazer gozar um corpo diferente do único que importava para ele. O colonizador não pode deixar de multiplicar essa atividade de exploração que continua ilustrando a potência da língua paterna da qual se apropriou, mas constata o fracasso dessa apropriação. Pois, para exercer a potência paterna como se fosse a sua, teve de deixar o corpo da mãe pátria.

O colonizador veio então gozar da América, por isso deve esgotá-la, mas sabe que não era a América que ele queria fazer gozar.

Ele tem com o Brasil como corpo uma relação de cobrança que lhe permite dizer “este país não presta”, seja porque deveria ser o outro corpo (aquele que ele deixou), seja porque esse corpo não goza como deveria.

Quem sabe a figura do colonizador nos explique a dificuldade específica de fazer qualquer reforma agrária neste país. Expropriar, mesmo que não implique nem de longe “privar”, é de qualquer forma um gesto político inaceitável para o colonizador, pois contradiz o essencial da sua empresa. Na época, não encontrei ninguém em São Paulo, nem nas conversas dos botecos mais humildes, que aprovasse — a não ser por razões de militância partidária — a expropriação da casa dos Matarazzo, na avenida Paulista, pois foi para “possuir” a terra, só para isso, que o colonizador veio.

Produto

  • Hello, Brasil!
  • Contardo Calligaris
  • Fósforo
  • 328 páginas

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