Trecho de Livro - "Antes que Eu me Esqueça" -- Gama Revista

Trecho de livro

Antes que Eu me Esqueça

Antologia brasileira reúne 50 contos e poemas de autoras lésbicas e bissexuais, unidos pelo fio da memória e organizados pela escritora Gabriela Soutello

Leonardo Neiva 16 de Julho de 2021

POR QUE LER?

Memória, sexualidade, amizade, desejo, preconceito, descoberta. Esses e muitos outros temas formam a espinha dorsal da antologia “Antes que Eu me Esqueça” (Quintal Edições, 2021), composta por 50 contos e poemas de autoras lésbicas e bissexuais da cena literária contemporânea no Brasil. Entre elas, nomes como Natalia Borges Polesso, Monique Malcher, Nina Rizzi e muitas outras.

A obra, que a escritora e organizadora Gabriela Soutello descreve no prefácio como “uma junção de corpos dissidentes, e tão diferentes entre si”, é diversa até em suas regionalidades: são autoras que vêm de cinco diferentes regiões do Brasil. No texto, Gabriela ainda destaca que, no espaço das páginas, “relembramos, reescrevemos histórias, inventamos e honramos memórias: as das que vieram antes de nós, e também as de nós, hoje, existindo vivas, e as que vão ficar eternizadas nas narrativas que compartilhamos.”

Desse caldeirão de vivências, visões, estilos e expressões, nasce uma voz que, se não é única, representa muito bem a multiplicidade de anseios, vidas, paixões e amores de todas essas escritoras brasileiras. Seja pela exploração lírica do sexo oral e do orgasmo feminino, pela lembrança de um amor não declarado ou pelo furto de camisas listradas como ato de resistência e liberdade corporal, a memória é a cola que une essas histórias tão diversas num todo coeso e instigante, em que cada uma termina, mas também continua na seguinte, e assim por diante.


por sorte ficamos molhadas antes de aprender a dizer que estamos molhadas e com medo

Maria Isabel Iorio / lésbica, Rio de Janeiro (RJ)
@mariaisabeliorio

eu não sei falar qualquer outra língua, que não essa, desse país, e na língua desse país não conseguia dizer: nunca fiz isso antes, quer dizer: para o tesão cheguei atrasada, quer dizer: até aqui estive achando que não era pra mim, que o tesão era um vizinho, alguém que mora perto mas nunca visitamos, nunca sabemos o nome, o gosto, alguém que só me interfona quando esquece a panela no fogo e sai de casa, então eu vou lá apagar o fogo, mas não o encontro em casa, estou lá só porque ele saiu, quero dizer: eu não era infeliz, não era isso, eu jogava futebol, eu tinha uma medalha, eu sabia suar, mas achava que querer uma mulher era proibido, quero dizer: não que era proibido, mas antes, algo que não existe, como se deslocar rastejando, você pode fazer, mas vai ser fora do mundo, se você o fizer não terá compreensão, terá olhos espantados, será posta no zoológico, será vistacomo alguém que está usando o corpo errado, alguém que não está na sua espécie, essa outra espécie fala? eu quero você, eu não sei entrar em você, que língua é essa aqui debaixo? pra um pé entrar num pé basta água, temos água juntas, que susto irrecuperável, essa língua não é a desse país, eu teria de arcar com inventá-la, eu teria de me arrastar, rastejar, demorar, eu vou demorar a chegar, eu vou pelo chão, eu vou curvada, desconfortável, mas eu estou indo, ali eu entendi, eu estou indo, mas não sabia te dizer: até aqui estive cuidando dos ossos, para que fiquem de pé, para que ergam minha cabeça, mas o resto do corpo eu nunca tinha enfiado em ninguém, o resto do corpo ninguém nunca tinha enfiado em mim, sabia onde não queria enfiá-lo, quer dizer, descobri com o tempo, e cuidei de não enfiá-lo onde ele não queria, isso é um jeito de aprender a chorar, e agora você me convida pra entrar na sua casa, eu estou no portão, eu tremo, você tem 9 anos a mais que eu, eu estou assustada, digo que vou ficar só 15 minutos, que preciso ir embora, quando na verdade não tenho nada mais pra fazer, agora estamos no corredor da entrada do seu apartamento, o chão é quadriculado, é preto e branco, tem uma bicicleta apoiada na parede, penso em usá-la pra fugir, não sei andar de bicicleta, estou assustada porque sei que agora – agora sim – estou rastejando, estou verdadeiramente no chão, sem força, finalmente sem força, sem chance de dizer que não ou que sim, já não tenho essas palavras, não tenho nenhum dente que pronuncie, estou melada, não tenho como te dizer que nunca fiz isso antes, tento dizer, você não entende, que sorte, você não sabe o que eu não sei fazer, então não me ensina, você só olha pra mim, e confia na minha língua, confia que eu, aqui do chão, sei rastejar em cima de você, que minhas mãos finalmente prestam, então não caímos nem ficamos de pé, isso não é um batizado, é um aniversário, todos os pedaços batendo palma, não assopramos o fogo, só você sabe – e grita – o meu nome, todas as pessoas do mundo estão quietas, ficamos onde devemos estar, o corpo sobre o outro, se procurando, se prometendo – um segredo, uma continuação, uma espécie.

entre capas e escafandros

Aline Miranda / lésbica, Lumiar (RJ)
@outrasbagatelas

era verão, me lembro pela sensação de calor provocada na pele. na areia, sozinha, eu lia um pequeno livro. eu amava uma mulher. e ela me emprestara essa curiosa edição, diria rara, porém atual, de um dos 50 livros da escritora sapatão cassandra rios.
digamos que se chamava, a mulher, magdalena, como uns dos nomes de frida, a pintora não-heterossexual revolucionária. digamos que ela ainda, a mulher, não (se) soubesse destemida a navegar(-se) marés com mulheres… [ainda que fossem tantos os (meus) convites]
talvez usasse boias como segurança. máscaras, das de outrora,
[ainda que fosse eu a mergulhadora de cabeça em piscininhas de plástico]
salmoura e cicatrizes.

era paixão
minhas mãos percorrendo o livro delas:
a amada e a autora
na beira do amar.

eu, a outra
leitora
a retirar com os dedos
de li ca da men te
os mínimos e silenciosos grãos de areia trazidos com o vento.

a maresia impregnando páginas na minha astúcia em levar à praia um livro de pessoa tão cuidadosa.
mas era eu também mulher de cuidados.

eu era uma mulher
sozinha
livro aberto sobre as pernas
nuas
já livres os pelos e cor nas unhas.

uma capa de ilustração retrô
mulher também de biquíni
e o título que me ensandecia: eu sou uma lésbica.

eu era. muitas. mas nem todo mundo sabia. todo mundo é muita gente, mas a passibilidade hétera, que me protegia de homofobia, era a mesma que me impedia de mostrar-me (a mim?).

por isso, naquele sol da tarde, sobre o colo, aquela capa era a da minha visibilidade lésbica, meu farol aceso e escancarado, bandeira e disfarce, orgulho e preconceito mais que o miolo revelado, sem vergonha e com tesão de existir.
num jogo de revelação, eu (me) escondia
mergulhava, escondia livro em bolsa
esperava secar e relia.

as páginas me molhavam por dentro, a luz da areia inebriava olhos e as descobertas a cada página eram encontro, caldo na beira d’água, chacoalhar de ideias e adivinhas.

meu corpo alternava em impôr a capa aos olhos passantes num implorar de que me lessem: vejam o que sou! eu ainda não havia escrito meu próprio livro, ainda que de mim lhe desse a vida. faltava a coragem de ser-me.
vez ou outra recolhia-me livro e braços, desescancarava-me por receio
do medo, da covardia.
há que se fazer valente, livro fancha em punhos.

eu amava o livro e uma mulher do passado.
muita água rolaria e nos encontraríamos no futuro mais uma vez, não mais receios.
ali, eu não sabia. ainda que em sonhos, ainda que aparições, ainda que desejo ilimitado, precisaríamos de anos e passos cada vez mais pro_fundo do azul
a descobrir-mo-nos
véus e silêncios
para nos emaranhar-mos
marinhas que somos
beijos, choros, gritos e sussuros.

naquela tarde, antes dos trinta, eu era gangorra e soluços. entre o boiar e o mergulho.
se hoje, naquele verão na praia, estamparia título escrito
no peito
faria fotos
estandarte revolução.

eu sou uma lésbica.
e somos muitas.
portas braços livros pernas
cada vez mais mar
abertos

Produto

  • Antes que Eu me Esqueça
  • Organização: Gabriela Soutello
  • Quintal Edições
  • 208 páginas

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