Trecho de Livro: A Cilada da Meritocracia, Daniel Markovits - Gama Revista

Trecho de livro

A Cilada da Meritocracia

Em seu novo livro, o professor de Yale Daniel Markovits mostra que o sistema meritocrático garante privilégios enquanto finge igualdade de oportunidades

Leonardo Neiva 17 de Setembro de 2021

A pessoa que mais se esforça, que dá tudo de si, passa dias e noites a fio trabalhando para alcançar o sucesso, afinal, merece chegar lá, não? Esse senso comum, do qual é bem difícil discordar, costuma servir como base para a ideia da meritocracia que hoje sustenta boa parte do mercado de trabalho e da nossa sociedade.

A voz de Daniel Markovits, professor de direito de Yale, é uma das poucas que hoje se levantam contra esse ideal. Como revela o título de seu novo livro, que acaba de ser publicado aqui no Brasil, a meritocracia não é apenas uma farsa, mas também uma cilada da qual é cada vez mais difícil escapar. E seus efeitos prejudiciais são sentidos não apenas pela população mais pobre, frequentemente iludida por promessas vazias, como pela classe média e até a própria elite financeira.

Na obra , ele conta como o conceito acabou indo de uma terra supostamente fértil de oportunidades para um mecanismo eficiente de concentração e transmissão de privilégios, no melhor estilo aristocrático. Um exemplo disso é que, apesar do que é vendido ao público, membros da classe média geralmente estão muito mais próximos de cair na pobreza do que se juntar à elite.

Nas palavras de Daniel, a meritocracia leva “a classe média ao ressentimento e seduz a elite para que se agarre a prerrogativas de casta corruptas”. Assim, ela acaba por enganar a todos e fazer “com que as duas classes compartilhem um mesmo turbilhão de recriminação, desrespeito e disfunção”. É essa armadilha praticamente invisível que o sistema bota à nossa frente e que o autor busca denunciar em seu “A Cilada da Meritocracia” (Intrínseca, 2021)


Mérito é uma farsa.

Toda uma civilização nega essa conclusão. Qualquer pessoa decente concorda que uma vantagem deve ser obtida pela competência e pelo esforço, e não por herança de classe. O ideal meritocrático — segundo o qual a recompensa social e econômica deve ser conquistada, e não herdada do berço — fundamenta a autoimagem da época atual. A aristocracia teve seu momento, e agora a meritocracia é um princípio elementar da religião cidadã de todas as sociedades avançadas.

A meritocracia promete promover a igualdade e a oportunidade dando acesso à elite — no passado hereditária — a pessoas comuns, munidas apenas de talento e ambição. Promete, ainda, compatibilizar as vantagens privadas com o interesse público, ao reafirmar que riqueza e status devem ser obtidos por conquista. Juntos, esses ideais pretendem unir a sociedade em torno de uma visão comum de trabalho árduo, competência e merecida recompensa.

Mas a meritocracia já não funciona como promete. Hoje em dia, as crianças de classe média perdem para as crianças ricas na escola, e os adultos de classe média perdem para a elite de formação superior no trabalho. A meritocracia bloqueia as oportunidades para a classe média. E, com isso, culpa aqueles que perdem a competição por renda e status — competição que, mesmo quando todos fazem tudo certo, só os ricos podem ganhar.

Hoje em dia, as crianças de classe média perdem para as crianças ricas na escola, e os adultos de classe média perdem para a elite de formação superior no trabalho

A meritocracia prejudica também a elite. A escolarização meritocrática exige que pais ricos invistam milhares de horas e milhões de dólares para dar a seus filhos uma educação de elite. E os empregos meritocráticos exigem que os adultos da elite trabalhem com uma intensidade esmagadora, explorando sem piedade a educação que receberam para extrair dela o retorno do investimento. A meritocracia conduz uma elite ansiosa e ilegítima a uma concorrência vitalícia implacável para garantir renda e status por meio de sua exagerada dedicação ao trabalho.

Finalmente, a meritocracia agora separa a elite da classe média. Leva a classe média ao ressentimento e seduz a elite para que se agarre a prerrogativas de casta corruptas. A meritocracia ludibria a sociedade e faz com que as duas classes compartilhem um mesmo turbilhão de recriminação, desrespeito e disfunção.

O charme da meritocracia disfarça todos esses males, tornando difícil aceitar — até mesmo considerar — que por trás deles está a própria meritocracia. Mesmo os críticos mais severos da época adotam o ideal meritocrático. Culpam elites corruptas de fingir recompensar a conquista, favorecendo na verdade a si mesmas. Ao acusarem maus atores individualizados de não honrarem na prática o ideal meritocrático, eles reafirmam a meritocracia de modo geral.

Na verdade, porém, são as estruturas sociais e econômicas, e não vícios pessoais, as causadoras da desintegração e da discórdia que cada vez mais dominam a vida norte-americana. Sejam quais forem seus propósitos originais e seus antigos triunfos, a meritocracia atual concentra os privilégios e sustenta desigualdades tóxicas. E, na raiz de todos esses problemas, não está a falta de meritocracia, mas o excesso dela.

O próprio mérito tornou-se um simulacro de virtude, um falso ídolo. E a meritocracia — antes benévola e justa — transformou-se naquilo que deveria combater: um mecanismo para a concentração e a transmissão dinástica da riqueza e dos privilégios de geração para geração. Uma ordem de castas que cria rancor e divisão. Na verdade, uma nova aristocracia.

AS FALSAS PROMESSAS DA MERITOCRACIA

Sou meritocrata: um produto e, agora, um agente da constelação de forças que estas páginas revelam.

Em meados de 1987, quando a meritocracia ganhava impulso, concluí o ensino médio numa escola pública de Austin, Texas, e fui para o nordeste do país com o objetivo de frequentar a Yale College. Passei cerca de quinze anos estudando em diversas universidades — London School of Economics, Universidade de Oxford, Universidade Harvard e, enfim, a Escola de Direito de Yale —, colecionando nesse percurso uma fileira de graus universitários.

Atualmente, dou aulas na Escola de Direito de Yale, onde meus alunos são assustadoramente parecidos com meu eu mais jovem: em sua maioria, são produtos de pais profissionais liberais e universidades de classe alta. Transmito a eles os privilégios que meus professores me transmitiram no passado. De todas essas formas, devo minha prosperidade e minha situação social a instituições de elite e ao ensino e às oportunidades de emprego que elas oferecem.

Atualmente, dou aulas na Escola de Direito de Yale, onde meus alunos são assustadoramente parecidos com meu eu mais jovem: em sua maioria, são produtos de pais profissionais liberais e universidades de classe alta

Agora plenamente desabrochada, a meritocracia agita sua bandeira por toda parte sobre as instituições que, em conjunto, consagram a elite. A Universidade Harvard, por exemplo, chama a si mesma de “abrigo dos acadêmicos mais ambiciosos do mundo”, e na declaração de missão esclarece que seu propósito não é apenas a excelência acadêmica, mas também “educar cidadãos e líderes dos cidadãos para nossa sociedade”, de modo que eles possam aprender “a servir melhor o mundo”. As empresas que mais empregam graduados de Harvard e de outras instituições de ponta passam argumentos idênticos para a vida adulta da elite. Do Goldman Sachs, já se disse que é “provavelmente a mais elitista sociedade de trabalho já reunida no globo”, e o site do banco anuncia o “progresso” que ele promove para muito além da elite, intermediando, por exemplo, investimentos que impulsionam o “renascimento” de Newark e Nova Jersey e o “ressurgimento” de Nova Orleans. Esse roteiro conhecido — repetido uma e outra vez — trombeteia ao mesmo tempo os talentos excepcionais da elite e reconcilia a hierarquia com os imperativos morais da vida democrática, ligando as elites ao interesse comum, como se fossem parteiras da prosperidade geral.

Essas promessas marcam uma revolução. Antes, o status dos aristocratas lhes era devido por direito de nascença, com base na raça ou na linhagem, e eles desfrutavam de privilégios imerecidos para amealhar proventos injustos. Hoje em dia, os meritocratas afirmam conquistar status por meio de talento e esforço — progredindo com justiça, usando recursos abertos a qualquer pessoa. Antigamente, aristocratas indolentes produziam pouco ou nada. Viviam na abundância, explorando o trabalho de outrem. Hoje, os meritocratas que trabalham duro dizem fazer sua parte, e reafirmam que suas imensas realizações contribuem com um valor justo para as sociedades que eles lideram.

As hierarquias do passado eram malévolas e agressivas. Mas a meritocracia reivindica integridade — senso de justiça e bondade. Fiel à sua origem etimológica no latim, a meritocracia glorifica apenas os privilégios conquistados e promete transformar a elite de modo a adequá-la a uma era democrática — resgatando, assim, a própria ideia de hierarquia.

Os rituais da meritocracia reforçam esses ideais, tornando-os concretos e acessíveis e dando uma ideia de privilégio perpétuo merecido. As cerimônias de colação de grau que se integraram ao ritmo dos verões norte-americanos mostram como isso funciona. Na Escola de Direito de Yale, as festas de formatura se estendem por dois dias grandiosos. Luminares como Bill Clinton e Joe Biden, Ruth Bader Ginsburg e Sonia Sotomayor exortam os formandos a seguirem suas paixões e a empregarem seus talentos para o bem maior. Os professores usam capelos e becas em cores vivas, de lã, seda e até mesmo de pele. Autoridades universitárias usam colarinhos de pedraria e bastões cerimoniais. Um antigo decano usa a veste suntuosa de doutor honoris causa em leis recebido em Bolonha, a mais antiga universidade ainda em funcionamento na Europa.

Essas celebrações não são insensatas nem fortuitas. Pelo contrário, da mesma forma que as cerimônias de casamento, elas expressam desígnios sérios e encerram significados profundos, tanto políticos quanto pessoais. Os discursos reafirmam o serviço meritocrático da elite em prol do bem comum. A pompa medieval investe a meritocracia do brilho remanescente da hierarquia aristocrática que ela afasta — olhando para trás em busca do futuro, reutilizando velhos odres para guardar novos vinhos. Num pátio gótico, quando as sombras se alongam na tarde de verão, a história parece presente e viva. A universidade se mostra como uma faixa lisa, estendida, sem rupturas entre gerações. Os discursos de formatura ligam, sem descontinuidade, um passado atemporal a um futuro inevitável, absorvendo as tensões da transição e confirmando para os formandos que eles estão no limiar da idade adulta. Os rituais transformam o futuro em algo conhecido antes mesmo da chegada dele. Instilam meritocracia na narrativa dominante da vida moderna.

A meritocracia fala em termos e posições tão consistentes que chegam a configurar uma linguagem especial, repetida ao longo dos diversos contextos, uma e outra vez — um modo de vida, conhecido por todo cidadão da época. Isso confere à meritocracia um charme poderosíssimo. O brilho da meritocracia seduz a imaginação e captura o olhar, suprimindo o juízo crítico e sufocando a mudança. Ao se identificar com a moralidade básica e se insinuar na suposta experiência cotidiana, a meritocracia dissimula os danos que agora inflige a todos os que se deparam com ela. Com efeito, faz com que meios alternativos para se obter vantagens pareçam absurdos: imerecidos ou corruptos, como no caso em que o privilégio se repete com base em preconceito ou nepotismo; ou simples bobagem, como quando os altos cargos são atribuídos pela sorte.

Mas, à medida que a meritocracia progride, suas conquistas impõem uma nova e opressiva hierarquia, irreconhecível até mesmo para a geração anterior. Uma desigualdade essencialmente meritocrática sem precedente turva uma nova Era Dourada. Cada vez mais, as elites monopolizam não só a renda, a riqueza e o poder, mas também as atividades, as honras públicas e o apreço. A meritocracia exclui em grande medida a classe média dos privilégios sociais e econômicos, e ao mesmo tempo convoca sua elite para um confronto demolidor em favor da preservação da casta. A desigualdade meritocrática — o abismo cada vez maior entre os ricos e os demais — leva os Estados Unidos a se curvarem num arco nefasto.

Cada vez mais, as elites monopolizam não só a renda, a riqueza e o poder, mas também as atividades, as honras públicas e o apreço

À medida que a desigualdade meritocrática aumenta, e aumenta o fardo da meritocracia, sua moral cambaleia e seus rituais perdem força. As garras do código meritocrático sobre a imaginação se desgastam, e impõe-se uma resistência a seus ditames. Os clichês quanto à obtenção de vantagens que promovem o interesse geral já não convencem, e os ritmos do passado já não tranquilizam mais.

Em seu lugar, a insatisfação com a desigualdade meritocrática proporciona um campo fértil para as ideias críticas. A mais importante delas é a de que as aflições que dominam a vida norte-americana não surgem de um entendimento imperfeito da meritocracia, mas se devem à própria meritocracia como tal.

Produto

  • A Cilada da Meritocracia
  • Daniel Markovits
  • Intrínseca
  • 528 páginas

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