Coluna da Winnie Bueno: o racismo no BBB — Gama Revista

A compreensão que a sociedade tem sobre o que é racismo ainda é muito rasa. As pessoas compreendem o racismo apenas quando ele se apresenta na esfera das relações sociais de forma nua. Nós ainda temos dificuldade em entender que o racismo é um sistema de dominação, que tem múltiplas camadas e que opera em variadas dimensões. Patricia Hill Collins nos alerta que o racismo pode apresentar formas específicas conforme gênero, sexualidade, status de cidadania, capacidade física e classe social.

As relações de poder fazem com que o racismo se apresente de formas muito diferente de acordo com o lugar ocupado pelos negros. O fato de nos encontramos em lugares não fixados nessas relações faz com que tenhamos múltiplos olhares sobre o que é racismo e como podemos enfrentá-lo. Especialmente: a forma com que pessoas negras irão lidar com o racismo não é única porque pessoas negras não são uma unicidade. Elas são, antes de tudo, sujeitos, uma heterogeneidade de formas de ser e de estar no mundo.

A sociedade não enxerga pessoas negras como seres humanos plenos de subjetividade. Elas são tolhidas das possibilidades de exercício da sua multiplicidade e, no geral, são todas interpeladas a partir de uma visão única. A forma com que o racismo nega a subjetividade opera em uma lógica que faz as próprias pessoas negras pensarem que somos todos iguais e que temos que agir de forma unificada, sem divergências, sem uma pluralidade de ideias. Mulheres negras, por exemplo, vão mobilizar inúmeras estratégias para enfrentar as agressões que lhes atingem. Algumas vezes respondemos com silêncio; em outras, fazemos questão de reagir pontuando a violência. Um exemplo está no mercado de trabalho, onde para manter sua posição empregatícia preferem ficar caladas diante da violência. Outras preferem perdê-lo em vez de ficar caladas.

As atitudes de pessoas negras são analisadas com lentes monocategóricas que os colocam em um lugar romantizado

As práticas discriminatórias que atingem a população negra globalmente são extremamente complexas e não são solucionáveis de forma simples. Para situações complexas é preciso articular soluções complexas, algo que aprendi com o movimento das mulheres negras. Negar a complexidade da subjetividade de pessoas negras é uma forma de suprimir a possibilidade de articular soluções complexas e uma artimanha das mais bem-sucedidas do racismo.

Essa semana começou uma nova edição do “Big Brother Brasil” e, pela primeira vez, temos um elenco com um número significativo de pessoas negras. Essas pessoas não são iguais, não estão ali como uma comunidade, está todo mundo, assim como as pessoas brancas, buscando o prêmio de R$ 1,5 milhão. Contudo, as atitudes de pessoas negras são analisadas a partir de lentes monocategóricas que os colocam em um lugar romantizado e cheio de expectativas criadas dentro e fora do programa. As situações cotidianas, bem como a maneira com que se analisa o comportamento das pessoas negras pelos comentaristas aqui fora (e me incluo no segundo grupo), demonstram que não há um tratamento igualitário nem mesmo na forma com que se comenta o programa. Comportamentos questionáveis de pessoas negras viram motivo para a destilação do racismo. Os mesmos comportamentos, quando vindos de pessoas brancas, recebem o benefício da dúvida.

Em tese, o programa cria um espaço onde todos são tratados da mesma forma, pelo menos naquele microcosmo instaurado em Curicica. Mas, para os espectadores, as réguas morais não são igualitárias. Ser negro em um reality show, assim como ser negro em qualquer esfera da sociedade, nos leva a uma consciência distinta quanto às nossas experiências.

Racismo, sexismo, divisões de classe e LGBTfobia se consolidam também a partir de mitos de igualdade e meritocracia

Reality shows são produtos de entretenimento com objetivo oculto de consolidar a ideia de que, se o jogo é limpo, todos terão acessos às mesmas oportunidades, o que consolida o mito de igualdade entre os grupos e que os padrões sobre quem perde e quem ganha são resultado meramente das escolhas que as pessoas fazem nos programas, como se não existissem condições prévias e externas que potencializam estes resultados. O próprio “Big Brother” é realizado há 21 anos. Nesses 21 anos, quantas vezes pessoas negras foram vencedoras do programa? Quantas vezes os comportamentos de pessoas negras foram julgados de forma justa e equitativa em relação à forma com que os comportamentos de pessoas brancas são analisados pelo público? O BBB reforça o mito cultural da justiça e das igualdades de oportunidades. Fica entendido que, desde que você siga a regra do jogo, há possibilidade de vencer.

Os mitos culturais e as ideologias racistas talvez tenham um papel mais protagonista nessa versão do “Big Brother” do que em qualquer outra. Em uma semana já presenciamos os julgamentos do público mobilizados em uma série de imagens de controle. Isso não significa que o público não possa manifestar sua opinião sobre os participantes, — eu mesma me manifesto a toda a hora –, mas a forma como o fazemos também está relacionada ao domínio cultural do poder e às formas com que as opressões interseccionais são mobilizadas em discursos.

Racismo, sexismo, as divisões de classe e a LGBTfobia se consolidam também a partir desses mitos de igualdade e meritocracia. Essa ideia de condições igualitárias fazem com que os sistemas de opressão se apresentem de forma mais naturalizada a partir de entretenimentos do tipo reality shows. Os reality shows são formas de disseminar ideias de igualdade de oportunidade a partir de uma narrativa de jogo justo. Mas não existe jogo justo para quem joga em campos que são completamente distintos. Enquanto uns estão jogando em um campo de grama bem aparada, outros estão jogando num campo de chão batido, de pés descalços, pisando em espinhos.

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