Falta a eles sentir o sofrimento dos outros — Gama Revista
COLUNA

Marilene Felinto

Falta a eles sentir o sofrimento dos outros

Emporeilados lá no hemisfério norte, os ricos brasileiros vão embrutecendo ainda mais, insensíveis à fissura social que produzem

12 de Julho de 2023

A desconfiança que a gente rica inspira em quem não é rico justifica-se. A gente abastada desenvolve hábitos acintosos aos olhos da classe trabalhadora. Por exemplo: agora virou moda entre certos ricos brasileiros levar os filhos para viver a “diversidade”, o convívio com negros e com gente das classes populares, fora do Brasil. Vão para o hemisfério norte, Europa ou Estados Unidos, passar um tempo (quando não se mandam para sempre), para que seus filhos brancos e privilegiados, crianças ou adolescentes, possam viver a “normalidade” de usar transporte público (metrô, ônibus ou trem) sem se sentirem ameaçados ou violentados de algum modo.

Alguns desses ricos inclusive matriculam os filhos em escolas públicas americanas ou europeias, de modo tal que a convivência com a diversidade de classe e de raça se dê de forma quase “natural”. É também desse modo, com muita naturalidade, que parte dessa gente enfadada fala sobre sua decisão de partir, ponderando quanto à importante necessidade de que sua prole experimente a vivência inédita.

Resta à gente comum observar com indignação, revoltando-se humilhados, essa moda escandalosa. O pior de tudo é o cinismo racista colonial: como se os negros e os pobres do Brasil, que andam de metrô, trem e ônibus, não passassem de vultos assombrosos, delinquentes perigosos que botariam em risco o corpo branco dos filhos da fidalguia.

E como se não fossem justamente os corpos de negros e pobres brasileiros as maiores vítimas da violência daqui – violência de Estado e da classe dominante concentradora de renda e de terras, exploradora e espoliadora. E como se não fossem justamente os ricos os perpetuadores da desigualdade histórica.

Muitos desses milionários saem comprando seus imóveis nos Estados Unidos ou na Europa e ficam de lá amaldiçoando os índices de violência e pobreza do Brasil, tratando o país como terra de brutos, e como se eles, os endinheirados, não tivessem nada a ver com a injustiça social e a miséria.

Depois de lucrarem muito no país, explorando o trabalho assalariado, autoexilam-se com os filhos lá fora. Indignar-se é o que resta a quem nasceu aqui na m*rda e dela não sairá, como dizia um narrador de Graciliano Ramos: “Tolice, quem é do chão não se trepa”. Tolice. Trabalhar para quê? Para enriquecer ainda mais a classe alta? Indignar-se e engolir a pergunta da rebeldia inútil.

Lá fora, evitando os pretos e pobres da terra natal, a “elite” econômica atua como se não soubesse que quanto mais desigualdade, maior a violência e a criminalidade. Mas nada disso é novidade. Essa classe dos proprietários de tudo adota o mesmo procedimento da oligarquia de antigamente, ela que também mandava os filhos fazerem curso superior fora do país. Mas, naquele tempo, tinham pelo menos a desculpa de que aqui não havia estudo suficiente.

Virou moda entre certos ricos brasileiros levar os filhos para viver a ‘diversidade’, o convívio com negros e com gente das classes populares, fora do Brasil

Hoje, agigantada a desproporção sempre alarmante entre pobres e ricos, o que se vê é a classe alta agindo como predadores na moita, fazendo mistério sobre seu patrimônio, para dar ares de “naturalidade” à fortuna obtida em geral por meio da comodidade da herança ou da simples ladroagem. Ou foi pelo trabalho? São capazes de dizer que conseguiram tudo pelo trabalho assalariado, num cinismo abjeto.

Ora, esse comportamento esnobe vai gerando ainda mais desprezo e desconfiança entre os das classes populares. A atmosfera não é diferente daquela produzida pelo coronelismo do passado, que produzia desejos de vingança e justiçamento social nos excluídos, como se via na atuação do cangaço.

Os cangaceiros de antigamente tinham um quê de justiceiros sociais, a despeito da violência generalizada que imprimiam em suas ações. Numa passagem por uma vila sertaneja nos anos de 1920, o cangaceiro Antonio Silvino vingou-se do coronel local, que lhe devia uma quantia, distribuindo para o povo todo o dinheiro que o homem guardava num barril.

Essa história é contada por José Lins do Rego no seu romance “Menino de Engenho”: “Antonio Silvino vinha ao engenho em visita de cortesia. Um ano antes ele estivera na vila do Pilar noutro caráter. Fora ali para receber o pagamento de uma nota falsa que o coronel Napoleão lhe passara. E não encontrando o velho, vingara-se nos seus bens com uma fúria de vendaval. Sacudiu para a rua tudo o que era da loja, e quando não teve mais nada a desperdiçar, jogou do sobrado abaixo uma barrica de dinheiro para o povo”.

Fúria de vendaval – linda expressão. Mas hoje o cangaço – chamado de “novo cangaço”, que sai atacando o barril de ouro do capital, os bancos, aterrorizando e matando a população fraca dos pequenos municípios do interior – é urbano e sem status literário, exponencialmente mais sanguinário, tanto quanto exacerbada é a desigualdade que cresceu até a última potência, numa correlação de forças ainda mais injusta.

Emporeilados lá no hemisfério norte, os ricos brasileiros – o coronelismo econômico e pós-moderno – vão embrutecendo ainda mais, insensíveis à fissura social que produzem. Falta a eles sentir o sofrimento dos outros como se fosse o deles. Não vão fazer isso. De modo que só resta à gente comum revoltar-se, indignar-se contra tanto acinte numa passageira “fúria de vendaval”.

Marilene Felinto nasceu em Recife, em 1957, e vive em São Paulo desde menina. É escritora de ficção e tradutora, além de atuar no jornalismo. É bacharel em Letras (inglês e português) pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre em Psicologia Clínica (PUC-SP). É autora, entre outras dez publicações, do romance As Mulheres de Tijucopapo (1982 – já na 5ª edição, ed. Ubu, 2021), que lhe rendeu o Jabuti de Autora Revelação e é traduzido para diversas línguas. Seu livro mais recente é a coletânea de contos Mulher Feita (ed. Fósforo, 2022).

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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