Coluna da Letrux: A panela de pressão explodiu — Gama Revista
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Letrux

A panela de pressão explodiu

Que vida fácil (e esquisita) deve ser essa onde se vive em pleno Brasil e acredita-se que tudo está indo bem. É ilusão ou é mau caratismo mesmo?

01 de Junho de 2022

Eu não consigo nem. Tento lembrar da ideia de futuro que eu tinha quando era criança e nada do que eu vislumbrava existe. O capitalismo é uma erva daninha destruidora de mentes, sonhos, lares, possibilidades. Acho curioso quem não questiona sobre o capEtalismo. Que vida fácil (e esquisita) deve ser essa onde se vive em pleno Brasil e acredita-se que tudo está indo bem. Que essa máquina invisível que nos opera, de alguma forma, está funcionando. Quem são vocês? Se ainda fossem os bilionários, até entenderia (mentira), mas vocês são meus vizinhos (um saco), meus parentes (que bad imensa), meus contratantes (que climão horrível). O que aconteceu com vocês em algum ponto da vida? Foi ilusão ou é mau caratismo mesmo?

Outro dia li um post do diretor e roteirista Vinícius Reis, que dizia o seguinte: “Policiais rodoviários federais que mataram Genivaldo em uma câmera de gás, em quem vocês vão votar? Garimpeiros que estupraram até a morte uma menina Yanomami de 12 anos, em quem vocês vão votar? Generais que defendem a ditadura de 1964 e seus torturadores, em quem vocês vão votar? Policiais militares e rodoviários que mataram 26 pessoas no Complexo da Penha, em quem vocês vão votar? Rapazes que espancaram até a morte o congolês Moíse Kabagambe no quiosque da Barra, em quem vocês vão votar? Homens de bem, conservadores, neoliberais que defendem a privatização do SUS e das universidades públicas, em quem vocês vão votar?” E por aí vai.

Sabemos bem em quem essas pessoas votaram e ainda vão votar. O segundo semestre se aproxima e sinto gatilhos de 2018, a pior eleição do país (até então). Naquela noite onde entendemos que Bolsonaro seria presidente, me encontrava na casa de um amigo e um vizinho achou de bom grado dar tiros para o alto, do nosso lado. Foi dos barulhos mais altos que já ouvi na vida e olha que trabalho com música. Me joguei no chão e chorei tudo o que tinha pra chorar. Lembro que a mãe de uma conhecida estava e ela só chorava e dizia “A gente lutou tanto para o horror não se repetir…” Doeu.

Ainda conseguimos sorrir porque somos do sistema delirante de sobrevivência. Nunca o abandonamos. Se não, sucumbiríamos

O porteiro no dia seguinte contou as balas: 13. O vizinho deu 13 tiros para o alto. Era um aviso. Agora a vida seria assim. Voltei pra casa aterrorizada, tudo era estranho, o mesmo caminho de sempre parecia agora um trem fantasma, a cada esquina um susto, um horror. Horror esse que nunca foi embora, o Brasil piorou de forma radical e absoluta, em todas as áreas. A gente ainda consegue sorrir porque a gente é do sistema delirante de sobrevivência. Nunca o abandonamos. Se não, sucumbiríamos. E isso seria periclitante demais. Mas ainda assim, lama, muita lama. A gente levou até onde a gente conseguiu, mas chegamos num estado de torpor absoluto. O que é isso? Quem é esse homem? Quem são essas pessoas que não conseguem enxergar o que é esse homem? A familícia desse homem? Quem são as pessoas que acreditam que esse homem melhorou o país? Alguns vizinhos, alguns parentes, alguns contratantes. São a favor da vida, mas aplaudem chacinas, são cristãos mas a favor da tortura, são contra corrupção mas apoiam rachadinhas. Se tem algo que me embrulha tanto cérebro quanto o estômago é a hipocrisia. Entendo que ser humano é ser complexo, que contradições (assim como os mistérios) hão de pintar por aí. Mas contradições são bem vindas em cabeças pensantes e questionadoras, sempre bom não parar de pensar e refletir e repensar e mudar de ideia. A rebolada do pensamento vai ser ad infinitum mesmo. Mas hipocrisia, o fingimento, a dissimulação, você se passar por algo, você fingir que possui valores, crenças, que no fundo no fundo, não tem, isso me enoja de um jeito absoluto.

Eu ia falar sobre Copacabana, bairro que agora vivo e estranho e sou apaixonada, e acho um horror e sou apaixonada, e me arrependo e sou apaixonada. Juro que até comecei a escrever um texto sobre, mas fui fazer pilates e em algum momento que não estava prestando atenção direito, de repente, uma das senhoras do meu horário começou a defender Bolsonaro. Sabe filme que tem uma cena absurda, depois corta para a pessoa sonhando? Pois. No meu sonho, eu vou até a senhora e sacudo tanto o corpo dela, que começa a sair fumaça pelas orelhas.

Lembro da musa Fernanda Young em sua última publicação viva: “O cafona quer ser autoridade para poder dar carteiradas. Quer vencer para ver o outro perder. Quer ser convidado para cuspir no prato. Quer bajular o poderoso e debochar do necessitado. Quer andar armado. Quer tirar vantagem em tudo. Unidos, os cafonas fazem passeatas de apoio e protestos a favor. Atacam como hienas e se escondem como ratos.” Lembro de Fernanda e também lembro de Jesus com “Pai, perdoai-os porque eles não sabem o que fazem”. Mas também lembro de alguma poeta que me foge o nome agora que escreveu “Perdão nada, esses filhas da puta sabem muito bem o que estão fazendo”, algo assim. Olho pra senhorinha do pilates e tenho princípio de empatia, mas não. Ela sabe muito bem. Hipócrita. Cafona. Eu não consigo nem começar. Eu não consigo nem. Queria ser mais Padre Julio Lancelotti, ser humano que mais admiro no país. Mas me faltam três encarnações talvez.

Não quero brigar tanto quanto briguei em 2018. Creio que Lula ganhará, mas não estou relaxada. A qualquer sinal de possibilidade de diálogo possível, humano e respeitoso, meto meu bedelho e confirmo o óbvio ululante: Luiz Inácio é a única via para 2022. Respeito todas as pessoas (e troco muito ideias com várias) que querem uma mudança na esquerda. Mas o país passa fome, um genocida está no poder. Um cafona, um hipócrita. Um monstro. O mais importante agora é tirar esse sujeito. O mais importante seria prendê-lo. Mas aqui é o Brasil e infelizmente talvez isso não ocorra. Porque tudo é uma tremenda tramóia. Tudo é maracatuaia braba. Tudo macumunado.

Vou dormir imaginando o fim do capitalismo, mas sei que vou acordar, ver as notícias e pensar: o mundo está acabando

Outro dia compartilhei uma frase que a mim me chegou pelo filósofo Zizek, mas pessoas comentaram que pode ser do Krenak ou do Sidarta Ribeiro: “É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo”. Penso na senhorinha do pilates e a cara de horror que ela faria se eu citasse a palavra “comunismo”. Veja bem, não estou nem falando de pregar a ideia. Só de citar numa frase, ela ficaria alucinada de medo com cara de horror. Eu sei. Sabemos. Mas ela não faz essa cara de horror para o capEtalismo. E isso me assusta.

Temos tudo tanto à nossa mão. Não falta comida no mundo, vocês também sabem. Mas há fome. A conta nunca fechou e agora a panela de pressão explodiu. A gente ou tá voando, ou a gente já caiu no chão, ou a gente ainda tá dentro da panela quente. Não tá legal. Não tá funcionando. Lembrei de uma tirinha do Calvin (amo!) onde ele dizia alguma coisa mais ou menos assim: “Conseguir é melhor do que ter”. Mas a gente não está tendo, e nem conseguindo. Como lidar? Vou dormir imaginando o fim do capitalismo, mas sei que vou acordar, ver as notícias e pensar: o mundo está acabando.

Letrux é atriz, escritora, cantora, compositora e uma força da natureza cujo trabalho é marcado por drama, humor e ousadia. Entre seus trabalhos estão o álbum “Letrux em Noite de Climão” e o livro “Zaralha”

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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