Coluna do Leandro Sarmatz:O futuro e a dor de corno da saudade — Gama Revista
COLUNA

Leandro Sarmatz

O futuro e a dor de corno da saudade

Quero contemplar a linha do horizonte, quero ver o sol lá no fundo, sentir o seu calor. O passado não merece ser acalentado

20 de Dezembro de 2021

Ano safado, 21 não merece grandes retrospectivas. Aliás, à medida que o tempo passa, tendo a gostar cada vez menos delas. Sou um homem de perspectivas. Sim, senhor: quero contemplar a linha do horizonte, quero ver o sol lá no fundo, sentir o seu calor. O passado, pfui, está em algum lugar entre o fígado e a latrina. Não merece ser acalentado. Já foi expelido do nosso sistema. Não existe mais. Vai daí que vivo em campanha constante contra a nostalgia.

Veneno que intoxica a alma, a nostalgia é a dor de corno da saudade. Com ela, tornamo-nos sentimentaloides, autocomplacentes e, no limite, ainda mais tacanhos do que já somos. Se existe uma medida para a mortalidade, ela deve estar expressa em alguma régua produzida pela nostalgia. Porque ela abrevia a vida, ao contrário da História, que ajuda a expandi-la. A nostalgia é a burra proverbial; a História, sua professora irritadiça.

Frases de efeito, talvez? Tenho minhas dúvidas. Tudo isso me ocorreu recentemente, no finalzinho de novembro, quando soube da morte de Virgil Abloh (sobre quem já escrevi aqui), o polímata de Chicago que se tornou, entre outras coisas, o primeiro negro a dirigir a criação de vestuário masculino na Louis Vuitton. Morreu cedo demais, aos 41 anos. Haveria de fazer muito mais coisas.

Veneno que intoxica a alma, a nostalgia é a dor de corno da saudade. Com ela, tornamo-nos sentimentaloides, autocomplacentes e, no limite, mais tacanhos

Nos diversos necrológios e homenagens que tomaram parte da imprensa e das redes sociais, uma frase de Abloh era sempre repisada: “Tudo o que faço é pela versão de mim aos 17 anos”. Alto lá, pensei. Minha primeira reação foi considerar a frase um típico filhote da nostalgia. Quer dizer que o dj-designer-estilista-criador de hype-pensador pop tinha lá seus momentos teletubbie? Será que ele estava postulando que recolhia os agradinhos do presente e os levava direto para o adolescente filho de pais ganeses que passava os dias fazendo mixtapes num porão nos arredores de Chicago?

Nada mais ilusório. Se você pegar de jeito a frase de Abloh, vai perceber que ele está dizendo algo em direção ao futuro. Porque provavelmente o garoto de 17 anos iria torcer o nariz para certas coisas, caso o Virgil dos últimos anos batesse na porta para uma visita de surpresa. O que me parece estar expresso no pensamento dele é o seguinte: os sonhos, os desejos e as ambições daquele garoto que primeiro iria estudar arquitetura foram concretizados pelo Virgil do presente. Ok. Mas eu iria além. O que o Virgil do passado sequer teve a ousadia de sonhar foi realizado nos últimos anos. Nenhum olhar retrospectivo, adoçado pela nostalgia, oferece isso. Caso contrário, a cultura pop e o streetstyle não teria recebido a marca de Virgil Abloh.

*

A volta ao cinema, depois de dois anos. No caso, para assistir Casa Gucci, o arrastado novelão de fake italian dirigido por Ridley Scott. Deveria ter me contentado com o trailer, embalado por Debbie Harry. É uma experiência bastante satisfatória em comparação ao longa. O filme é lento, caricatural, repleto de momentos excessivos e dispensáveis. Uma boa edição teria lhe extirpado pelo menos 35 minutos da versão apresentada nos cinemas. Scott, como muito diretor, deve ter o ego inflado às alturas. Não deve admitir reparos. Uma pena, porque o elenco é do balacobaco.

Os cinemas. A sala de cinema. Não me vejo voltando a elas depois dessa última experiência. Nenhuma relação com o filme assistido, embora ele tenha sido decepcionante. As pessoas voltaram ao cinema intoxicadas da domesticidade proporcionada pelo streaming dos últimos anos. A sala nem estava lotada, longe disso, e o alarido de comentários em voz alta (“Agora ela vai matar ele!”), dúvidas expressadas com ênfase (“Esse é mesmo o tal do Jared Leto?), entre outras manifestações invasivas, me levaram à irritação e ao desespero. E os pés nos encostos da frente, a miríade de barulhinhos produzidos pelo encontro da pipoca com os dentes, os resfolegares que são comuns no sofá -– mas não num espaço “público” –, tudo isso me envelheceu moralmente alguns anos. Saí de lá jurando não mais pisar numa sala de cinema. Vou cumprir a promessa? Não faço ideia. O mundo muda, eu mudo. Sem olhar para trás.

*

É muito bom abraçar e voltar a ser abraçado. Há uma saudável carência afetiva generalizada, o alívio emocional dos sobreviventes

Que 22 seja melhorzinho para todos. Nós merecemos. Quando digo “nós” não é apenas para você e eu, mas para a humanidade inteira. E, claro, pensando especialmente nesse nosso canto tropical e um tantinho depressivo. Terceira dose de vacina à vista para muita gente, eleição para varrer o estrupício fascista de Brasília, o retorno – lento, gradual e às vezes um tanto receoso – à vida.

A vida explode nas ruas, nos bares, nas sorveterias, nas festas em casa de amigos. É muito bom abraçar e voltar a ser abraçado. (Nunca cogitei que seria capaz de escrever a frase anterior.) Há uma saudável carência afetiva generalizada, o alívio emocional dos sobreviventes. Nenhum exagero. Passamos, nossa geração, pela experiência limite que vai nos definir para as próximas décadas. Que estejamos saindo com sorrisos – ainda que sob a máscara – e uma fissura por reencontrar nossos afetos, é sinal de que a vida, ela mesma, é como uma estrela-do-mar em algum poema perdido: a vida se regenera dentro da gente. Boas festas.

Leandro Sarmatz é conhecido por seu senso estético apurado, que pode ser notado em seu guarda-roupa diário e na curadoria de imagens que eventualmente faz no Instagram. É autor de “Logocausto”, de poemas, e “Uma Fome”, de contos. É editor na Todavia

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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