Coluna da Isabelle Moreira Lima - Quantos pontos tem esse vinho aí? — Gama Revista
COLUNA

Isabelle Moreira Lima

Quantos pontos tem esse vinho aí?

Dá para confiar na pontuação escrita em adesivos colados às garrafas? Nada mais confiável que um número, dirão alguns. Mas será mesmo?

22 de Julho de 2022

Quando você vê um selinho com um baita numerão pregado em um vinho, o que você faz? Compra a garrafa com mais certeza de que vai beber bem? Para muitos, a pontuação dada por críticos ou concursos é vista como um guia importante e fácil de entender. Afinal, se a bebida ganhou medalha é porque algum mérito deve ter, certo?

Mais ou menos. Há muitos e muitos concursos, de todos os tipos e relevância. Para participar deles, as vinícolas têm que pagar inscrição e enviar seus vinhos. Uma vez que recebem boa pontuação e querem exibi-la em suas garrafas, precisam pagar por cada um dos selos. Ou seja, os concursos não elegem “o melhor vinho”, apenas o (supostamente) melhor entre aqueles que pagaram para serem julgados. Lembro que alguns anos atrás um moscatel da Serra Gaúcha recebeu o título de “melhor espumante do mundo” e foi destaque em sites de notícias. Por melhor que fosse a bebida, me levou a pensar: e os Champagne safrados de grandes maisons como Krug, Dom Pérignon, Bollinger, Cristal? Seria esse moscatel, até então pouco conhecido, melhor que todos? Por outro lado, há os que se tornam históricos, como o chamado Julgamento de Paris, que provou que americanos e franceses estavam em pé de igualdade quando ninguém achava que isso era possível.

Da mesma forma, os vinhos pontuados por críticos devem ser vistos com certa, errr…, criticidade. Vejamos o caso de Robert Parker, o nome mais influente entre os críticos do último século. Com o passar do tempo, ficou claro de que se tratava de um homem de paixões. Um imenso conhecedor de vinhos, sem dúvida, mas que arrumou briga com parte da Borgonha e tinha uma clara preferência por vinhos volumosos e potentes, mais ao estilo de Bordeaux ou, ainda, uma versão mais amplificada disso, que ficou conhecida como “fruit bomb”, com alta utilização de madeira. Parker pontuou tão bem esse estilo durante tanto tempo que os vinhos mais robustos acabaram virando um padrão a ser perseguido, com produtores lançando mão de todo tipo de estratégia (incluindo o uso de químicos na terra até o fim do processo de vinificação) para ganhar uns pontinhos a mais e turbinar as vendas. Percebe o ciclo vicioso? Apenas na última década o cenário começou a mudar.

O sistema de notas dadas por críticos, capaz de alçar estilos e regiões ao Olimpo e a inflacionar mercados, pode ser impreciso e baseado em gosto pessoal

Aliás, esse é um ponto importante: o sistema de notas dadas por críticos foi capaz de alçar estilos e regiões ao Olimpo e a inflacionar mercados, como o asiático, que é jovem em termos de consumo, mas imenso, o que fez com que vinhos de Bordeaux alcançassem preços jamais antes vistos. De tão maluca a história, virou um excelente documentário.

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Uma coisa que explica a popularidade do sistema de pontuação é que ninguém tem muito tempo para sair pesquisando e tirando suas próprias conclusões. Outra é que muita gente não consegue entender direito o que dizem as notas de degustação. Termos como “elegante”, “rústico”, “vertical”, “volumoso” podem parecer herméticos demais no primeiro contato. Um número é um número. Mas será mesmo?

Mesmo um sistema universal como o numérico pode trazer assimetrias de julgamento. Isso porque os vinhos não são provados ao mesmo tempo e, tratando-se do mesmo crítico, por exemplo, ele pode estar num dia melhor ou pior e esse humor pode se refletir no julgamento. Se for o caso de um concurso, a ordem em que os vinhos são provados pode influenciar no resultado também.

Tudo isso me leva à consciência de que o selinho preso às garrafas não deveria valer muito. Mas o ser humano é complexo e, como consumidora, fico felizona quando encontro um vinho de preço camarada que tem uma boa pontuação se for de um crítico que eu gosto.

Do outro lado do balcão, como jornalista de vinhos, nunca me enxerguei como crítica. Logo, nunca me senti à vontade para pontuá-los. Mas já me aconteceu uma vez, quando fui convidada a integrar o júri de um concurso e o jeito de ranquear os vinhos era por uma pontuação numérica. Foi ali que eu aprendi que havia lógica no exercício. Cada elemento do vinho ganha de zero a cinco pontos por seu desempenho: visual, olfativo, gustativo, duração e por aí vai. No final, a ideia é chegar a uma soma, a tal que seria estampada no selinho da garrafa se eu fosse o Robert Parker, a Jancis Robinson, o Tim Atkim.

O rótulo com a melhor pontuação entre os brasileiros vem da Serra da Canastra, vista como produtora de queijo, mas não de uvas

Entre os concursos respeitáveis, talvez o mais importante seja o da revista inglesa Decanter, que reúne vinhos e jurados de todo o mundo. Neste ano, a edição 2022 provou 18 mil rótulos e rendeu uma grande notícia ao Brasil: a bebida com a melhor pontuação entre os brasileiros vem da Serra da Canastra, uma região que até ontem não era vista como produtora de uvas, e sim de queijo. A premiação foi uma surpresa até para quem fez o Sacramentos Sabina Syrah 2021, afinal, era a primeira safra da vinícola. Mas não foi a única, o vinho também levou 93 pontos no guia Descorchados, que avalia a produção de Brasil, Argentina, Chile e Uruguai, sendo o melhor tinto nacional do ano. O dono da vinícola Jorginho Donadelli descreveu o vinho como “bem simples”, com boa acidez e bastante fruta. “Parece modéstia de mineiro”, respondi. Ele deu risada.

O que esse concurso fez pelos vinhos da Sacramentos foi colocá-los no mapa mundi para enófilos de todos os cantos prestarem atenção neles (assim como aconteceu com os americanos depois do Julgamento de Paris); criou expectativas para safras futuras, vendas futuras. Sem falar que colocou uma região inteira no radar de quem não tinha ouvido falar nela e ensinou sobre seu método de produção revolucionário, o da poda invertida, que inverte o ciclo da videira e que abriu uma nova fronteira vitivinícola no sudeste do país. Esses pontos podem estar para o Sacramentos Sabina Syrah 2021 mais ou menos como os pontos que inflacionaram o mercado de Bordeaux na Ásia. Ainda assim, confesso, estou curiosíssima para prová-lo, aguardando o dia que chegará ao mercado.

São muitos os efeitos de um microadesivo numa garrafa de vinho, sendo o maior deles uma certa emoção do consumidor. Mas antes de ceder ao impulso e dividir o preço da garrafa em seis prestações, peço que lembre de que seu gosto pode ser diferente do do crítico. Nesses casos, um número não é exatamente só um número.

Saca essa rolha

PONTOS PARA SAIR DO COMUM
O espumante Otto Sur Lie Nature, da Serra Gaúcha, é uma belezura. Ele não passa pelo processo de filtragem, então não se assuste, o visual é turvo mesmo porque ele guarda as leveduras na garrafa, que é fechada por uma tampinha de cerveja. Ele é fresco e cremosão, com borbulhas fininhas e mousse delícia e cheia na boca. Foi considerado o melhor entre os brasileiros no guia Descorchados, com 94 pontos. Outra boa dica é o espumante de Gewurztraminer Ponto Nero Enjoy Brut, festivo e diferentão, com acidez linda e aromas florais.

PONTOS SEM PESAR NO BOLSO
A vinícola gaúcha Campestre fez um Sangiovese que levou medalha de ouro no concurso da Decanter de 2021. O Sangiovese Zanotto lembra cereja e tomilho no nariz e na boca tem corpo médio e acidez alta. Quem estiver em São Paulo pode fazer o rodízio de vinhos da vinícola na loja que fica na capital paulista. da Argentina, o Alstosur Malbec 2021 está na seleção de premiados com preço baixo no concurso da Dencanter deste ano. Vale provar e prestar atenção nas notas de ameixa preta e no frescor intenso, que não é unânime em vinhos feitos com essa uva.

Isabelle Moreira Lima é jornalista e editora executiva da Gama. Acompanha o mundo do vinho desde 2015, quando passou a treinar o olfato na tentativa de tornar-se um cão farejador

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

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