Leia trecho do livro "Trans" — Gama Revista

Trecho de livro

Trans

Livro que dá continuidade à série premiada do “Fantástico” conta histórias de pessoas transexuais e os desafios que enfrentam na sociedade da infância até a idade adulta

Leonardo Neiva 23 de Abril de 2021

POR QUE LER?

Em 2017, o programa Fantástico dava início à série de reportagens “Quem Sou Eu?”. A cada novo episódio, com apresentação da repórter Renata Ceribelli, o público conhecia a história de pessoas transgêneros em uma fase diferente da vida, passando pela infância, adolescência e idade adulta.

Agora, a série vencedora do prêmio Vladimir Herzog, ganha continuidade numa versão em livro. Para isso, Ceribelli e o jornalista Bruno Della Latta revisitaram alguns dos entrevistados da reportagem original, acrescentando também à lista relatos inéditos de pessoas que sofreram com o silenciamento e a discriminação de forma cotidiana.

Dividida em dez histórias principais, a obra acompanha personagens desde a infância, com a difícil descoberta e a reação dos pais, até a maturidade, com a realização de cirurgias de redesignação sexual, relações amorosas e a formação de família. “Sejam bem-vindos ao universo dessas pessoas que sempre existiram entre nós, mas que antes permaneciam invisíveis”, declara Ceribelli no prefácio que dá início à obra.


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“A Larissa tem quatro anos e agora vive como menina, com brincadeiras de menina, se veste como menina. E a gente fica pensando nos quatro anos que a gente ficou forçando ela a ser menino. Porque a palavra é essa: a gente forçava”, relembra uma das mães do grupo. Assim como o casal Anderson e Patrícia, esses pais também não sabiam o que era uma criança transgênera até chegarem ao ambulatório do HC. Sem informação, tentavam mudar os gostos da filha.

Larissa foi criada como menino, em meio a muitas dúvidas e incompreensão dos pais. “Eu pensava que era mãe de um menino. Mas de um menino que eu precisava ensinar a gostar de videogame e a jogar bola. Eu nunca precisei ensinar a brincar de boneca. O que era do universo feminino ele conhecia muito bem, às vezes até melhor que a irmã mais
velha”, relembra a mãe.

As investidas em tentar apresentar o universo masculino para Gustavo antes de os pais entenderem que, na verdade,
ele era Larissa, raramente davam certo. Se levavam ao estádio de futebol, a criança não gostava. Se davam brinquedos normalmente associados aos meninos, como bolas e carrinhos, ela rapidamente perdia o interesse. Na hora das brincadeiras, sempre encontrava um jeito de trazê-las para o universo feminino. “Eu tentava brincar com ele de luta, mas aí na hora, ao invés de chutes e rasteiras, ele queria jogar poder. Falava: ‘Vou te congelar como a Elza’”, lembra a mãe.

Como muitos pais, eles pensaram que Larissa, na verdade, fosse um menino homossexual. Até que, um dia, uma fala dela surpreendeu o casal. “Antes de dormir, sempre fazemos uma oração, pedindo para ter uma noite tranquila, ter um dia tranquilo”, conta a mãe. “Aí um dia ele olhou para mim e falou: ‘Mamãe, vamos pedir para o Papai do céu pra quando eu acordar ser uma menina, ter corpo de menina’.” Desesperada, ela reprimiu o comentário. Larissa chorou até dormir.

A rejeição ao órgão sexual não é uma regra, mas acontece com frequência. “Um dia, a Isa falou pra mim: ‘Eu vou pegar uma tesoura e vou cortar meu pintinho. Tudo em mim mostra que eu sou menina, então, se eu tirar isso, eu vou ser uma menina completa’”, comentou outro pai. Hoje, com dez anos, a garota faz tratamento hormonal para impedir que a puberdade masculina se manifeste.

“Tem algumas que não encostam, não conseguem limpar. Tem outras que têm uma relação tranquila com seu órgão, já se masturbaram, o que é importante — estimular as terminações nervosas — para ter prazer depois da cirurgia. Não é necessariamente querer extirpar o órgão, é não se sentir bem com ele. É ter a noção de que isso não deveria te pertencer”, comenta o dr. Saadeh.

Outra questão que acompanha os pais é a culpa. Culpa por não entender os filhos, por não os aceitar, por os ter forçado a ser algo que não eram. Às vezes, as acusações vêm dos amigos, da família. “Uma vez, uma vizinha chegou em mim e falou que as pessoas se sentiam incomodadas da Isa brincar lá, porque antes era João e agora está vestido de menina”, relembra o mesmo pai. “Ela dizia: ‘Ele só tem dez anos, por que você não deixa ele crescer para decidir isso?’”, conta.

Já consciente de que Isa era Isa, a mãe a defendeu. “Eu falei: ‘Se está incomodada de brincar aqui onde ela brinca, vá pra outro lugar’.” Muitas vezes, o preconceito impede as pessoas de perceberem que não se trata de uma escolha dos pais. “Eu digo para as pessoas: ‘Lembra quando você tinha dez anos: se eu tentasse te botar de vestido, você ia lutar, não deixaria. Então, se ela se veste assim, é porque se sente bem’”, diz a mãe.

A percepção das crianças sobre a confusão que muitas vezes existe em seu entorno é limitada, especialmente entre as menores. “Uma vez, a Isa foi brincar na casa de uma amiguinha e depois a menina perguntou para a mãe: ‘Por que a Isa tem pinto?’. A mãe explicou e ficou tudo bem. Acho que uma criança de quatro anos não percebe quando as pessoas olham atravessado, fazem piadas ou são grosseiras”, reflete.

Já com dez anos, essa percepção começa a ficar mais clara. “Da escola, por exemplo, às vezes ela chega superchateada. Ela diz que foi brincar com fulano, mas ele não quis brincar com ela. ‘Ele fala que eu sou menino, que eu não sou menina’”, relata a mãe.

Murilo apresenta Carol

Foram as histórias de crianças e suas famílias lutando diariamente em busca de aceitação e compreensão que inspiraram Anderson e Patrícia a mudarem de atitude com Carol. “Um dia eu peguei uma roupa de bailarina e falei: ‘Quer ser feliz, vamos lá’, e desci com ela para o parquinho. Todo mundo ficou olhando, foi a primeira vez que ele saiu de casa como ela”, diz.

Aos poucos, Murilo começou a dividir o mesmo corpo que Carol. Antes de sair para brincar com sua roupa de bailarina, os pais passaram a permitir que a criança usasse roupas femininas em casa. Aos poucos, os carrinhos foram dando lugar às bonecas e uma nova identidade começou a desabrochar.

O nome “Carol” foi uma escolha da própria criança. “Em um dado momento, ela começou a falar que queria ser chamada por outro nome, por um nome de menina. Aí eu perguntei que nome ela queria e a escolha foi Isa, o nome do personagem de um desenho que ela assiste”, explica Patrícia. “Eu falei que já tem uma Isa, que é a namorada do Juju [o filho mais velho do casal], e ela decidiu: ‘Pode ser Carol, mamãe?’”, lembra.

“A indicação dos médicos é de que nós devemos deixar livre. Se ela não se incomodar de ser chamada de Murilo, a gente deve chamá-la assim, se pedir pra ser Carol, a gente chama de Carol”, explica a mãe. É apenas quando tiverem um diagnóstico mais definitivo que poderão iniciar o uso de bloqueadores de hormônio e começar o tratamento.

Às vezes, quando perguntada se ela se considera menina ou menino, a resposta é simples: “Os dois”, fala com tranquilidade. “Na hora em que eu vou dormir, eu sou Murilo. Carolina é quando eu vou brincar lá embaixo.”

Em outras, para a mesma pergunta, responde diferente.

Se eu te perguntar: “Você é menino ou menina”, o que você fala?

“Que eu sou menina.”

Você é menina?

“É.”

E o Murilo?

“O Murilo é mais bonitinho… Eu não vou dar ‘tchau’ pra ele, não.”

Apesar de admitir que às vezes gosta da identidade masculina, Carol não esconde a preferência pelo universo culturalmente associado ao feminino nas roupas, nos nomes e nas brincadeiras. “Eu brinco com as minhas amigas de boneca. Algumas vezes eu sou o irmão, outras eu sou a irmã”, conta.

Nas horas de lazer, as bonecas são companheiras inseparáveis. Carol passa horas cuidando dos cabelos delas, trocando roupas, aplicando maquiagem. “Uma que eu vejo com o cabelo embaraçado eu pego sabonete, detergente. Pego água quente, água gelada. Aí pego creme, amaciante. Ponho isso tudo na água e ponho no cabelo dela. Aí se o cabelo não estiver liso, eu começo a escovar o cabelo dela para ficar bem liso”, narra, contente.

Como com suas bonecas, os cabelos longos e lisos são os preferidos para si mesma. “Eu não gosto de cabelo curto. É feio. Horroroso!”, exclama.

Mas cabelo curto é de menino?

“É”, responde, antes de pedir para a mãe amarrar seu cabelo num longo rabo de cavalo, seu penteado favorito. O mesmo acontece quando é questionada sobre a família. “Eu não tenho irmã, só irmão. A irmã sou eu.”

Produto

  • Trans
  • Bruno Della Latta e Renata Ceribelli
  • Globo Livros
  • 232 páginas

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