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Trecho de livro

Crônicas de Pai

Em livro de crônicas, fotógrafo e escritor Leo Aversa, pai do Martín, explora as diferentes facetas do que significa ter e ser um filho

Leonardo Neiva 06 de Agosto de 2021

De um quase pai e mero coadjuvante no processo de dar à luz uma criança a um que inicialmente dá mais conta da parte burocrática da paternidade que de seu caráter emotivo, passando ainda pelo papel de filho que vive o doloroso processo de ver a memória paterna se esvair. São essas e outras várias diferentes facetas do que significa ter e ser um filho que o fotógrafo e escritor Leo Aversa explora em seu novo livro “Crônicas de Pai” (Intrínseca, 2021).

Ser um pai hoje é muito diferente do que era nos anos 1980 ou 1990? Na coletânea, que reúne crônicas inéditas e também algumas das melhores que publicou em sua coluna no jornal O Globo, Aversa compartilha com o leitor sua experiência como filho e pai ao longo das décadas, hoje já tendo estado em ambos os lados da relação.

Não são apenas histórias comoventes ou com grandes lições de vida. Também englobam as pequenas dores corriqueiras, as saudades que batem de repente e a relação cotidiana com o filho Martín, por vezes com um olhar um tanto irônico, sentimental, nostálgico ou até filosófico, na veia dos pensamentos que só o dia a dia sabe despertar. Tudo isso em pequenas pílulas de texto, que devem trazer reflexões muito mais interessantes do que aquela eterna dúvida entre comprar mais uma camisa polo ou um sapatênis para o seu pai neste mês de agosto.


A jornada do pai

No começo você é como um daqueles funcionários que trabalham guiados mais pela obrigação do que pelo resultado. O pai não é pai desde o início. Vai se tornando pai aos poucos.

Parece um sacrilégio.

Foi o que eu achei quando um amigo me explicou a teoria. Minha mulher ainda estava grávida e ouvi — horrorizado — a heresia. Como assim!? Ele explicou: “Você fica ali na retaguarda, providenciando as refeições, o transporte para o pediatra, a temperatura certa no carro, a mantinha de madrugada, tudo no esquema, pra que não falte nada. Mas, no começo, é tudo entre o bebê e a mãe… Só com o passar dos meses é que você vai se chegando, pegando mais no colo, sentindo como é.”

O pai não é pai desde o início. Vai se tornando pai aos poucos

Deixei de lado a polêmica e segui em frente.

Como dizia um antigo anúncio da PanAm: Nada supera a experiência.

Os primeiros dias são da mãe: você até pega no colo, nina um pouco, mas o bebê só quer saber da mãe e vice-versa. É algo lindo de se ver. Mas isso não quer dizer que o pai fique de boas, sem nada para fazer, vendo seriado da Netflix e comendo pipoca no sofá. Ele vai lá registrar, corre atrás do anestesista, administra a conta da maternidade, vai comprar fraldas e mais fraldas, dirige o carro para o pediatra, se encarrega da logística da casa, procura aquele remédio que só tem numa farmácia longe. Pouco a pouco as coisas vão se acalmando, a mãe precisa descansar e é o pai que tem que ninar o bebê para dormir.

Então aquela obrigação inicial, aquela paranoia de ter tudo sob controle e de não faltar nada vai se tornando algo mais afetuoso e físico. Aquilo que era mais uma responsabilidade se transforma numa alegria, no melhor momento do dia, do ano, da vida. A existência, tantas vezes reduzida ao cotidiano, passa a ter um sentido maior. Não desses que vendem nos livros de autoajuda ou que recomendam os coaches picaretas. Um sentido de vida.

Sem sacrilégios e sem heresias, você está se tornando pai.

O começo do fim

Achei que tinha estacionado aqui… Onde está o carro?

No começo pensamos que era só mais uma distração, coisas da idade chegando. Quem nunca perdeu o carro no estacionamento de um shopping? Ou esqueceu onde estão as chaves? Mas, pouco a pouco, os esquecimentos foram se acumulando: o carro, as chaves, a carteira, a senha do cartão. No dia a dia, os lapsos se tornaram rotina.

Meu pai é artista plástico, vivia no ateliê pintando, então não percebemos como estava a situação até começarem as mudanças nos seus quadros. As imagens foram ficando mais sombrias, as composições, diferentes, os próprios desenhos que ele fazia para se distrair foram se transformando.

Ele sempre foi um pouco esquecido, mas os lapsos de memória deixaram de ser algo folclórico, um estilo de vida. As distrações foram ficando mais graves.

Quando fomos ao neurologista, já desconfiávamos do que era. O diagnóstico de Mal de Alzheimer não foi uma surpresa.

No começo, a gente tenta uma lógica própria que não se adapta à realidade. É um misto de ingenuidade com esperança. Basta anotar para não esquecer, pensamos. Parece lógico, mas o problema é que em pouco tempo a pessoa já não se lembra de anotar, e, se lembra, logo esquece por que anotou. Em pouco tempo, a falta de memória vai se espalhando. Primeiro são os parentes distantes que vão desaparecendo: Quem é esse na foto? E esse aqui, ao seu lado? Logo o esquecimento vai chegando perto, cada vez mais perto. A gente sabe que é uma questão de tempo.

Basta anotar para não esquecer, pensamos. Parece lógico, mas o problema é que em pouco tempo a pessoa já não se lembra de anotar, e, se lembra, logo esquece por que anotou

Até quando ele vai se lembrar da esposa, dos filhos?

Ou dele mesmo? De quem é, de quem foi?

Quantos anos ainda temos? O médico não sabe dizer ao certo: dois, cinco, dez. E até quando ele vai se lembrar de quem é? Ninguém sabe, responde ele, com a expressão de quem já ouviu a pergunta milhões de vezes e também por milhões de vezes não encontrou a resposta.

Quando o Martín era bem pequeno, ele brincava comigo de tapar os meus olhos e perguntar: Onde está o Martín? Eu dizia que não sabia. Aí ele tirava a mão, eu sorria ao vê-lo e ele gritava, feliz: Tô aqui!

Uma vez ele tirou a mão e eu, de brincadeira, não disse nada, apenas olhei para um lado, para outro e disse: Ué, o Martín sumiu… Ele ficou tão desesperado que começou a chorar.

É esse desespero e essa vontade de chorar que eu sinto.

Uma vez ele tirou a mão e eu, de brincadeira, não disse nada, apenas olhei para um lado, para outro e disse: Ué, o Martín sumiu… Ele ficou tão desesperado que começou a chorar

Produto

  • Crônicas de Pai
  • Leo Aversa
  • Intrínseca
  • 352 páginas

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