Como ler um rótulo de vinho — Gama Revista
COLUNA

Isabelle Moreira Lima

Como ler um rótulo de vinho (e parar de sofrer no supermercado)

O que você faz quando tem opção demais? Siga este mapa de direções para entender o que está escrito (e oculto) na garrafa e escolher melhor

24 de Fevereiro de 2023

Diante das prateleiras do mercado e do mar de ofertas da internet, é comum sentir a segurança se esvair no momento de escolher um vinho. Afinal, como, entre todas as garrafas ali dispostas, escolher a ideal para aquele momento? Daí eu pergunto: o que você faz quando tem opção demais? Parte para as comparações? Não é mal começo, mas para isso é preciso saber o que está sendo ofertado, ou seja, decifrar a esfinge que reside nos rótulos de vinho.

Um bom ponto de partida é focar no nome do produtor. Parece óbvio, mas muita gente deixa escapar o fato de que saber um pouco sobre quem faz o produto pode dar uma ideia do que você está comprando. E isso serve para muita coisa no quesito vinho, desde o estilo que o produtor costuma imprimir na bebida até as práticas adotadas por ele: como é feito o cultivo das uvas? O que pode e o que não pode na vinificação? Trata-se de um pequeno ou de um grande produtor? Qual sua filosofia na produção daquele vinho? Para isso, recomendo que mesmo que esteja numa loja física, use também a internet na hora de comprar e não se atenha apenas ao site oficial do produtor – uma busca nas notícias apuradas por fontes seguras é uma boa em tempos de tantas descobertas sobre atividades ocultas das empresas. (No mundo da moda, hoje, algumas marcas usam QR code que conta a história da peça. Fica aí a ideia para o pessoal do vinho.)

Seu o produtor passou no teste, voltamos algumas peças no tabuleiro para investigar a região. É preciso lembrar que a produção de vinhos se divide em duas macrorregiões, o Novo e o Velho Mundo, e os rótulos são desenhados de acordo com as leis de cada uma delas. O Velho Mundo, constituído pela Europa, apresenta mais desafios, uma vez que costuma informar mais comumente a denominação de origem (que cultiva um determinado grupo de uvas) e não as variedades em si. Os franceses, por exemplo, trazem dicas como “Bordeaux Supérieur”. E aí, se você não tiver na cabeça o que significa isso, melhor sacar o celular mais uma vez para descobrir que nesta região são cultivadas principalmente a Cabernet Sauvignon e a Merlot, que são uvas tintas capazes de fazer vinhos mais potentes.

Cada uma dessas regiões possui um estilo característico que vem do tipo de clima, da altitude, da insolação, entre outras características marcantes do lugar, algo que é comumente chamado de “tipicidade”. Se você quer focar no Velho Mundo, então, tem dois caminhos: pesquisar as uvas de cada região ou o estilo de vinho que elas fazem. Os feitos na França, na Itália, na Espanha e em Portugal geralmente trazem nomes de suas denominações de origem em vez de uvas. As maiores exceções são Áustria e Alemanha, que costumam trazer os nomes das uvas nos rótulos.

Saber um pouco sobre quem faz o produto já dá uma ideia do que você está comprando

Já no Novo Mundo, nas Américas, na Oceania e na África do Sul, o mais comum é que se traga o nome da uva no rótulo. Isso facilita demais a vida de quem está comprando porque, depois de um tempo provando vinhos feitos com determinadas uvas, já se sabe o que esperar delas: a Malbec, amiga fiel de muitos brasileiros, pode ser aveludada e trazer notas de fruta preta madura, ameixas mais comumente, e os mais atentos podem até notar um certo floral (violetas) e aroma de alcaçuz. Quando você já sentiu isso previamente e lê Malbec num rótulo, já pode imaginar o que vem por ali.

Complicando um pouquinho mais, em caso de vinhos mais caros e especiais, é possível que estejam discriminadas outros dados, como o nome do vinhedo ou mesmo a parcela de terra de onde as uvas utilizadas na bebida foram cultivadas. Isso pode significar que se trata de um vinho mais focado em terroir, ou seja, no conjunto de informações geográficas e geológicas (solo, altitude, clima, exposição solar e tipo de trabalho humano) de uma região. Provavelmente, será um vinho mais caro. Pode ser ainda que traga algum termo na linha do “barrel select”, que significa que teve passagem por barrica de carvalho, o que aporta mais estrutura e aromas próprios ao vinho e pede que você desembolse mais dinheiro.

Chegando à madeira, vale dizer que há uma imensa confusão envolvendo as palavras reservado, reserva e gran reserva. A primeira, reservado, é mais comum aos vinhos chilenos e quer dizer muito pouco. Passou a ser usada nas linhas de entrada de vinícolas grandes e mais comerciais, portanto, o reservado geralmente é barato. Já reserva, para vinhos portugueses, pode indicar que o vinho estagiou em madeira (algo como o barrel select). Na Espanha, reserva e gran reserva indicam a quantidade de tempo que “descansou” na vinícola, seja na garrafa ou em madeira, antes de ir para o mercado: um reserva leva três anos, sendo ao menos um deles em barrica; já o gran reserva “descansa” por cinco anos, sendo ao menos dois deles em madeira. A Itália também tem regras próprias para cada região.

Não caia no conto do rótulo belo que diz pouco

Decifrados produtor, regiões, uvas e detalhes sobre terroir e uso de madeira, é chegada a hora dos números da garrafa. É muito importante ver o ano em que o vinho foi produzido, pois, se um vinho for barato, você não vai querer nada muito antigo – os vinhos mais simples, geralmente, são feitos para serem bebidos jovens. Agora, se tiver gastando bastante dinheiro, pode ser interessante ver se aquela safra é a melhor opção para a região e o produtor. Isso sem falar que alguns vinhos mais especiais e de uvas e regiões específicas se beneficiam (e muito) do efeito do tempo.

Por fim, outro número, é o do teor alcoólico. Alguns já acharam que quanto mais alcoólico melhor, outros consideram bobagem, mas gosto de ver a gradação: no calor, prefiro vinhos com teor mais baixo. Entre os brancos, prefiro também os menos alcoólicos. Já no inverno ou para uma comida mais pesada e se vou beber pouco, um tinto com 14% não me parece um disparate.

Isto posto, faço uma súplica: não caia no conto do rótulo belo que diz pouco. Eles são feitos geralmente para capturar a paixão de quem se encanta pela vista e esquece do resto. Lembro da minha mãe: “Beleza não põe mesa”. E acrescento que já tomei muito vinho bom em roupagem cafoninha. Se alguém também te contou que garrafas pesadas são prova de vinhos melhores, ignore: elas são é pouco ecológicas, têm uma pegada de carbono muito maior.

Isabelle Moreira Lima é jornalista e editora executiva da Gama. Acompanha o mundo do vinho desde 2015, quando passou a treinar o olfato na tentativa de tornar-se um cão farejador

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões da Gama.

Quer mais dicas como essas no seu email?

Inscreva-se nas nossas newsletters

  • Todas as newsletters
  • Semana
  • A mais lida
  • Nossas escolhas
  • Achamos que vale
  • Life hacks
  • Obrigada pelo interesse!

    Encaminhamos um e-mail de confirmação