CV: Anderson F. Brito — Gama Revista
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CV: Anderson F. Brito

O virologista Anderson Brito, pós-doutorando na Universidade Yale, nos EUA, se tornou um dos especialistas brasileiros mais consultados na pandemia

Betina Neves 10 de Maio de 2021

Quando a pandemia estourou, o brasiliense Anderson F. Brito já estava pronto. Ele vinha de dez anos de pesquisa sobre comportamento de vírus. Desde o começo de 2019, é pesquisador de pós-doutorado na escola de saúde pública da Universidade Yale, nos EUA, justamente na área de epidemiologia. De um ano para cá, Anderson, que nunca tinha falado com a imprensa, deu mais de cem entrevistas para 40 veículos de comunicação, a maior parte deles do Brasil. Já apareceu dando todo bê-á-bá da covid-19, falando sobre desde as formas de contaminação à eficácia das vacinas.

“Eu não tinha dimensão da importância da divulgação científica até a pandemia chegar”, conta a Gama. Ele também passou a atuar nas redes sociais, principalmente no seu perfil no Twitter – ali, critica a negligência do governo durante o curso da pandemia, rebate argumentos a favor do “tratamento precoce” e aponta informações equivocadas que ele observa circulando por aí. “Traduzir conhecimentos complexos e colaborar para combater a máquina de notícias falsas deu ainda mais sentido à minha pesquisa”, diz. Anderson também é especialista em biologia computacional, área importantíssima para analisar os dados de mutação do vírus. “Acabei dando a sorte de acumular as habilidades necessárias para atuar nesse momento que está exigindo tanto da humanidade.”

Traduzir conhecimentos complexos e colaborar para combater a máquina de notícias falsas deu ainda mais sentido à minha pesquisa

A sua trajetória seguiu assim, com um passo dando sentido ao anterior à medida que as coisas evoluíam. Filho de migrantes do interior da Bahia e de Goiás que, na década de 1970, foram para Brasília (DF), Anderson estudou a vida toda em uma escola pública do bairro brasiliense de Cruzeiro Novo. Quando acabou o ensino médio e foi reprovado no vestibular, foi trabalhar como professor de informática enquanto se preparava para prestar de novo a prova. Foram mais cinco tentativas até que ele passasse no curso de Ciências Biológicas da Universidade de Brasília (UnB). “Quando aprendi sobre vírus na faculdade, me deu um estalo de que era aquilo que eu queria fazer da minha vida”.

Durante uma palestra na UnB, lembra que ouviu a recomendação de fazer cada etapa da formação acadêmica em uma instituição diferente e começou a expandir os horizontes. Conseguiu ir para São Paulo com uma graninha guardada de uma bolsa de iniciação científica e aplicou para o mestrado em microbiologia na Universidade de São Paulo (USP), e dessa vez, passou de primeira. Depois, ingressou pelo programa Ciência sem Fronteiras – encerrado em 2017 – no doutorado na Imperial College of London, na Inglaterra, onde viveu por quatro anos.

Diante da situação econômica desfavorável em 2018 e do exemplo dos amigos pesquisadores que voltavam para o Brasil e acabavam sem emprego, Anderson resolveu continuar no exterior e aplicar para o pós-doutorado em epidemiologia em Yale. “Minha pesquisa de doutorado não tinha essa interface tão clara com a vida real, e foi justamente isso que me fez querer ir para a área de saúde pública.” Ele não tinha ideia de quão concretas as coisas ficariam pouco tempo depois.

  • G |O que te trouxe até aqui?

    Anderson F. Brito |

    Conseguir dar um passo de cada vez. Eu não planejei cada etapa do que eu percorri há 10 anos – eu não sabia, por exemplo, que minha experiência com informática lá trás me ajudaria no meu doutorado. Para mim, a vida é como um campo nublado com uma escadaria à nossa frente, a cada degrau que a gente sobe, consegue ver um pouco mais adiante. As oportunidades vão aparecendo à medida que você avança. É importante olhar para frente de maneira lúcida sem querer dar um passo maior que a perna, vivendo e se equipando para cada etapa e criando habilidades para as necessidades que vão surgindo. Mas a maior montanha que eu subi foi sair da escola pública e passar em uma universidade federal, depois, eu sinto que foi ficando mais fácil.

  • G |Como a pandemia mudou sua rotina de trabalho?

    AB |

    A pandemia mostrou que eu tenho que mudar e evoluir profissionalmente com a mesma velocidade que os vírus evoluem. O tempo todo surge uma necessidade nova nesse universo e isso pede que eu me adapte. A dimensão dessa pandemia e a quantidade de informação que está sendo gerada são desafios muito grandes do ponto de vista da análise de dados, que é o que eu faço desde o ano passado, de segunda a segunda, muitas vezes de madrugada. Essa pandemia não tem dado trégua para pesquisadores da área. Toda semana a gente emite um relatório para o departamento de saúde pública dizendo quais variantes do vírus estão circulando e o que está acontecendo na dinâmica da pandemia. Eu preciso pegar os dados que meus colegas produzem e analisá-los da maneira mais rápida e precisa possível. Isso exige muito tempo e atenção.

  • G |Você vive para trabalhar?

    AB |

    Eu gosto muito do que eu faço, mas acho importante cultivar outras facetas da vida. Ficar mergulhado em um ritmo alucinado de trabalho nos afasta de nós mesmos. E o home office distorce um pouco a nossa visão da realidade: às vezes a gente passa horas na frente do computador e sente que não trabalhou nada. Pode parecer um pouco extremo, mas eu criei o hábito de marcar cada meia hora de trabalho e anotar exatamente o que eu estou fazendo. No final do dia, eu olho essas estatísticas e vejo quantos ciclos de meia hora eu fiz e quanto eu produzi. Assim, eu consigo aproveitar ao máximo as 8 horas de trabalho e fazer outras coisas sem peso na consciência. Antes da pandemia eu já tinha muita preocupação com autocuidado, porque a rotina pode tomar o controle da vida e a gente esquece de se cuidar. Por isso é preciso impor limites: tenho aprendido a saber dizer não para novos projetos, mesmo que sejam superinteressantes, para evitar a sobrecarga.

  • G |Quais foram seus maiores aprendizados na sua trajetória?

    AB |

    Uma coisa que ficou clara na minha carreira é que a gente não deve desistir diante dos reveses e obstáculos – eu tropecei muitas vezes com reprovações e notas ruins. Nesse contexto, nunca apostava todas as minhas fichas numa coisa só. Em cada momento de transição, como da graduação para o mestrado, eu sempre tinha pelo menos duas opções caso uma não desse certo. Outra coisa que aprendi foi a não me subestimar e não me deixar consumir por essa síndrome de vira-lata que pode acometer alguns brasileiros. Eu tive o privilégio de ir para fora e ver que eu tinha muito potencial e não deveria duvidar disso. Tem muita gente brilhante no Brasil que, até por todos esses cortes na área da ciência, não têm essa oportunidade. Além disso, em termos de progressão de carreira, aprendi que é interessante guardar meus planos para mim mesmo e para as pessoas em quem eu confio e sei que vão me apoiar. Porque quando a gente anuncia por aí nossos planos antes que eles se concretizem, podem aparecer pessoas que vão questionar nossa capacidade e nos desencorajar.

  • G |Quais são os principais desafios da sua área e como lidar com eles?

    AB |

    Do ponto de vista da divulgação científica, é estar o tempo todo atento às informações equivocadas que estão circulando e tentar combatê-las da melhor maneira possível. No campo da pesquisa, o maior desafio é ficar atento às novidades que surgem em uma velocidade humanamente impossível de acompanhar – todos os dias sou surpreendido por uma nova informação. Porque a ciência é isso, não existe verdade cravada, o tempo todo a gente está descobrindo algo novo e eventualmente pode perceber que a nossa compreensão sobre certo fenômeno mudou. Então, se não estamos acompanhando de perto as novidades, podemos acabar desatualizados. E ler um artigo científico na íntegra exige horas que às vezes eu não tenho. Tive que desenvolver a capacidade de escanear textos já tentando extrair as informações mais relevantes.

  • G |Qual a sua missão na sua profissão?

    AB |

    O que eu faço no meu trabalho é tentar dar sentido a um conjunto enorme de dados aparentemente soltos, mas que, quando integrados, têm um significado importante para entender o que está acontecendo ao nosso redor. E nisso se encaixa também a divulgação científica que eu tenho feito durante a pandemia, tentando traduzir a complexidade de todos esses fenômenos biológicos em uma linguagem simples que possa atingir o maior número de pessoas possível. Faço isso nas redes sociais, no meu site e, principalmente, em colaborações diretas com jornalistas e comunicadores. O alcance da mídia tem sido essencial para eu cumprir essa missão e não deixar as pessoas à mercê de informações desencontradas que podem deixá-las ainda mais confusas e ansiosas.

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