Leia trecho de livro de Marçal Aquino, 'Baixo Esplendor' — Gama Revista

Trecho de livro

Baixo Esplendor

Com trama policial ambientada na ditadura militar, Marçal Aquino lança novo romance 16 anos após ‘Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios’

Leonardo Neiva 09 de Abril de 2021

POR QUE LER?

Escritor, jornalista, roteirista de cinema e televisão… O paulista Marçal Aquino já foi e fez muitas coisas ao longo da carreira. Escreveu romances, contos, poesias, roteiros para TV (“Força Tarefa”, “Supermax”) e cinema (“O Invasor”, “O Cheiro do Ralo”). Transitou por obras juvenis e adultas, em ambas sempre com uma pegada policial.

Agora, 16 anos após o lançamento do surpreendente “Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios” (Companhia das Letras, 2005) — que virou filme, com roteiro adaptado pelo próprio autor — e depois de uma temporada mais dedicada ao audiovisual, ele retorna à cena literária com o romance “Baixo Esplendor”. A narrativa se passa no ano de 1973, durante a ditadura militar, e acompanha um agente da polícia civil infiltrado numa quadrilha de criminosos.

Assim como em outras de suas obras, o romântico e o policialesco se misturam não só na história, mas também dentro da mente de seu protagonista, constituindo um dos principais conflitos da trama. Com uma prosa tão ágil quanto irônica, cotidiana e envolvente, Aquino vai atraindo aos poucos o leitor para dentro do pequeno submundo que constrói para seus personagens. Quando você perceber, já será tarde demais.


Numa das operações em que atuou como infiltrado, o alvo era uma quadrilha de ladrões de carga que agia em diversos lugares do país. Um esquema profissional, planejado em minúcia de uma ponta a outra: os ladrões mantinham uma rede própria de receptadores, pagavam bem por informações privilegiadas, sabiam de antemão o que iriam roubar.

Ele levou quase três meses para conseguir entrar. Começou frequentando um salão de bilhar na parte velha da cidade, onde, de acordo com a dica de seu informante, integrantes do bando costumavam aparecer. Demorou, ele teve paciência, bebeu litros de rabo de galo, pagou inúmeras rodadas de cerveja e houve tempo ainda para recuperar a velha forma no jogo de sinuca, paixão de juventude. Até a noite em que se viu compartilhando
o feltro verde de uma mesa com dois desses homens, Ingo e Moraes.

Usava nessa operação o codinome Miguel, homenagem a um amigo que ladrões tinham matado ao descobrir que assaltavam um policial. Ele, às vezes, investia na composição de um personagem: chegou a adotar óculos, bigode e costeletas, raspou a cabeça numa ocasião, em outra criou barriga, engordou quase dez quilos. Nesse caso, contentou-se com a aparência descuidada — barba por fazer, cabelos em desalinho, camisa aberta no peito peludo. Ficou parecendo um taxista de frota, na opinião do delegado Olsen, que chefiava a operação.

Aos novos amigos, Miguel forneceu fragmentos de uma biografia da qual constavam contrariedades com a lei por roubo de carro e porte ilegal de arma, além de uma tentativa de homicídio — tinha baleado um comparsa com quem se desentendeu na hora de dividir o produto de um roubo.

Ele, às vezes, investia na composição de um personagem: chegou a adotar óculos, bigode e costeletas, raspou a cabeça numa ocasião, em outra criou barriga, engordou quase dez quilos

Atirei primeiro, antes que ele atirasse em mim, explicou aos dois.

Moraes riu da façanha, expôs dentes de cavalo sujos de nicotina. Ingo quis saber o que havia acontecido com o homem.

Perdeu o baço, mas sobreviveu, Miguel contou.

Curvando o tórax sobre a mesa, Ingo tentou uma jogada de efeito, errou e a bola acabou parando na boca da caçapa.

E você não tem medo que ele apareça atrás de vingança?

Não vai acontecer, Miguel disse. A polícia matou esse sujeito.

Era sua vez de jogar. Enquanto passava o giz azul na ponta do taco, estudou a disposição das bolas que ainda restavam na mesa. Com um pouco de capricho, poderia liquidar a partida em meia dúzia de tacadas. E foi o que aconteceu. Aborrecido, Ingo depôs o taco na lateral da mesa.

Pra mim, deu. Vamos beber que a gente ganha mais.

Miguel recolheu o dinheiro das apostas e alinhou as notas, antes de abrigá-las na carteira. Jogavam fazia horas e ele levava ampla vantagem. Reclamou:

Logo hoje que estou com sorte?

Sorte?

Moraes também se livrou do taco, fixando-o no suporte preso à parede.

Sabe o que eu acho, Miguel? Você deve estar pensando que encontrou dois patos e fica aí fingindo que não sabe jogar, pra tomar a nossa grana…

Os três ocuparam banquetas junto ao balcão do bar e pediram cervejas e mortadela de tira-gosto. Ingo e Moraes se distraíram acompanhando o jogo disputado numa mesa próxima. Miguel aproveitou para observá-los.

Ingo era alto, largo, mais para pesado. Tinha sotaque do Sul, olhos claros e a pele avermelhada pelo sol. O cabelo, loiro, começava a rarear no alto da cabeça. Bem mais baixo, atarracado, de pele escura, o dentuço Moraes mantinha o cabelo crespo contido por um rabo de cavalo. Parecia um músico de vanguarda. Sempre retesado por um tipo de tensão.

Eram, ambos, homens desconfiados, lacônicos, cheios de reserva. Miguel calculou que não iriam baixar a guarda com facilidade. E foi surpreendido quando Ingo perguntou se ele não estaria interessado em participar de um serviço com uns amigos.

Que tipo de serviço?

Daqueles que dão uma boa grana, Moraes falou.

É coisa ilegal?

Ingo balançou a cabeça, divertido.

Que é isso, ladrão? Daqui a pouco, você vai querer trabalhar com carteira assinada.

Os três riram, o clima entre eles se distendeu. Exceto por aquela tensão que fazia Moraes trincar a mandíbula. Era o mais nervoso da dupla, o que Miguel já havia detectado durante as partidas.

Tinha percebido também, numa das vezes em que Ingo se inclinou sobre a mesa para dar uma tacada, que ele carregava uma pistola — viu, de relance, o cabo da arma no cinto, às costas dele. Moraes vestia um agasalho esportivo escuro, com o zíper puxado até o pescoço, forte indício de que também estava armado. Miguel levava um 38 de cano curto no coldre preso ao tornozelo.

Tinha percebido também, numa das vezes em que Ingo se inclinou sobre a mesa para dar uma tacada, que ele carregava uma pistola — viu, de relance, o cabo da arma no cinto, às costas dele

Na mesa à frente, os dois jogadores começaram a discutir. Miguel espetou um cubo de mortadela e o exibiu diante do focinho da Baronesa, uma gata rajada, a mascote da casa, que continuou deitada sobre o balcão, sem nenhum interesse pela oferta.

Qual é o serviço, afinal?

Os dois homens se entreolharam antes de Ingo dizer:

Na hora certa, você vai saber.

Miguel pôs na boca a mortadela recusada pela gata e mastigou. Ergueu a cabeça:

Nessa hora eu digo se topo, combinado?

A frase desagradou a dupla. Moraes suspirou, deu para ouvir os dentes rilhando. Ingo reagiu:

Não pode ser assim, Miguel. Você tem que dizer sim ou não agora, na confiança.

Ele não falou nada por um tempo, que gastou mastigando e acompanhando o desenrolar da discussão entre os jogadores na mesa de bilhar vizinha — ambos brandiam seus tacos para enfatizar o que falavam, e riam, estava claro que não ia dar em nada. Miguel corria um risco calculado com Ingo e Moraes, imaginava que ter aceitado de imediato o convite poderia soar suspeito. Prolongou o silêncio ao limite. Num gesto estudado, digno da época do curso de teatro, ainda bebeu um gole de cerveja antes de falar.

Tá bom, disse, por fim. Estou dentro.

E ergueu o copo. Ingo e Moraes brindaram, satisfeitos. Baronesa saltou para o chão e, em seu passo aristocrático, desapareceu entre as mesas de bilhar.

Miguel corria um risco calculado com Ingo e Moraes, imaginava que ter aceitado de imediato o convite poderia soar suspeito. Prolongou o silêncio ao limite

Nesse momento, Ingo se levantou e avisou que iriam sair. Moraes rabiscou o ar, pedindo a conta ao homem atrás do balcão.

Você tem cerveja em casa, Miguel?

Acho que não, Moraes.

A gente vai pra lá.

Agora?

É, agora.

O balconista sacou a caneta que levava presa à orelha e apontou as despesas num papel pardo, incluindo o período de utilização da mesa de bilhar, que em geral cabia aos perdedores. Moraes informou que iriam levar algumas cervejas.

Miguel não esperava por aquilo, ou não tão rápido. Ele aguardou que o homem concluísse a conta, depois retirou dinheiro da carteira e pagou tudo, sob o olhar satisfeito dos novos amigos. Tinha comentado que vivia sozinho numa casa na zona norte, após uma separação.

Ia começar a fase de averiguação. Na etapa seguinte, de acordo com o informante, ele seria batizado — ou morto, se descobrissem alguma coisa que os desagradasse.

Miguel estava relaxado. Levava na carteira documentos suficientes para comprovar que era quem dizia ser. (Sem esquecer o trezoitão no tornozelo direito.) Isso lhe dava confiança para jogar com os nervos daqueles homens. Ingo permanecia em pé, enquanto Moraes aguardava que o balconista providenciasse as cervejas que iriam levar. Miguel continuava sentado na banqueta, e não se moveu nem quando Moraes recebeu as sacolas com as cervejas. Ingo captou certa hesitação.

Algum problema, Miguel?

Ia começar a fase de averiguação. Na etapa seguinte, de acordo com o informante, ele seria batizado — ou morto, se descobrissem alguma coisa que os desagradasse

Não, Ingo, tudo certo. É que eu não estava esperando receber visita em casa hoje e tá tudo meio bagunçado, sabe como é, casa de homem solteiro…

Ingo o interrompeu. E olhou ao redor — o movimento no salão era grande, quase todas as mesas se viam ocupadas naquele instante.

A gente só precisa de privacidade. E de uns aditivos.

Produto

  • Baixo Esplendor
  • Marçal Aquino
  • Companhia das Letras
  • 264 páginas

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