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Reportagem

É depressão ou é só adolescência?

Em uma geração marcada pelo aumento dos problemas de saúde mental, famílias podem enfrentar um dilema: enxergar uma patologia onde há apenas oscilações próprias da idade ou, ao contrário, tratar como “uma fase” os sinais de um sofrimento que precisa de atenção

Flávia Mantovani 13 de Setembro de 2026

É depressão ou é só adolescência?

Flávia Mantovani 13 de Setembro de 2026

Em uma geração marcada pelo aumento dos problemas de saúde mental, famílias podem enfrentar um dilema: enxergar uma patologia onde há apenas oscilações próprias da idade ou, ao contrário, tratar como “uma fase” os sinais de um sofrimento que precisa de atenção

Dormir a tarde toda, isolar-se no quarto e reagir a tudo com irritação são comportamentos tão típicos da adolescência que já viraram um clichê sobre essa fase do desenvolvimento humano. Também estão entre os sintomas da depressão. Em uma geração marcada pelo aumento dos problemas de saúde mental, as famílias podem enfrentar um dilema: enxergar uma patologia onde há apenas oscilações próprias da idade ou, ao contrário, tratar como “aborrecência” sinais de um sofrimento que precisa de atenção.

A dificuldade tem origem no que cientistas holandeses chamaram, em um estudo sobre o tema, de “sobreposição fenomenológica”: as mudanças comportamentais características da adolescência podem ser parecidas às de um quadro depressivo.

“Há muitos parâmetros que se confundem entre a adolescência normal e a depressão. E a gente tem que saber que existem as duas coisas separadamente e as duas coisas sobrepostas”, afirma Andrea Hercowitz, hebiatra do Departamento de Adolescência da Sociedade de Pediatria de São Paulo.

A médica vê essa dúvida aparecer com frequência em seu consultório, nos dois polos. “Tem famílias que chegam achando que os filhos estão com problemas de saúde mental quando estão apenas passando por mudanças normais. E também o contrário: tem gente que acha que tudo é normal na adolescência e que adolescentes não têm problema de saúde mental.”

Para entender por que a fronteira pode ser tão difícil de traçar, é preciso olhar para o que acontece nessa fase. O processo começa na puberdade, quando os níveis hormonais sobem, provocando transformações no corpo e impacto sobre a mente e as emoções. Enquanto o organismo se adapta, o adolescente pode sentir tudo de forma mais intensa.

Mas a culpa não é só dos hormônios, ressalta Hercowitz. A maturação cerebral também é uma peça essencial desse quebra-cabeça. Nosso sistema límbico, ligado às emoções, à busca por prazer e à impulsividade, se desenvolve antes do córtex pré-frontal, responsável pelo planejamento e controle dos impulsos. Daí a maior dificuldade para avaliar consequências e controlar determinadas reações durante a adolescência.

Alterações no sono e no apetite também podem ter causas fisiológicas. O crescimento acelerado e as mudanças hormonais podem aumentar a fome, enquanto o relógio biológico tende a se deslocar para mais tarde. Somados à exposição a telas e aos horários escolares matutinos, esses fatores favorecem a privação de sono. Dormir até o meio-dia no fim de semana ou comer exageradamente, portanto, não bastam para indicar que algo está errado.

Para além da dimensão biológica, há uma terceira frente de transformação. O processo de construção da identidade na transição entre a infância e a vida adulta envolve a busca por autonomia. É esperado, então, que aquele filho que sempre foi grudado nos pais comece a exigir privacidade, a buscar mais referências fora da família e a mudar gostos e interesses.

Outro clássico que pode causar confusão é a identificação com movimentos que transformam a melancolia ou a raiva em identidade coletiva. Dos fãs de Legião Urbana nos anos 1980 aos grunges e góticos nos anos 1990, dos emos nos anos 2000 às atuais comunidades de “sadfishing” nas redes sociais, os exemplos vão se sucedendo ao longo das décadas.

“Alguns grupos têm um aspecto de banzo, de melancolia, em que a tristeza é o regulador do comportamento. Mas isso não quer dizer que essa tristeza seja patológica. É o que a gente chama de fator contágio”, explica o psicólogo Hugo Monteiro Ferreira, professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco e autor de “Agora o meu chão são as nuvens: As famílias contemporâneas e os desafios na educação de crianças e adolescentes” (Autêntica, 2025, 256 págs.).

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Além das oscilações da idade

Quando, então, é preciso se preocupar? Alguns sinais apontam para um sofrimento mais intenso e exigem intervenção imediata. “Quando a gente tem falas e pensamentos de morte, autolesão, abuso de substância ou um jovem que deixa de ir para a escola são sinais de alerta maior”, explica Guilherme Polanczyk, psiquiatra da infância e adolescência e professor da USP (Universidade de São Paulo).

Em casos mais moderados, em que a suspeita vem de um adolescente que parece triste ou apático, é preciso avaliar a intensidade e a frequência dessas reações, além do prejuízo no desempenho escolar e nas relações familiares e sociais. Uma tristeza passageira após um término de namoro é diferente de uma alteração que se prolonga, se intensifica e compromete amizades, escola, alimentação, sono ou atividades que antes davam prazer.

Quando a gente tem falas e pensamentos de morte, autolesão, abuso de substância ou um jovem que deixa de ir para a escola são sinais de alerta maior

Segundo o DSM-5 (manual utilizado para diagnosticar transtornos mentais), considera-se que uma pessoa tem um “episódio depressivo maior” quando ela apresenta ao menos cinco sintomas de uma lista que engloba desde questões psicomotoras até dificuldades cognitivas. Pelo menos um deles deve ser humor deprimido ou perda de interesse ou prazer, manifestados a maior parte do dia, quase todos os dias, por no mínimo duas semanas. O manual também diz que deve haver uma mudança em relação ao funcionamento anterior e faz um alerta: em crianças e adolescentes, o humor deprimido pode se manifestar como humor irritável.

“Alguns pacientes falam que se sentem vazios, que não veem mais graça nas coisas. Outros dizem: ‘Qualquer coisa me irrita, eu já me levanto irritado, não aguento ouvir as pessoas falando’”, confirma Polanczyk.

Segundo o psiquiatra, a taxa de depressão antes da puberdade é de apenas 1%. O risco escala a partir dessa fase: os dados de prevalência variam, mas estima-se que 20% dos adolescentes sofrem pelo menos um episódio depressivo até completarem 18 anos. Pesquisas também indicam uma maior ocorrência de transtornos mentais e suicídio nesta geração do que nas anteriores.

“Ser adolescente hoje é mais desafiador, porque a gente tem um contexto social, cultural e econômico de mais incertezas. Até a crise climática afeta a forma como as crianças veem seu próprio futuro. As incertezas, do ponto de vista cognitivo, geram ansiedade e afetam o humor”, diz Polanczyk.

Ser adolescente hoje é mais desafiador, porque a gente tem um contexto social, cultural e econômico de mais incertezas. Até a crise climática afeta a forma como as crianças veem seu próprio futuro

O excesso de telas é outro combustível bem conhecido para a piora da saúde mental, por várias razões: do cyberbullying à ilusão de vidas perfeitas nas redes sociais, passando pelo fluxo frenético de entrega de conteúdo. “Se para um adulto já é difícil elaborar essa quantidade de informação, imagina para quem está começando a descobrir o mundo?”, diz Hercowitz.

Além de gatilho para o sofrimento, o excesso de telas pode ser um sinal de que algo não vai bem. Segundo a hebiatra, a lógica é se isolar em um ambiente controlado para evitar mais sofrimento: “Se um jovem está deprimido, por que ele vai sair e se expor ao mundo se ele consegue construir um mundo ideal nos jogos eletrônicos como o Minecraft ou o Roblox?”

Mãe de Bia, uma garota de 14 anos que está em tratamento para depressão, Mariana* conta que a filha passava horas assistindo a Animes com temáticas depressivas. “Ela se refugiava em um mundo de fantasia para fugir do sofrimento da vida real”, diz.

Depois de ter um problema com o namorado e em meio a uma separação dos pais, Bia começou a ficar reclusa e a ter dificuldade para cumprir tarefas que antes eram simples. Vieram, então, crises de ansiedade mais fortes, e Mariana decidiu levá-la a um psiquiatra. Hoje, com medicação e terapia, a menina ainda tem altos e baixos, mas está mais sociável e mais forte para enfrentar os desafios. Mariana também tenta cultivar brechas para incentivar o diálogo nessa fase desafiadora. “Fico caçando oportunidades para conversar, invento programas para sairmos só as duas para que ela relaxe e consiga se abrir.”

Autor de uma pesquisa que mostrou que 80% das crianças e adolescentes com algum transtorno mental no Brasil não recebem diagnóstico ou tratamento adequado, Polanczyk diz que é preciso ampliar o acesso a esses serviços e reduzir o estigma. Vale ficar mais atento para os grupos de maior risco, como as crianças com alguma neurodivergência ou que fazem parte de minorias étnicas ou sexuais.

Uma das razões para encarar de frente o problema é que a depressão não tratada, mesmo que pareça leve, é um fator de risco para um novo episódio posterior mais intenso e também para outros transtornos mentais.

Fatores de proteção

Sabe-se que a depressão é influenciada tanto por fatores genéticos quanto pelas experiências de vida. É por isso que jovens negros brasileiros, por exemplo, apresentam 45% maior risco de suicídio do que brancos. “O contexto importa muito. É possível que uma pessoa com tendência genética à depressão não apresente a doença porque vive em um ambiente super bem cuidado, sem discriminação, com amigos acolhedores, uma escola legal. E o inverso também é verdade. Um ambiente tóxico pode desencadear o transtorno”, diz Ferreira.

Adolescentes que cultivam um sentido de transcendência tendem a ter menos depressão. Ter um propósito, fazer trabalho voluntário, descobrir qual é sua causa na vida, tudo isso ajuda muito

A prevenção, então, passa por criar um entorno saudável, estimulando bons hábitos de sono e atividade física e ajudando o adolescente a criar estratégias de regulação emocional. Incentivar o diálogo em casa de forma natural — se acostumar a jantar em família, por exemplo — pode ajudar a romper barreiras nos períodos de maior distância entre pais e filhos.

“Você precisa compreender que é o adulto e ter um repertório emocional para poder cuidar. O adolescente tem que se sentir seguro para dizer que está com alguma dificuldade, que não quer aquela profissão, que tem uma dúvida”, diz Ferreira.

Ele recomenda também introduzir, na vida dos filhos, uma dimensão de espiritualidade — não necessariamente religiosa. “Adolescentes que cultivam um sentido de transcendência tendem a ter menos depressão. Ter um propósito, fazer trabalho voluntário, descobrir qual é sua causa na vida, tudo isso ajuda muito.”

Para Hercowitz, a chave está em construir uma relação próxima com os filhos desde a infância. “A possibilidade de um adolescente conseguir dizer ‘estou sofrendo’ é muito maior numa família onde existe escuta ativa e diálogo desde sempre.”

*Os nomes foram trocados a pedido da entrevistada

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