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Ilustração de Isabela Durão

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Conversas

Darby Saxbe: "O pai depressivo pode demonstrar irritabilidade e afastamento"

Com sintomas diferentes da depressão materna, transtorno em pais impacta profundamente o desenvolvimento dos filhos, conforme apresenta novo livro

Leonardo Neiva 13 de Setembro de 2026

Darby Saxbe: “O pai depressivo pode demonstrar irritabilidade e afastamento”

Leonardo Neiva 13 de Setembro de 2026
Ilustração de Isabela Durão

Com sintomas diferentes da depressão materna, transtorno em pais impacta profundamente o desenvolvimento dos filhos, conforme apresenta novo livro

Quando a psicóloga norte-americana Darby Saxbe estava grávida do primeiro filho, seu marido desenvolveu uma mancha turva que lhe bloqueava parte da visão. Diagnosticado com uma retinopatia serosa central, acúmulo de fluido sob a retina geralmente relacionado ao estresse, seu oftalmologista lhe perguntou se ele tinha passando por alguma situação especialmente estressante nos últimos tempos. “Está tudo mais do que bem! Minha esposa está grávida”, ao que o médico respondeu: “Não precisa dizer mais nada.”

Saxbe conta essa história em seu livro “O Cérebro do Pai” (HarperCollins, 2026), no qual a especialista parte da própria pesquisa e de estudos globais para explorar as mudanças ocorridas na mente e na vida de muitos homens a partir da paternidade. “Depois do nascimento do nosso bebê, o problema de visão sumiu de forma tão misteriosa quanto surgiu, e a visão do meu marido voltou ao normal”, ela lembra. A mancha ainda ressurgiria momentaneamente durante a gravidez de seu segundo filho para depois nunca mais voltar.

Este é apenas um dos casos que a autora usa para exemplificar os muitos impactos que a chegada de um filho pode ter na saúde mental e física dos pais. Embora o foco, por razões importantes, quase sempre recaia sobre as emoções maternas nesse momento, a psicóloga defende que também é importante abordar o tema em relação a muitos pais, inclusive para prevenir problemas como o distanciamento e abandono familiar ainda hoje tão conectado à experiência da paternidade.

 Divulgação

“Meu principal argumento é que mães e pais podem apoiar um ao outro. Além disso, sintomas depressivos frequentemente ocorrem de forma simultânea nos casais; portanto, há bons motivos para buscar garantir que ambos estejam bem“, afirma Saxbe em entrevista concedida a Gama por email.

No livro, a pesquisadora nos lembra que, mesmo quando futuros pais abraçam com entusiasmo seu novo papel, a preparação para a vinda do bebê muitas vezes está acompanhada de sentimentos de hesitação, ansiedade e tristeza — e que podem evoluir para transtornos como a depressão. Essas emoções costumam nascer de temores bem específicos, como o de enfrentar mudanças no relacionamento, não corresponder a um certo ideal de paternidade ou não conseguir criar laços com a criança.

Assim como as mães, os pais recentes apresentam risco elevado de problemas de saúde mental nos meses antes e depois do parto

“Assim como as mães, os pais recentes apresentam risco elevado de problemas de saúde mental nos meses antes e depois do parto”, escreve a psicóloga. Como transtornos de humor ainda hoje são mais frequentemente diagnosticados em mulheres do que em homens, parece natural pensar que deve haver um padrão de subnotificação em estudos que apontam que “um em cada dez a quinze pais relataram depressão perinatal, em comparação com cerca de uma em cada sete mães.”

Considerando que esses sentimentos rondam tanto a gestação quanto o período que se segue ao parto do bebê, Saxbe prefere defini-los, no lugar da muito utilizada depressão pós-parto, como transtornos de humor e ansiedade perinatal, termo que engloba todo o período em torno do nascimento. Mas, antes de se aprofundar nesses transtornos, é importante entender como a parentalidade pode alterar desde o início tanto o cérebro das mães quanto dos pais.

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O cérebro em transformação

Boa parte das pesquisas recentes observa que, quando uma criança vem ao mundo, os pais passam por um período de refinamento neural muito semelhante ao das mães, explica a especialista. Trata-se de um processo fundamental para o desenvolvimento cerebral, em que conexões entre sinapses que não estão sendo usadas de forma eficiente dão lugar a outras utilizadas de maneira mais frequente.

Na prática, aponta Saxbe, homens que se tornam pais perdem um certo volume — cerca de 1% — de massa cinzenta durante a transição. O cérebro se reduz um pouco justamente nas regiões que sustentam a “mentalização”: nossa capacidade de pensar e avaliar a mente e as intenções das outras pessoas. Mas perder massa cinzenta não é necessariamente algo negativo. “A remodelação parece ajudar essas vias neurais a funcionar com mais eficiência e a processar melhor as informações sociais”, esclarece a psicóloga.

É algo semelhante ao que acontece com as mães. Um cérebro mais enxuto, como a especialista explica no livro, auxilia ambos a processar as informações de maneira mais eficiente durante o trabalho de criar os filhos. Mas também há diferenças importantes. Enquanto as alterações no cérebro das mães costumam ser muito mais pronunciadas em quase todos os casos, nos pais elas se mostram bastante distintas de acordo com o nível de conexão que eles mantêm com o bebê desde a gestação.

“Em comparação com a maternidade, a paternidade é mais consciente e intencional. Os pais escolhem investir em seu bebê”, reforça Saxbe num trecho da obra. “Desse modo, as alterações cerebrais dos pais dependem de sua experiência parental, que reflete o trabalho cognitivo e de mentalização envolvido no cuidado com os bebês.”

Embora essa redução da massa cerebral tenha um papel importante no cuidado dos filhos, ela também pode vir acompanhada de alguns problemas relacionados ao trabalho de cuidado. Pais que perderam mais volume no córtex, a camada mais externa do cérebro, relataram pior qualidade de sono e mais problemas de saúde mental, como ansiedade e depressão, escreve a psicóloga.

Uma gama de sintomas

“Sabemos que novos pais apresentam taxas mais elevadas de depressão e ansiedade do que homens da população em geral por diversos motivos: privação de sono, mudanças na identidade, fatores estressantes adicionais e alterações cerebrais e hormonais”, afirma Saxbe na conversa com Gama. Embora as causas exatas ainda estejam sendo investigadas, para a psicóloga é evidente que a transição para a parentalidade é um período de alto risco para a saúde mental tanto de homens quanto de mulheres.

Da mesma forma que as mães, pais com depressão podem enfrentar sintomas como sono ruim, perda de apetite, baixa libido e anedonia, a perda de capacidade de sentir prazer, aponta no livro a especialista. Mas alguns sintomas diferem entre homens e mulheres — o que torna mais desafiador o reconhecimento e diagnóstico do transtorno no caso deles.

“Em vez de tristeza ou choro, o pai depressivo pode demonstrar irritabilidade e afastamento do bebê, bem como um foco excessivo no trabalho, associado à ansiedade em relação ao papel de provedor”, afirma a pesquisadora. A figura infelizmente comum de “um pai irritadiço, estressado com o trabalho, que desconta sua frustração na parceira e não sente muita conexão com o filho”, em um exemplo evocado no livro, pode estar descrevendo um pai com sintomas de depressão pós-parto.

A própria experiência do nascimento do bebê afeta as chances de muitos homens sofrerem com o transtorno. Em “O Cérebro do Pai”, Saxbe cita a pesquisa desenvolvida por uma de suas alunas de pós-graduação, Lizzie Aviv. No estudo, pais que avaliaram o parto como mais estressante — caso de uma cesariana de emergência, em que há risco para a vida da parceira — demonstraram maior probabilidade de desenvolver uma depressão seis meses mais tarde. Já um outro levantamento feito por pesquisadores suecos apontou que, quando os pais têm contato pele a pele com a criança logo após o nascimento, há uma ocorrência menor de ansiedade e depressão no futuro.

À sombra do tabu

Mesmo com fortes evidências que apontam para níveis consideráveis de casos de depressão paterna, ainda perdura um estigma em torno do tema. “Em parte, isso ocorre porque as mães podem sentir (e com razão) que precisam de mais apoio no período perinatal e resistem a esforços para desviar esse foco para os pais”, declara a psicóloga.

Abordar a saúde mental de pais recentes também permanece sendo tabu, segundo Saxbe, por refletir o estigma que alguns homens ainda sentem em admitir que estão enfrentando algum tipo de transtorno. “Muitos homens são criados para serem durões e fortes, e relutam em admitir que precisam de ajuda e apoio. Eles temem que, se confessarem ter problemas de saúde mental, serão vistos como fracos.”

Em vez de tristeza ou choro, o pai depressivo pode demonstrar irritabilidade e afastamento do bebê, bem como um foco excessivo no trabalho, associado à ansiedade em relação ao papel de provedor

Um dos principais argumentos que a pesquisadora traz para defender a importância de cuidar da depressão perinatal masculina é que o transtorno acaba afetando a família inteira. Para ela, abordar a saúde mental de forma proativa com novos pais ajuda inclusive a prevenir problemas como casos de abandono e violência dentro da família. Até porque, lembra Saxbe, a depressão não tratada pode dificultar que os homens criem vínculos com seus filhos e mantenham seus relacionamentos com as parceiras.

A especialista evoca no livro estudos globais que apontam o impacto da saúde mental do pai para o bem-estar das crianças a longo prazo. Segundo essas pesquisas, o sofrimento paterno pode afetar a saúde física, o sono e os hábitos alimentares dos filhos entre a infância e a idade adulta, além de impactar sua capacidade de desenvolvimento em diversas áreas, como bem-estar emocional, habilidades linguísticas, sociais e cognitivas, ampliando o risco de desenvolverem transtornos como a depressão.

E, claro, traz consequências diretas para a dinâmica da família. “[A depressão] pode contribuir para o afastamento do homem da vida familiar e até mesmo levar à ausência paterna. Ou seja, ele se separa completamente da família. Isso, em última análise, acaba sobrecarregando ainda mais as mães”, diz a psicóloga.

Caminhos a seguir

O tabu em torno da saúde mental dos pais é também um dos motivos porque a grande maioria dos países ainda engatinha na criação de políticas públicas voltadas aos pais. “Centros de atendimento materno podem até oferecer serviços de saúde mental para mulheres, mas poucas clínicas estão preparadas para atender mães e pais, e poucos profissionais de saúde mental perinatal são treinados para trabalhar com homens”, escreve Saxbe.

De forma a mudar esse quadro, a psicóloga defende garantir o acesso à licença-paternidade e reduzir o estigma sobre o assunto no ambiente de trabalho como partes importantes do processo. Uma ação crucial, na visão dela, é incentivar os pais a fortalecerem sua comunidades, redes de amigos e familiares na transição para a paternidade, evitando depender exclusivamente da parceira na busca por apoio.

Outro ponto importante seria ampliar os serviços e estudos voltados à saúde mental dos pais. “Poucas pesquisas foram feitas sobre tratamentos de saúde mental perinatal para pais, apesar do número crescente de pesquisas sobre mães”, ela questiona na obra. “Um estudo de 2017, que entrevistou pais recentes, descobriu que a maioria preferiria fazer terapia a tomar medicamentos prescritos para depressão. Mas não é fácil encontrar terapeutas ou métodos direcionados a esses pais.”

Produto

  • O Cérebro do Pai
  • Darby Saxbe (trad. Cristina Yamagami)
  • HarperCollins
  • 288 páginas

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