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Reportagem

A depressão mascarada pela rotina

A chamada depressão de alta funcionalidade, em que o deprimido segue ativo, tem seu apoio na sociedade contemporânea que clama por produtividade

Mariana Pontes 13 de Setembro de 2026

A depressão mascarada pela rotina

Mariana Pontes 13 de Setembro de 2026

A chamada depressão de alta funcionalidade, em que o deprimido segue ativo, tem seu apoio na sociedade contemporânea que clama por produtividade

Acordar às cinco da manhã, escovar os dentes, tomar café, se arrumar, ir para a academia, seguir para o trabalho e finalizar o dia com um happy hour pode ser a rotina de alguém com depressão? Por mais que, numa primeira olhada, essa pareça ser a agenda de uma pessoa sem grandes questões relacionadas à saúde mental, há um ponto importante a ser observado: se essas ou outras tarefas não trazem nenhum prazer e ainda demandam um altíssimo esforço, é importante investigar.

“Temos um imaginário social coletivo de que a depressão está atrelada à pausa. Aquele quadro clássico da pessoa deprimida na cama. Isso existe, não estou dizendo que esse quadro depressivo profundo não aconteça. Porém, a depressão também se manifesta em um sujeito que se mantém em atividade, e às vezes até em uma atividade extrema”, complementa Thatiana Cappellano, consultora de comunicação organizacional e especialista em psicanálise e ciências sociais.

Esse quadro costuma ser chamado de “depressão funcional”. Ainda que não seja um termo técnico, reconhecido pela Classificação Internacional de Doenças (CID), da Organização Mundial da Saúde (OMS), se popularizou na mídia enquanto pessoas compartilhavam suas experiências — inclusive pelo ator Cauã Reymond, no auge de sua carreira. “Quando a gente fala de depressão com alta funcionalidade, geralmente o que está querendo dizer é que a pessoa está deprimida, mas para o mundo parece que não. Eu imagino alguém que está na faculdade, trabalhando, fazendo tudo, mas com muito mais sofrimento”, diz a psiquiatra Tânia Ferraz Alves, diretora do corpo clínico do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.

De acordo com Fernando Fernandes, médico psiquiatra do Grupo de Transtornos do Humor do Instituto de Psiquiatria da USP, os termos técnicos que mais se aproximam da depressão funcional são as chamadas “depressão leve”, quando o quadro não é percebido e se consegue encobrir os sintomas, e “atípica”. “Na depressão atípica, é muito comum a pessoa reagir em determinados momentos. O humor dela tem essa característica de reagir a estímulos”, explica.

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Depressão, mas funcional

Importante ressaltar que a depressão de alta funcionalidade é, antes de tudo, depressão. Assim, por princípio, os sintomas podem, de maneira geral, ser separados em três categorias: afetivos (tristeza, apatia, ansiedade, angústia), cognitivos (dificuldade de manter a atenção, memória recente prejudicada, raciocínio mais lento) e físicos (alterações no sono, no apetite, aumento de dores pelo corpo). Neles, o indivíduo percebe uma falta de prazer e interesse que pesam no dia a dia.

A comediante e escritora Viviane Miranda, mais conhecida nas redes como Aquela Miranda (@aquela.miranda) e autora do lançamento “Bug nos Millennials” (Record, 2026), conta a Gama que, por mais que sentisse um incômodo e uma dificuldade para fazer as tarefas do dia a dia, ela ainda as executava. “Eu continuei a minha rotina. Então, eu acho que isso fazia as pessoas realmente pensarem que talvez eu não tivesse nada. E também pelo fato de eu trabalhar com humor, existe essa sensação de que se você é uma pessoa divertida, então não tem como você ter depressão.”

Ela também relata a dificuldade dos outros de entenderem que, ainda que ela esteja no bar, comendo e bebendo, existe algo dentro dela que não encaixa, mas que não é visível. “Eu acho que ficaria mais evidente se eu fosse uma pessoa muito claramente deprimida, com muitas das características e uma personalidade melancólica”, diz.

Quando a pessoa está com uma depressão muito típica, ela procura ajuda, melhora e fica bem. Quando ela tem esses quadros arrastados, ela acha que é dela, que a culpa é dela

Como o desempenho mascara a noção construída da depressão, é mais difícil que o sujeito e a sociedade consigam enxergá-la. Sem uma cara reconhecível, o diagnóstico pode ser desafiador — e aí mora o perigo. Não procurar tratamento significa deixar um caso de depressão, assim como o sofrimento diário, perdurar. “Quando a pessoa está com uma depressão muito típica, ela procura ajuda, melhora e fica bem. Quando ela tem esses quadros arrastados, ela acha que é dela, que a culpa é dela”, afirma a psiquiatra Tânia Ferraz Alves.

Enquanto a pessoa carrega os sintomas por um longo período de tempo, Fernandes alerta que os prejuízos podem incluir menor desempenho nos estudos, no trabalho e em relacionamentos. “A pessoa não buscar ajuda, ou demorar muito a buscá-la, [é o principal perigo] porque mesmo que ela carregue sintomas leves, ou mesmo que continue tocando a própria vida, os prejuízos são evidentes. Estudos mostram claramente que manter sintomas leves ao longo da vida faz as pessoas terem uma série de prejuízos”, explica.

O risco de suicídio é sempre uma das principais preocupações relacionadas a casos não diagnosticados e tratados, ligada à falta de perspectiva de melhora em quadros contínuos. Alves diz que “muitas vezes, uma pessoa que está deprimida tem um pensamento de morte, de que a vida não vale a pena, de que do jeito que está ela não vai melhorar, e essa desesperança pode levar a uma suicidalidade”. Como uma das questões que demanda atenção, continua: “Se ela fala sobre pensamento de morte, de suicídio, a gente tem que valorizar e cuidar, porque tem um risco real”.

Procurando ajuda

Para essas situações em que as angústias não transparecem, as próprias pessoas costumam reconhecer alguma irregularidade e, a partir disso, procurar ajuda. Às vezes, tropeça em um conteúdo sobre uma depressão não-típica e se reconhece. Em outras, com a queixa de uma dor de cabeça ou alergia persistente, por exemplo, pula de médico em médico até o momento em que alguém suspeita da depressão.

Não existe um teste que indique positivo ou negativo para depressão. É necessário fazer as perguntas certas: você sente tristeza a maior parte do tempo? A vida perdeu a graça? O apetite, o sono, a energia mudaram? O jeito que você via a vida mudou? Mesmo que as respostas não sejam espontâneas, a suspeita do médico ou psicólogo é feita para que a pessoa questione e pense que talvez aquilo esteja sim acontecendo com ela. Agora, para quem está observando de fora e não é médico, é necessário ser um observador detalhista em pequenas mudanças de comportamento e oferecer apoio sem desvalorizar, em uma relação de cuidado, curiosidade e interesse.

Após identificada, existem vários caminhos de tratamento. Alves explica que, para quadros leves, terapia pode ser eficaz: “A terapia, especialmente a cognitivo-comportamental, tem evidência de eficácia como tratamento. A estimulação comportamental, que é atividade física e mudanças de hábito, também tem evidência”. Em quadros moderados graves, ou nos já crônicos, é necessário medicação, que varia de paciente para paciente.

Não é o seu jeito

Ter um comportamento de alta funcionalidade mesmo durante a depressão é consequência da sua personalidade, do ambiente ou da sua genética? Provavelmente um pouco de tudo.

A depressão tem um componente genético de vulnerabilidade — famílias em que mais de uma pessoa tem a doença são comuns e, curiosamente, tendem a procurar tratamento mais cedo por ter esse repertório familiar. Além disso, existem características individuais que podem ser equilibradas por ações como atividade física, espiritualidade e autocuidado. “É um mix de vários fatores que favorecem a pessoa a deprimir e, quando ela apresenta uma depressão, aí não é tristeza. Tristeza todos nós temos. Se você receber uma notícia ruim, um problema, a gente vai ficar triste, mas melhora”, diz Alves. Com a depressão é diferente.

Segundo Fernandes, além das características clínicas da depressão, questões de personalidade interferem. Pessoas muito determinadas, exemplifica, tendem a manter suas atividades por mais tempo, mesmo com um nível elevado de sofrimento. “Muitas vezes o rendimento cai, mas a pessoa consegue disfarçar por conta das aptidões que ela têm.”

Justamente por alguns desses traços, muitos evitam mostrar que estão em depressão, com dificuldade em expressar alguma fragilidade, tentando manter o desempenho e a aparência a todo custo. “Isso é uma faca de dois gumes porque, se por um lado é uma característica que ajuda a pessoa a se recuperar da depressão, por outro, muitas vezes retarda a busca da ajuda apropriada”, complementa Fernandes.

A consultora e especialista em psicanálise Cappellano acredita que tentar se manter funcional para não se tornar um fardo ou até esconder a doença reflete um estigma geral da depressão e das pessoas deprimidas, que são tidas, muitas vezes, como um peso ou como fracas.

Mas Fernandes ressalta que, independentemente da personalidade, numa depressão moderada, a funcionalidade fica comprometida e, numa grave, tende a ser incapacitante. “Então, em certa medida, depende do modo como a pessoa encara as dificuldades da depressão, no repertório que ela tem para lidar com isso, na psicologia dela e na rede de apoio que a pessoa tem”, afirma.

Locais de alta demanda e alta performance é onde vemos mais depressão

Por fim, existe a questão de ambiente, em que a situação que se vive pode aumentar a vulnerabilidade para o quadro: “Locais de alta demanda e alta performance é onde vemos mais depressão”, afirma Alves. De acordo com o Ministério da Previdência, houve mais de 546 mil afastamentos por transtornos mentais em 2025 — em oposição aos quase 200 mil em 2021. Dentre os transtornos, a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) destaca a ansiedade e depressão.

Sheldon Assis, autor, com formação em história e gerente pedagógico, que não entrou em um quadro depressivo, mas superou um período alongado de tristeza contínua com ajuda profissional, conta ter passado por uma experiência de sobrecarga excessiva em sua antiga empresa, com um tipo de cobrança anormal e, após dois anos com o sono desregulado, decidiu buscar ajuda.

Aprendeu no processo de terapia que “algumas coisas que eu achava que eram traços de personalidade, na verdade, são oriundas de traumas”, diz a Gama. “E, nós, homens pretos em especial, temos essa ideia de masculinizada, de força. Minha formação me deu a possibilidade de entender que esses processos são muito mais profundos. E que isso acaba gerando em nós o tipo de ideia de que não podemos procurar uma ajuda. Então, pós-pandemia, eu fui atrás de ajuda.”

Sociedade produtiva

De acordo com o Ministério da Saúde, a prevalência de depressão ao longo da vida no Brasil está em torno de 15,5%. Ou seja, em uma sala com 100 pessoas, cerca de quinze delas tiveram, têm ou terão depressão. Mas, atualmente Alves observa um aumento de casos.

A dificuldade central hoje é parar: sempre estamos ocupados com uma tarefa. Ou muitas: corremos ouvindo podcast, almoçamos ao responder emails. Alves alerta que isso deixa o “cérebro sempre desgastado”. Quando o único momento de relaxamento é o sono, há uma situação de cansaço mental que vulnerabiliza o indivíduo para ansiedade e depressão.

Esse cenário foi descrito pelo filósofo e ensaísta sul-coreano-alemão Byung-Chul Han em “Sociedade do Cansaço” (Editora Vozes, 2015, trad. Enio Paulo Giachini), quando o conceito de “sociedade do desempenho” define o modelo em que a busca incessante por produtividade se torna inerente. Cappellano afirma que, seguindo esse pensamento, existe uma relação direta entre o alto desempenho e a depressão, denominado de infarto psíquico pelo autor. “Numa sociedade que encara o ócio ou a ausência de produtividade como uma escolha, é de se esperar que o sujeito mantenha o desempenho de suas múltiplas funções mesmo em face ao cansaço e à exaustão”, diz Cappellano.

O seu valor como pessoa é o quanto você produz e, se você tem um quadro de uma crise, seja de ansiedade ou depressão, isso vai afetar o seu trabalho

Miranda nota uma forte autocobrança, principalmente como autônoma, sem ter alguém que demande quais tarefas precisa realizar. Relata também a relação entre o estar produzindo, ou seja, trabalhando e ganhando dinheiro, e a sua significância como indivíduo. “O seu valor como pessoa é o quanto você produz, o quanto você ganha e, se você tem um quadro de uma crise, seja de ansiedade, seja de depressão, isso vai afetar o seu trabalho”, afirma a comediante.

Ela apresenta em seu livro, “Bug nos Millennials” (Record, 2026), como as gerações nascidas entre 1981 e 2010 — millennials e geração Z — são as mais medicadas da história e com o maior número de afastamentos por burnout. A autora nota que a pejotização e a precarização do mercado de trabalho fazem com que muitos tenham medo de se afastar por questões de saúde mental ou de não poderem parar de trabalhar justamente pela falta de segurança.

Hoje, Cappellano percebe que a sociedade e os trabalhadores demandam das organizações que esse assunto seja trazido na relação entre trabalho e saúde mental. Mas percebe que ainda há uma resistência grande, já que persiste o questionamento sobre se o adoecimento é em virtude do trabalho ou relacionado a problemas pessoais. O ponto é que, cada vez mais, o trabalho invade a vida pessoal do funcionário, borrando a linha que antes as separava. De acordo com Cappellano, “a gente não vive mais numa sociedade em que há uma clareza de onde começa e onde termina a nossa vida profissional e pessoal”.

As novas gerações, contudo, estão impondo mais limites na dinâmica de trabalho. Cappellano lembra que botar limites em prol da saúde mental, questionando jornadas extenuantes e acúmulo de função — conhecidos pelo “quiet quitting” (demissão silenciosa) — têm afrontado para mudanças: “[Esse movimento] tem provocado as organizações a buscar compreender situações que eram naturalizadas ao longo do tempo e que as gerações anteriores normalizaram”.

Sheldon aponta ainda que não é apenas cobrado uma produtividade, mas uma produtividade estética. “Não basta somente ser um bom profissional. Eu tenho que ser um bom profissional que acorda às cinco da manhã, que treina em jejum, que chega em casa à noite e lê um livro, que faz meditação e, em meio a tudo isso, ainda estou fazendo um curso de MBA.”

Atrelado a isso, existe o advento das redes sociais, em que aparentar se tornou mais importante do que realmente ser. Enquanto luta com as dificuldades individuais, Sheldon também acompanha os amigos em restaurantes e viagens, observando que “essa possibilidade de eu aparentar me alivia socialmente. Eu, pelo menos, posso mostrar para a sociedade que eu estou bem, mesmo não estando”.

Fernandes ressalta que depressões em que a pessoa consegue continuar suas atividades são descritas desde a Grécia Antiga, não são produto da sociedade contemporânea. Mas, em uma era marcada pela conectividade, alguns aspectos podem ficar mais escancarados e caricatos: “A pessoa mostra uma vitrine para a sociedade nas redes, sendo que, no fundo, está passando por um quadro depressivo”.

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