Violência contra a mulher: até quando?
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Ilustração de Isabela Durão

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Reportagem

Por que o Brasil bateu o recorde histórico de feminicídios em 2025?

No sentido oposto dos homicídios, índice de feminicídios vem crescendo há dez anos na esteira de ataques misóginos e ineficiência da Justiça

Leonardo Neiva 08 de Março de 2026

Por que o Brasil bateu o recorde histórico de feminicídios em 2025?

Leonardo Neiva 08 de Março de 2026
Ilustração de Isabela Durão

No sentido oposto dos homicídios, índice de feminicídios vem crescendo há dez anos na esteira de ataques misóginos e ineficiência da Justiça

Ao menos quatro mulheres são vítimas de feminicídio todos os dias no Brasil. Se 2025 marcou o aniversário de dez anos da lei sobre o tema — que inseriu o crime no contexto de violência doméstica e discriminação, categorizando-o como crime hediondo —, trouxe também um recorde preocupante: 1.518 mulheres foram mortas por esse tipo de crime no país, o maior número de casos nos últimos dez anos, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Enquanto os homicídios de maneira geral vêm numa trajetória de queda, houve um aumento de 4,7% nos feminicídios em relação a 2024, ano que já tinha registrado recorde, com 1.492 ocorrências, além de um avanço de 9% nos casos de violência contra a mulher. Hoje, o Brasil é o quinto país com mais assassinatos violentos de mulheres no mundo, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas pra os Direitos Humanos (ACNUDH).

Por aqui, o feminicídio hoje é um crime autônomo, separado do homicídio, com pena máxima de 40 anos — a maior do Código Penal. Na prática, caracteriza um atentado contra a vida da mulher por circunstância de gênero, explica a promotora de Justiça e mestre em Direito Penal Silvia Chakian. “No âmbito dos relacionamentos afetivos — ex-companheiro, ex-marido, ex-namorado, ou atual namorado ou familiar — a violência que atenta contra a vida dela no espaço doméstico, tudo isso vai receber a chancela de feminicídio”, explica Chakian, especialista em violência de gênero. Embora menos comum nesse tipo de crime, outra possibilidade é um contexto de menosprezo ou discriminação. “Vamos imaginar um autor de violência serial que mata mulheres, profissionais do sexo, mulheres trans, mesmo que ele não tenha se relacionado com elas”, exemplifica.

Com exceção de um leve recuo em 2021, aliás, as cifras desse tipo de crime vêm crescendo de maneira constante desde 2015. Os impactos do feminicídio ficaram também bastante visíveis nos últimos meses por meio de casos como o de Tainara Souza Santos, 31, que foi atropelada e arrastada em São Paulo por mais de um quilômetro por um ex-namorado. A vítima teve as duas pernas amputadas e acabou morrendo em dezembro, quase um mês após o crime. Recentemente, Priscila Verson, 22, uma amiga de Tainara, também foi morta pelo companheiro. Entre vários casos recentes que ganharam atenção da mídia, se destacam também o de uma freira de 82 anos estuprada e morta no Paraná e de uma mulher morta pelo ex-companheiro em um motel de São Paulo.

Essa tendência de alta tem sido mais intensa em algumas regiões. Enquanto o aumento foi de 14,5% no país desde 2021, o número de mortes praticamente dobrou no estado de São Paulo, com um salto de 96,4%, de acordo com o FBSP. “Quando olhamos para quem mata e como mata, vemos uma violência que está acontecendo no espaço privado e que muitas vezes vai recrudescendo ao longo do tempo”, descreve a doutora em direitos humanos e pesquisadora sênior do FBSP Juliana Brandão.

As pesquisas mostram que os responsáveis por feminicídios no país — mais de 97% deles homens — quase sempre fazem parte do círculo íntimo de suas vítimas. “É uma violência que expressa um padrão de masculinidade associando poder, controle e posse daquela mulher que era sua companheira ou ex-companheira”, considera a especialista.

E no Brasil, só é possível falar do crime a partir de um recorte social bastante claro. Se traçarmos um perfil dessas vítimas, Brandão aponta que, em sua maioria, tratam-se de mulheres negras moradoras de bairros periféricos e em idade reprodutiva, na faixa dos 30 aos 49 anos, inseridas em relações afetivas ou que romperam recentemente. Em grande parte, elas são mortas dentro de casa por armas brancas, utensílios geralmente disponíveis no ambiente domiciliar — mas houve um aumento do uso de armas de fogo nesses casos em 2025, segundo o Instituto Fogo Cruzado.

“A gente observa que mulheres pretas, quilombolas, indígenas e mulheres trans reconhecidas pela lei Maria da Penha não estão inclusas numa proteção eficiente pela aplicação da lei”, declara a cofundadora e vice-presidente do Instituto Maria da Penha, Regina Célia. Também mulher negra e vinda da periferia, ela defende um conjunto de ações integradas levando em conta os dados disponíveis sobre o tema e que sejam realizadas nas regiões onde as mulheres estão mais vulneráveis a essa violência. Só assim, afirma, será possível romper a avalanche de dados negativos e a naturalização — ou até a banalização — do feminicídio na sociedade brasileira.

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Discurso de ódio

A misoginia virou um mecanismo de afirmação de identidade para muitos homens nas redes sociais, na visão da advogada Mayra Cotta, especialista em gênero. “Esse radicalismo e esse ódio ganham legitimidade, passam a ser naturalizados e aceitos”, considera. Para ela, além de reforçar padrões de violência masculina na sociedade, essa misoginia silencia muitas mulheres que, ao denunciá-la, ainda acabam expostas e perseguidas. “Hoje, o esporte nacional preferido é xingar mulheres online”, afirma.

Chakian associa os números do feminicídio à persistência da desigualdade de gênero no país, ao menos da porta de casa para dentro. “As mulheres têm conquistado mais espaços de poder e participação inclusive política. Mas pouca coisa evoluiu nas relações domésticas, familiares e de afeto em termos de desigualdade de papéis sociais, do que se espera das mulheres nessas relações. Ainda há muita violência para o exercício desse domínio masculino que é fruto de uma construção histórica”, explica. Para a especialista, o Brasil corrigiu muito pouco seus níveis de desigualdade nos últimos anos — e a experiência mostra que estes têm relação direta com a violência contra a mulher.

Segundo a promotora, os discursos misóginos atuais costumam se focar na ideia de que “as mulheres foram longe demais”, numa busca por “restaurar uma suposta honra masculina”. Esse movimento ajudaria a explicar não só o aumento da violência letal, mas de uma violência “cada vez mais perversa”: “com reiteração de golpes, com facadas no rosto da mulher e atos de muita brutalidade“, com a intenção de desfigurar a vítima, diz Chakian.

Pouca coisa evoluiu nas relações domésticas, familiares e de afeto em termos de desigualdade de papéis sociais

“Temos muitos tipos de incentivo para o ódio, mas pouca educação para preveni-lo”, diz a atriz Rachel Ripani, ativista feminista e uma das organizadoras do movimento Levante Mulheres Vivas, que em dezembro realizou atos contra o feminicídio em vários estados brasileiros. Ela defende a criminalização da misoginia e a inclusão na grade curricular do ensino sobre o tema, como acontece — ou deveria acontecer — com o racismo. Também critica a falta de regulamentação do discurso de ódio contra as mulheres nas redes, seja pelo poder público seja pelas próprias big techs.

“Tem muitos perfis ganhando dinheiro sem nenhum tipo de regulação ou de responsabilização por dizer coisas como que mulheres merecem apanhar, morrer, que as mulheres são propriedade do homem, como deveriam se comportar ou quais espaços podem ocupar. O fato de isso ser impulsionado por algoritmos cria uma cultura do ódio que desumaniza não só mulheres, mas também animais e crianças.”

Tornozeleira eletrônica

No final de fevereiro, a vendedora Cibelle Monteiro Alves, 22, foi morta a facadas pelo ex-namorado na joalheria onde trabalhava, num shopping da Grande São Paulo. Ela já tinha uma medida protetiva contra o autor do crime após procurar a polícia duas vezes com denúncias de violência doméstica e pelas ameaças que recebeu após o fim do relacionamento. Um boletim de ocorrência, no entanto, aponta que o criminoso descumpria de forma frequente a medida, segundo reportagem da Folha de S.Paulo.

Apesar de, na grande maioria dos casos de feminicídio, a vítima não ter chegado a procurar a Justiça, 13,1% das vítimas mortas em 2025 — uma em cada oito mulheres — também conseguiram uma medida protetiva como a de Cibelle, aponta o FBSP. Para Brandão, os dados são preocupantes, porque traduzem a realidade de imensa vulnerabilidade à violência vivida pelas mulheres, levando em conta “um Estado que contribui com essa situação quando ele é inerte.” “Mesmo com um contingente menor das mulheres chegando ao sistema de Justiça, essa proteção institucional não tem sido suficiente para evitar um desfecho letal em muitos casos”, declara a representante do FBSP.

Mesmo com algumas boas notícias, como a redução do período para emissão da medida protetiva e um aumento nos julgamentos de casos de feminicídio, há gargalos que impedem uma proteção mais abrangente. Chakian defende que todas as medidas protetivas deveriam ser amparadas pelo uso de tornozeleiras eletrônicas, tecnologia que vem sendo usada de forma limitada. “A mulher que foi morta na joalheria recebeu a medida protetiva, mas não estava sendo monitorada. Não havia uma tornozeleira eletrônica, que poderia ter salvado a vida dela”, declara.

A promotora considera que um estado como São Paulo tem tecnologia eficiente, em que uma viatura é acionada e a vítima comunicada assim que o suspeito descumpre a medida. Se o sujeito não conseguir justificar de forma satisfatória essa aproximação da vítima, pode ser preso preventivamente. “Mas esse sistema precisa se expandir, não pode funcionar só num grupo limitado de audiências da capital. Precisa cobrir o estado inteiro”, defende Chakian.

Já o lado oposto das estatísticas também é motivo de preocupação. Afinal, significa que quase 87% das vítimas de feminicídio nem chegaram a procurar a Justiça. “O feminicídio geralmente não vem de forma isolada, mas sim após um contínuo de violência. Então, significa que o Estado está falhando em garantir acesso à informação, à segurança e a direitos para essa mulher”, diz a promotora.

O feminicídio geralmente não vem de forma isolada, mas sim após um contínuo de violência. Então, significa que o Estado está falhando em garantir acesso à informação, à segurança e a direitos para essa mulher

O feminicídio é inclusive previsível, pois integra um ciclo de violência que faz com que, caso não receba ajuda, a mulher acabe vivenciando uma rota crítica, diz Regina Célia, do Instituto Maria da Penha. E essa tarefa é um desafio pelo fato de várias mulheres não entenderem que estão inseridas nesse ciclo. “Muitas dizem que é o jeito dele, que, quando ele fica muito nervoso, se descontrola. Mas que, tirando isso, ele é um amor”, cita como exemplo.

Célia destaca o artigo 8º da Lei Maria da Penha, que prevê “um conjunto articulado de ações da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios e de ações não-governamentais” para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher. “Entre os caminhos, está a formação permanente dos agentes de segurança, a educação, o trabalho interdisciplinar e a alteração curricular”, afirma. Porém, ainda não há um processo integrado de inclusão do tema nas escolas, por exemplo. “A lei é aplicada, mas não de forma eficiente nem assertiva.”

“Eu atendo mulheres desde 2006, quando a Lei Maria da Penha foi promulgada. Quando pergunto para uma mulher o que ela quer que eu faça, a resposta é sempre: que a violência pare. Não necessariamente que o responsável seja preso”, conta a advogada Mayra Cotta. Por isso, para ela, o foco principal não deve ser a punição do criminoso depois que o crime já foi consumado. “Eu não quero os agressores presos, eu quero as mulheres vivas. E a gente ainda falha muito nessa proteção.”

Próximos passos

Também não dá para descartar o fato de que, ao longo da última década, o poder público alcançou uma definição muito mais clara sobre as características que definem um feminicídio. Com a lei sobre o tema completando dez anos de existência e o ato passando só em 2024 a ser considerado um crime autônomo, separado do homicídio, Brandão, do FBSP, considera sim que há um contexto que hoje favorece muito mais a categorização correta desses casos.

Por outro lado, não dá para colocar o aumento dos feminicídios no Brasil somente nessa conta, afirma a pesquisadora. “Olhar as estatísticas não é o suficiente para explicar esse fenômeno. Não há só uma melhor categorização, mas também um recrudescimento do ódio contra as mulheres.” E há inclusive fortes indícios de subnotificação dos casos. O Relatório Anual de Feminicídios no Brasil 2025, feito pelo Laboratório de Estudos de Feminicídios da Universidade Estadual de Londrina, registra 2.151 feminicídios no país no ano passado, superando em 39% os dados oficiais.

Para a advogada Mayra Cotta, é preciso pensar políticas públicas para além do simples cumprimento da lei, fornecendo algum tipo de acompanhamento e educação para os agressores, em certos casos, assim como medidas de suporte à emancipação financeira das vítimas. “Alguns países reduziram o feminicídio com políticas de crédito e autonomia financeira para as mulheres. Porque, de fato, a gente vê a violência sendo interrompida quando existem condições materiais para que elas saiam dessa situação”, avalia.

Chakian concorda que o acesso à educação, à saúde e à redução das desigualdades garante meios para que essas mulheres saiam de relacionamentos violentos e abusivos. A promotora também enxerga a importância de trabalhar com inteligência na segurança pública, investindo de forma prioritária em territórios de vulnerabilidade social e econômica, em geral abandonados pelo Estado, mas onde essas mortes costumam acontecer de maneira mais intensa.

Alguns países reduziram o feminicídio com políticas de crédito e autonomia financeira para as mulheres

Outro ponto central é a necessidade de serviços sociais e de uma política habitacional que atenda essa vítima depois que ela busca a Justiça, acrescenta Chakian. “Ela não vai chamar a política se tiver que ir para a rua com três filhos sem ter como sustentar.”

Além das manifestações contra o feminicídio que reuniram milhares de pessoas pelas ruas brasileiras em dezembro, organizações feministas e sociais organizam para 8 de março, Dia Internacional da Mulher, o movimento 8M, com a realização de atos em diversas cidades do Brasil. Rachel Ripani, do Levante Mulheres Vivas, valoriza o fato de serem ações não encabeçadas por partidos ou apenas por mulheres, mas sim pela sociedade civil.

“É um movimento de todos, porque você não precisa ser feminista para saber que não é normal mulheres estarem morrendo como estão morrendo, que não é normal alguém se casar com uma criança de 12 anos, que não é normal rapazes combinarem o estupro coletivo de uma menina menor de idade.”

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