Vai faltar água?
Icone para abrir
Fernando Frazão/ABr

4

Conversas

Luana Pretto: “O saneamento básico ainda não é prioridade no Brasil”

Engenheira civil à frente do Instituto Trata Brasil explica por que o país investe menos da metade do necessário e como a crise climática pressiona o acesso à água e ao esgoto

Sarah Kelly 18 de Janeiro de 2026
Fernando Frazão/ABr

Luana Pretto: “O saneamento básico ainda não é prioridade no Brasil”

Engenheira civil à frente do Instituto Trata Brasil explica por que o país investe menos da metade do necessário e como a crise climática pressiona o acesso à água e ao esgoto

Sarah Kelly 18 de Janeiro de 2026

Escovar os dentes, tomar banho, ferver alimentos, lavar roupas. Todas essas ações são cotidianas e podem parecer simples, mas representam uma dor de cabeça para pelo menos 34 milhões de brasileiros que não têm acesso à água tratada e para cerca de 90 milhões que vivem sem coleta e tratamento de esgoto. A razão para a persistência do problema está na falta de priorização, segundo Luana Pretto, presidente executiva do Instituto Trata Brasil, organização da sociedade civil dedicada à universalização do saneamento básico no país.

“O saneamento sempre foi visto a partir daquele velho ditado de que ‘obra enterrada não dá voto’ e, por conta dessa visão, muitas vezes compartilhada pelos governantes, investiu-se muito pouco”, diz a Gama.

Mestre em engenharia civil pela Universidade Federal de Santa Catarina, Pretto começou na Companhia Catarinense de Águas e Saneamento, como engenheira concursada. Passou pela gestão pública municipal em Joinville, foi diretora-presidente da Companhia Águas de Joinville e atuou no terceiro setor, na Associação Brasileira dos Fabricantes de Materiais para Saneamento.

Receba nossos melhores conteúdos por email

Inscreva-se nas nossas newsletters


Obrigada pelo interesse!

Encaminhamos um e-mail de confirmação

Hoje uma das principais vozes do saneamento básico no país, a especialista teve contato com o tema antes mesmo de saber o significado dessas duas palavrinhas: na infância nadava em uma lagoa sem tratamento de esgoto e convivia com problemas de saúde recorrentes.

 Divulgação

Na conversa com Gama, Luana Pretto afirma que, ao longo da trajetória profissional, viu de perto como a presença do saneamento básico é capaz de transformar a vida das pessoas — um impacto que também se reflete na economia: com a universalização do saneamento, o país poderia deixar de gastar cerca de R$ 25 bilhões com saúde pública até 2040 e ainda registrar um ganho de produtividade superior a R$ 400 bilhões.

Desde 2020, está em vigor o Marco Legal do Saneamento Básico, que estabelece a meta de atingir 99% da população com acesso à água tratada e 90% com coleta e tratamento de esgoto até 2033. Embora o marco tenha impulsionado o aumento dos investimentos no setor, os efeitos ainda não se refletem de forma ampla nos indicadores de cobertura.

“O grande desafio segue sendo a velocidade desses investimentos para que as metas possam ser cumpridas”, afirma na entrevista a seguir.

  • G |Mesmo sendo uma das maiores economias do mundo, o Brasil ainda tem 34 milhões de pessoas sem acesso à água tratada e mais de 90 milhões sem acesso à coleta e tratamento dos esgotos. O que explica esse atraso histórico no país?

    Luana Pretto |

    Esse atraso histórico vem de muita negligência ao longo dos anos. O saneamento sempre foi visto a partir daquele velho ditado de que “obra enterrada não dá voto” e, por conta dessa visão — muitas vezes compartilhada pelos governantes —, investiu-se muito pouco. Nunca foi encarado como um ativo político, como algo capaz de mudar a vida das pessoas, trazer saúde e qualidade de vida, melhorar a educação e a renda, além de promover o desenvolvimento econômico e social. Por isso, ao longo de muitos anos, acabou-se investindo muito menos do que o necessário. O investimento se traduz em obras que, por sua vez, se refletem em um maior percentual da população com acesso aos serviços de saneamento básico. Agora, com o Marco Legal do Saneamento Básico, foi estabelecida uma meta, um objetivo comum, e vemos muito mais movimento.

  • G |Os dados mostram diferenças profundas entre as regiões do país, com déficits concentrados sobretudo no Norte e no Nordeste. Como enfrentar essa desigualdade no acesso ao saneamento e por que ela acontece?

    LP |

    Sim, temos uma desigualdade muito grande. É uma desigualdade tanto regional, quando a gente olha os dados do saneamento no Norte e no Nordeste e compara com o Sudeste, quanto do ponto de vista dos CEPs. Quando falamos de um município, em geral são as áreas mais periféricas e a zona rural as últimas a receber o saneamento. É ali que o déficit aparece com mais força, inclusive nos grandes centros urbanos. Na região Norte, por exemplo, sempre existiu a visão de que a água pode ser encontrada no rio ou de que um poço pode garantir esse recurso dentro dos padrões de potabilidade.

  • G |E quais as consequências da população buscar a sua própria água?

    LP |

    As companhias de saneamento acabaram sendo muito ineficientes e a cultura popular passou a entender que era melhor cavar um poço e consumir aquela água do que depender de um serviço que não garantia qualidade nem fornecimento 24 horas por dia. O problema é que a gente vê uma contaminação cruzada muito grande nos poços, com presença de coliformes fecais e um índice mais alto de doenças diarreicas justamente por causa do uso de água fora dos padrões de potabilidade. Isso prejudica muito o desenvolvimento da população. Então, acho que a resposta passa, principalmente, por investimento. A região Norte ainda é a que recebe menos recursos: hoje, o investimento é de cerca de R$ 66 por habitante ao ano, enquanto a média do Brasil é de R$ 126, e o ideal seria algo em torno de R$ 223 por habitante ao ano. Esse baixo investimento vem dessa falta de priorização e, como consequência, o percentual de acesso ao saneamento básico continua sendo muito pequeno.

  • G |No dia a dia, o que muda na rotina de uma família que não tem água tratada ou esgoto em casa? Qual é o perfil dessas pessoas?

    LP |

    Estamos falando de pessoas majoritariamente pretas, pardas e indígenas, em geral jovens de até 20 anos, com ensino fundamental incompleto e cuja renda familiar não ultrapassa R$ 2.400. Essas pessoas acabam enfrentando muito mais dificuldades no dia a dia, muitas vezes precisando buscar água longe de casa, perdendo tempo nesse deslocamento, carregando baldes e barris, ou então captando água de poços, tendo que ferver essa água e manejar com muito cuidado o consumo. Em muitos casos, elas não têm sequer a possibilidade de um banho adequado. Isso acaba trazendo uma série de doenças, como dengue, esquistossomose, leptospirose e diarreia, o que prejudica as possibilidades futuras de desenvolvimento dessas pessoas.

  • G |Além dos impactos na saúde e na dignidade, que efeitos a falta de saneamento provoca na economia e nos gastos públicos, especialmente na área da saúde?

    LP |

    O primeiro ponto é a saúde. O Brasil teve mais de 200 mil internações por doenças associadas à falta de saneamento, e a gente vê que isso traz mortes, principalmente entre crianças e idosos. Há um gasto público de mais de R$ 170 milhões em um único ano, por exemplo, apenas com internações relacionadas à falta de saneamento. Num outro cenário, a gente poderia estar deixando de gastar cerca de R$ 25 bilhões no Brasil até 2040. Além disso, poderia haver um ganho de produtividade da população de mais de R$ 400 bilhões. Isso acontece porque, ficando menos doente, a pessoa consegue ser mais produtiva, seja no trabalho formal ou ainda no informal.

  • G |Passados cinco anos da entrada em vigor do Marco Legal do Saneamento, o que mudou de forma concreta no setor e o que ainda permanece como desafio?

    LP |

    O Brasil aprovou o Marco Legal do Saneamento Básico em 2020, com a meta de atingir 99% da população com acesso à água tratada e 90% com coleta e tratamento de esgoto até 2033. Esse marco impulsionou uma movimentação importante no setor, sobretudo no aumento do volume de investimentos, que de fato cresceu ao longo dos anos, embora ainda esteja aquém do necessário para garantir a universalização. Esse é um indicador-chave, porque o impacto do investimento no acesso ao serviço leva tempo para aparecer: existe o período de elaboração dos projetos, o licenciamento ambiental e a execução das obras até que os números mudem. Ainda assim, após a aprovação do marco legal, a gente observa um movimento forte dos estados na busca por parcerias público-privadas e concessões para alavancar esses investimentos, o que aponta para uma tendência de melhoria. O grande desafio segue sendo a velocidade desses investimentos para que as metas possam ser cumpridas.

  • G |Diante do avanço das mudanças climáticas, com eventos extremos mais frequentes, como o desafio do saneamento se transforma no Brasil?

    LP |

    Quando a gente fala de mudanças climáticas, a gestão da água e do saneamento básico se torna ainda mais central. Ao relacionar abastecimento de água, coleta e tratamento de esgoto com secas, tempestades e ondas de calor, fica claro que esses eventos climáticos extremos têm um impacto direto na vida da população, sobretudo quando não existe saneamento adequado. No caso das secas, por exemplo, há uma diminuição do volume médio dos rios, o que dificulta garantir água 24 horas por dia se não houver medidas de adaptação. Já nas tempestades, quando não há coleta e tratamento de esgoto, é comum ocorrerem inundações com a mistura de esgoto bruto e água da chuva. Isso aumenta a incidência de doenças associadas à falta de saneamento, como leptospirose, esquistossomose e diarreia, além de contaminar rios, mares e expor diretamente a população a esses patógenos. As ondas de calor também agravam o problema, porque elevam a demanda por água e, ao mesmo tempo, aumentam a evapotranspiração, reduzindo o volume disponível nos rios. É fundamental pensar o saneamento básico como uma estratégia de adaptação aos eventos climáticos extremos.

  • G |Esse tema tem ganhado espaço dentro do debate climático em conferências como a COP 30?

    LP |

    Na COP30, um dos temas foi a água. Com o aumento da temperatura do planeta e a maior frequência desses eventos extremos, a água passa a ocupar um lugar estratégico, o que reforça a necessidade de medidas de adaptação para garantir a resiliência hídrica e assegurar água, em quantidade e qualidade, para todos os setores da economia.

  • G |Nesse cenário de crise climática, o Brasil desperdiça o equivalente a 6 mil piscinas olímpicas de água tratada por dia, segundo o estudo do Trata Brasil. O que está por trás desse volume de perdas?

    LP |

    Infelizmente, o Brasil ainda perde cerca de 39,5% de todo o volume de água produzida. Isso significa que a gente capta água nos rios, trata essa água com produtos químicos, muitas vezes usa energia elétrica para bombeá-la até as cidades e acaba perdendo essa água ao longo do sistema de distribuição. São as perdas físicas, causadas por vazamentos — tanto os visíveis, que aparecem na superfície do pavimento, quanto os vazamentos ocultos, que podem ficar semanas ou meses debaixo do solo, comprometendo o abastecimento. Essas perdas físicas representam, em média, cerca de 60% do volume total perdido. Os outros 40% estão relacionados às perdas comerciais, que incluem ligações irregulares, os chamados “gatos”, além de erros de medição. Essas perdas têm um impacto ambiental, porque, especialmente num cenário de mudanças climáticas, a gente acaba captando muito mais água dos rios do que deveria. Há também um impacto econômico, já que existe um custo para tratar essa água que não chega ao consumidor, e essas perdas acabam sendo diluídas na tarifa. E existe ainda um prejuízo social, porque a má gestão do sistema de distribuição afeta principalmente as populações mais vulneráveis.

  • G |Considerando o alto desperdício de empresas, como a população civil pode fazer sua parte? Economizar água é suficiente?

    LP |

    Quando a gente pensa na conservação dos recursos hídricos e na busca pela resiliência hídrica, cada um precisa fazer a sua parte. É fundamental, sim, ter mais eficiência nos sistemas de distribuição e reduzir as perdas. Nós, como cidadãos, também precisamos cobrar essa eficiência, seja por meio de associações de moradores, dos vereadores ou de outros canais, exigindo uma melhor gestão. Mas dá para agir também dentro de casa, com o uso racional da água: reduzir o tempo de banho, evitar deixar o chuveiro ligado sem necessidade, lavar o carro com balde, escolher dias específicos para lavar roupa. Todas essas ações são importantes. Quando a gente está andando na rua, identifica um vazamento e comunica a companhia de saneamento, também está contribuindo para uma gestão melhor desse recurso essencial, que é a água.

  • G |No Podcast do Trata Brasil, vocês costumam fazer esta pergunta e eu gostaria de reproduzi-lá: qual é a sua primeira memória marcante com a água? E quando você percebeu que o saneamento se tornaria o foco da sua trajetória profissional?

    LP |

    Essa pergunta a gente faz sempre mesmo. A minha primeira memória marcante com a água está muito ligada à infância, na praia. Eu costumava passar o verão em uma praia de Santa Catarina e tomar banho em uma lagoa que havia ali. Infelizmente, a região não tinha coleta e tratamento de esgoto, e a lagoa onde a gente brincava era sempre muito poluída. Eu voltava com frequência com micose de pele, dor de barriga, diarreia ao longo daqueles dias. Na época, eu nunca associava isso à falta de saneamento básico. Para mim, era algo normal, e eu jamais imaginei que esse tema viria a ser o foco da minha carreira. Ao longo da minha vida profissional, eu fui concursada de uma companhia de saneamento e foi ali que me apaixonei pelo tema. Depois, também fui presidente de uma companhia de saneamento e passei a enxergar com mais clareza como a presença do saneamento básico tem uma capacidade enorme de mudar a vida das pessoas. Pensando em propósito, em por que eu estou aqui neste mundo, percebi que me dedicar a essa causa seria uma forma muito potente de contribuir para um mundo melhor — seja para os meus filhos, seja para a população de uma maneira geral.

  • G |Queria saber sobre as suas perspectivas para o futuro. A meta do Novo Marco Legal do Saneamento prevê a universalização do acesso à água e ao esgoto até 2033. No ritmo atual, esse prazo é factível?

    LP |

    Nós temos essa meta do Marco Legal do Saneamento Básico e, para avançar, um indicador muito importante de acompanhar é o volume de investimentos. Hoje, ele ainda está aquém do necessário para garantir a universalização. Também é importante lembrar que existe um tempo até que esse investimento se traduza em acesso na ponta: primeiro vem o projeto, depois o licenciamento ambiental e, em seguida, a execução das obras. Só depois disso é que os percentuais de acesso à água tratada e à coleta e tratamento de esgoto começam a mudar de forma mais visível. Então, eu diria que estamos no caminho, mas é fundamental acompanhar de perto o ritmo desse aumento dos investimentos. Em algumas regiões do Brasil, especialmente no Norte, se não houver uma mudança de postura e decisões mais firmes por parte de estados específicos, é muito difícil imaginar a universalização até 2033. Por outro lado, existem realidades em que essa meta já foi, inclusive, antecipada. [Curitiba, no Paraná, e Santo André, em São Paulo são alguns exemplos] Essas diferenças regionais acabam impactando diretamente a perspectiva de universalização no país.

Um assunto a cada sete dias