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Ilustração de Isabela Durão

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5 dicas

Como usar a inteligência artificial gastando menos água

Perguntas confusas, respostas longas, conversas desnecessárias e brincadeiras com imagens em chatbots têm um custo computacional e hídrico alto. Saiba como utilizar a IA generativa com menor impacto ambiental

Ana Elisa Faria 18 de Janeiro de 2026

Como usar a inteligência artificial gastando menos água

Ana Elisa Faria 18 de Janeiro de 2026
Ilustração de Isabela Durão

Perguntas confusas, respostas longas, conversas desnecessárias e brincadeiras com imagens em chatbots têm um custo computacional e hídrico alto. Saiba como utilizar a IA generativa com menor impacto ambiental

A cada perguntinha besta que você faz ao ChatGPT, ao Gemini, ao Perplexity ou a outros chatbots, parece que nada acontece além da resposta que surge rapidamente na tela. Só que, por trás dessa interação, um trabalho custoso e sem pausa acontece nos data centers dessas gigantes tecnológicas. Esses centros são instalações físicas que abrigam servidores e equipamentos de rede usados para processar, gerenciar e armazenar grandes volumes de dados digitais.

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E esse processamento tem um custo — material e ambiental. Servidores consomem eletricidade, geram calor e precisam ser resfriados para operar com estabilidade. Em muitas operações, o resfriamento usa água, além da que é utilizada para a produção da própria energia elétrica.

É aí que mora o problema. Uma pesquisa realizada pela Universidade da Califórnia sobre a “pegada hídrica” da inteligência artificial estimou que, entre 20 e 50 perguntas feitas às plataformas de IA podem evaporar cerca de meio litro de água potável. O número varia conforme a infraestrutura da empresa, mas ajuda a tornar visível o impacto causado ao meio ambiente.

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O efeito é multiplicador e global. Só o ChatGPT tem 800 milhões de usuários ativos por semana. Portanto, se todas essas pessoas logadas à ferramenta da OpenAI repetirem pequenas interações o dia inteiro, o gasto de água se torna incalculável. Isso não significa que devemos viver apartados das tecnologias — afinal, elas já fazem parte da nossa rotina e estão em muitos lugares e serviços —, mas, sim, que devem ser usadas com mais consciência e intenção.

Para fazermos usos tecnológicos mais verdes, Gama ouviu os especialistas em IA Nicole Grossmann, matemática e cofundadora da Enter, e Gil Giardelli, professor e apresentador do programa “O Impensável”, do UOL, que deram dicas práticas.

  • 1

    Faça perguntas curtas e diretas. E peça respostas concisas –
    Quanto mais objetivo é o pedido, menor a chance de você entrar em um ciclo de vaivéns e refações com a inteligência artificial. Essa tática reduz o volume de processamento do modelo. Uma forma simples de compreender isso é pensando em tokens, que são unidades informacionais usadas pelo sistema para processar, entender e gerar informações (textos, imagens, áudios) — cada token representa uma pequena parte do quebra-cabeça todo, podendo ser um pedaço de palavra, um caractere, símbolos e números. Mais tokens, em média, significam mais trabalho computacional. Assim, Nicole Grossmann sugere estabelecer limites logo no primeiro comando. “Você pode limitar o tamanho da resposta, o que reduz a quantidade de tokens. Outra dica é: se precisar de variações [de um título, por exemplo], peça poucas e já com regras de formato definidas, em vez de fazer a mesma pergunta em sequência”, explica. O professor Gil Giardelli segue na mesma direção. “Perguntas mais diretas e um prompt bem-feito vão desperdiçar menos energia e água porque a IA não vai precisar calcular tanto”, diz. Na prática, vale incluir instruções como “responda em até 120 palavras”, “liste cinco opções de frases”, “me dê uma versão final” e “não repita explicações”. Grossmann indica ainda não anexar um documento pesado completo se você não precisa que a íntegra dele seja analisada. “É melhor colar só o trecho relevante que necessita de avaliação do que enviar o PDF inteiro.”

  • 2

    Evite conversas bobas e brincadeirinhas com a máquina –
    Chatbots podem destravar um texto, organizar ideias e automatizar tarefas, mas, para algumas pessoas, esses assistentes virtuais viraram um passatempo — ou se tornaram uma espécie de amigo e até um “psicólogo” virual. “Pesquisas mostram que os mais jovens usam a IA como se ela fosse uma grande amiga, pedem conselhos, perguntam com qual roupa devem ir a um encontro. Não tem problema usar dessa forma, mas é necessário saber que essas trocas longas geram muita pegada ambiental”, alerta Giardelli. Há ainda quem fique brincando com a inteligência artificial para fazer montagens e imaginar pessoas em cenários diferentes apenas por diversão, para ver como fica. Porém, de acordo com Grossmann, “a geração de imagens ou vídeos costuma ser bem mais pesada do que um texto”. Em uma reportagem do jornal The Washington Post, Vijay Gadepally, cientista sênior do MIT Lincoln Laboratory, que estuda maneiras de tornar a IA mais sustentável, comentou que não precisamos ser simpáticos com os bots porque eles não ligam para formalidades. “As pessoas costumam confundir essas coisas com algum tipo de senciência”, fala. “Você não precisa dizer ‘por favor’ e ‘obrigado’. Está tudo bem. Eles não se importam.”

  • 3

    Prefira buscadores tradicionais para pesquisas simples –
    Nem toda dúvida precisa ser sanada por uma inteligência artificial generativa. Para checar o horário de funcionamento de um restaurante, rever um conceito simples, encontrar uma referência ou a data de um acontecimento histórico, a busca tradicional — o bom e velho Google ou o buscador da sua preferência — costuma ser mais eficiente, e sustentável, do que um comando no Gemini e afins. Uma “googada” consome aproximadamente dez vezes menos energia do que uma consulta no ChatGPT, segundo uma análise publicada em 2024 pelo banco de investimentos Goldman Sachs — valor que pode diminuir à medida que o Google torna as respostas de IA parte maior da pesquisa. Mas, por enquanto, o usuário pode evitar os resumos gerados pela IA escolhendo a guia de pesquisa “web”, uma das opções como imagens e notícias. “Se você tiver um problema mais complexo, especialmente um que envolva resumos, revisões ou traduções de texto, então vale a pena usar um chatbot de IA”, recomenda Gudrun Socher, professora de ciência da computação na Universidade de Ciências Aplicadas de Munique, em entrevista ao The Washington Post.

  • 4

    Escolha modelos básicos para pedidos triviais e fuja do modo “pesado” sem necessidade –
    Muitas plataformas oferecem mais de um modelo para responder às questões dos usuários. Aqui, pense em modelos como motores diferentes dentro do mesmo carro: alguns são mais potentes e conseguem lidar melhor com tarefas complexas, como sínteses difíceis, textos longos, comparações com dezenas de variáveis e planejamentos; já outros são mais simples e dão conta de pedidos cotidianos, como revisar um parágrafo, sugerir títulos, organizar uma lista ou resumir um pequeno fragmento. Além do modelo, há os modos de resposta. Em determinadas ferramentas, isso aparece como um botão ou uma configuração que faz a IA “pensar” mais antes de responder, com mais etapas de processamento. O resultado pode vir mais elaborado, mas o gasto energético também tende a subir. “Se você deixar no modo thinking do ChatGPT, por vezes, até uma pergunta óbvia pode acabar tendo um custo computacional excessivo”, analisa a matemática Nicole Grossmann. Por isso, a indicação é escolher o básico quando o pedido for simples e reservar o modelo mais robusto ou o modo de raciocínio mais detalhado para situações em que essa potência realmente faz diferença. Grossmann ressalta que quase nenhuma empresa consegue dizer qual modelo é mais econômico em relação à água. “O consumo de água depende muito de onde está o data center e como ele é resfriado”, diz. O que está ao alcance do usuário, portanto, é diminuir o volume de computação.

     

  • 5

    Use a IA quando ela realmente acrescenta, não para substituir o seu pensamento –
    A dica mais ecológica, no fim, é uma mudança de postura. Em vez de terceirizar tudo para a inteligência artificial generativa, vale refletir: Isso é mesmo indispensável? Eu já sei o que quero desenvolver? Consigo fazer essa tarefa de outra forma? Se a resposta for sim para as alternativas, você economiza tempo, energia e água. Se a resposta for não, use a ferramenta, mas com intenção. “As pessoas têm de usar a IA não para substituir o pensamento, mas para organizar as ideias”, defende Gil Giardelli. “A ideia humana tem que sempre vir na frente.”

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