Vai faltar água?
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Fotos: Manuella Luana/AFP e Paulo Pinto/Abr. Edição: Isabela Durão.

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Reportagem

Como as mudanças climáticas afetam a água das cidades

Ignorado na grande maioria das COPs, saneamento básico vem ganhando força na agenda do clima e foi um dos destaques da COP30

Leonardo Neiva 18 de Janeiro de 2026

Como as mudanças climáticas afetam a água das cidades

Leonardo Neiva 18 de Janeiro de 2026
Fotos: Manuella Luana/AFP e Paulo Pinto/Abr. Edição: Isabela Durão.

Ignorado na grande maioria das COPs, saneamento básico vem ganhando força na agenda do clima e foi um dos destaques da COP30

Na COP30, o tema da água e do saneamento básico fazia parte do cenário geral bem antes da Conferência do Clima começar oficialmente. Além dos preços altos e da dificuldade para acomodar as delegações vindas do mundo inteiro, a cidade de Belém também deixou visível aos visitantes uma realidade nada positiva. A capital paraense figurou em 2025 entre os dez piores municípios do Brasil em saneamento básico, de acordo com o ranking do Instituto Trata Brasil (ITB).

Segundo relatório da organização, a cidade tem um dos piores indicadores de coleta de esgoto do país e a segunda maior perda na distribuição de água para a população. Os dados da pesquisa também apontam a intensa desigualdade regional no acesso à água e ao esgoto no Brasil, com a parte mais baixa do ranking ocupada em sua maioria por municípios das regiões Norte e Nordeste.

Mas não foi só porque muitos desses problemas se tornaram evidentes para quem participou da última COP que especialistas hoje consideram o saneamento um ponto central no debate global sobre as mudanças climáticas. Adaptação acabou sendo uma das palavras-chave da última Conferência, e estudiosos defendem que o abastecimento de água e a coleta e o tratamento de esgoto precisam estar entre os principais focos dessa pauta.

Adaptação acabou sendo uma das palavras-chave da última COP. O abastecimento de água e a coleta e o tratamento de esgoto precisam estar entre os principais focos dessa pauta

A engenheira e pesquisadora Monica Porto, diretora da ABES-SP (Associação Brasileira de Engenharia Ambiental e Sanitária – seção São Paulo), explica que o tema ganha destaque entre as ações de adaptação pelos efeitos da variação de chuvas causada pelas mudanças climáticas. No caso do saneamento, secas mais severas podem prejudicar o abastecimento de água da população, problema que algumas das grandes cidades brasileiras já vêm enfrentando.

“Mesmo que a gente avance na universalização do acesso à água e ao esgoto, passa a ter o problema adicional da segurança hídrica dos mananciais. Então, o que precisa ser feito para reduzir o risco de desabastecimento?”, questiona Porto, que é professora da Escola Politécnica da USP.

Um estudo do ITB em parceria com a empresa WayCarbon aponta como tempestades geradas pelas mudanças no clima podem sobrecarregar os sistemas de drenagem e tratamento de esgoto, provocando alagamentos, rompimento de tubulações e contaminação de fontes de água potável. Já ondas de calor têm potencial de reduzir o volume e ampliar a demanda por água e energia, além de um risco extra de contaminação dessas fontes hídricas.

Tempestades geradas pelas mudanças no clima podem sobrecarregar os sistemas de drenagem e tratamento de esgoto

“Quando a gente fala de um maior número de dias de seca, está falando da diminuição no volume médio dos rios e, consequentemente, uma maior dificuldade de garantir água 24 horas por dia se não tiver nenhuma medida de adaptação”, explica a CEO do ITB, Luana Siewert Pretto. Uma possibilidade não tão distante nem mesmo em grandes metrópoles. São Paulo hoje vive uma crise hídrica, com o sistema Cantareira, que atende a região, em nível crítico há mais de uma semana.

Não à toa, a ABES lançou em maio de 2025 a plataforma colaborativa Todos Pelo Saneamento, para motivar debates sobre o tema e mobilizar desde cedo o setor a ocupar espaço central na COP30. No ano passado, o evento também contou com o espaço Casa do Saneamento, desenvolvido pela Fundação Nacional de Saúde (Funasa), reunindo estudiosos, autoridades do governo e entidades em debates sobre o assunto. O próprio governo federal procurou enfatizar no evento o papel do setor como política de adaptação e justiça socioambiental, reforçando o compromisso com o novo Marco Legal do Saneamento sancionado em 2020, que estabelece como meta a universalização dos serviços de água e esgoto até 2033.

Quando a gente pensa no clima, o cidadão, o ser humano precisa estar no centro

Ainda assim, as discussões sobre água e saneamento básico que pontuaram a COP30 não se refletiram no documento final da Conferência, onde essas palavras nem sequer foram citadas. Também não houve menções diretas à mitigação dos efeitos de eventos extremos como secas ou precipitações elevadas. A lacuna gerou preocupação em alguns representantes do setor, que se viram incluídos apenas de forma generalizada nos apelos por adaptações.

“É uma pena porque, quando a gente pensa no clima, o cidadão, o ser humano precisa estar no centro”, defende Pretto, do ITB. “E esse ser humano é impactado pelos eventos climáticos extremos e também pela falta de saneamento básico.”

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O fantasma das COPs passadas

Mesmo com frustrações, como a omissão no texto final, especialistas consultados por Gama apontam como positiva a centralidade que o saneamento básico ganhou nas discussões ao longo da COP30, algo que não vinha acontecendo de forma tão intensa em edições anteriores.

“É muito recente esse surgimento nas COPs da discussão sobre adaptação, que sempre foi tratada à margem. Antes, as Conferências tinham um foco muito grande na redução da emissão de gases”, destaca Porto, da ABES-SP. De fato, a agenda de adaptação climática esteve no foco da delegação brasileira, cujo objetivo era alcançar no evento um consenso acerca de indicadores e metas globais. Os Indicadores de Belém acabaram saindo, mas com grandes divergências em questões como financiamento.

Apesar de o Fundo de Adaptação, para financiar projetos em países em desenvolvimento, ter sido criado lá na COP7, em 2001, ao longo das duas décadas seguintes o tema acabou relegado a um segundo plano na Conferência. Chegou a ser descrito como “primo pobre” das negociações climáticas por Jennifer Allan, do Earth Negotiations Bulletin, em 2023. A especialista fez referência aos objetivos supostamente claros e vendáveis do setor de mitigação comparados ao aspecto mais local da adaptação.

É muito recente esse surgimento nas COPs da discussão sobre adaptação, que sempre foi tratada à margem. Antes, as Conferências tinham um foco na redução da emissão de gases

Com os efeitos das mudanças climáticas batendo na porta e a necessidade mais evidente do que nunca de estabelecer planos de adaptação, o Brasil fez em Belém um grande esforço para jogar os holofotes sobre o tema. A meta era definir e avançar em tópicos do tema no Acordo de Paris que ainda permaneciam em aberto.

Mas não significa que não houveram avanços importantes em outras edições recentes.

A COP29 trouxe o Diálogo de Baku, plataforma multilateral reunindo os presidentes de diferentes COPs em torno da continuidade de ações climáticas voltadas à água. Foi inclusive um ponto em que o Brasil se apoiou para definir a agenda hídrica da última Conferência. Já a COP28, de Dubai, lançou outro marco importante: a partir dos debates do evento, que contou com um pavilhão especial para o tema, a água foi incluída como primeiro objetivo temático no Acordo sobre a Meta Global de Adaptação.

Nas COPs anteriores a essas, assuntos como a crise hídrica, secas e precipitações (chuvas) extremas chegaram a aparecer nas discussões, mas principalmente como um apelo para a inclusão do tema à política climática global, ainda com poucos desenvolvimentos práticos.

“As COPs começaram em 1995, mas só nos últimos quatro anos tivemos uma discussão mais séria sobre adaptação. Então, vem ganhando muita força, mas é algo que vem sendo discutido há relativamente pouco tempo”, Porto reforça.

O lugar do investimento

E o saneamento nem sempre é só um fator de adaptação. Se as alterações climáticas impactam serviços de distribuição de água e esgoto, a falta destes também traz efeitos negativos para o clima e o meio ambiente. O presidente da Associação dos Engenheiros da Sabesp (AESabesp), Agostinho Geraldes, lembra que uma infraestrutura deficiente de saneamento pode acabar contaminando cursos d’água como rios e mares e liberando gases poluentes que afetam o meio ambiente.

“Grandes precipitações também estressam o sistema de esgoto, causando vazamentos e contaminando o espaço urbano e o ambiente”, acrescenta. Numa parceria com a Associação Brasileira das Empresas Estaduais de Saneamento (Aesbe), a AESabesp lançou na COP um documento com diretrizes para auxiliar os prestadores de serviços no setor a adaptar sua atuação à agenda do clima.

Grandes precipitações estressam o sistema de esgoto, causando vazamentos e contaminando o espaço urbano e o ambiente

Segundo o presidente da associação, essas discussões na COP “foram favorecidas pelo momento singular do Brasil, que está focado na universalização do acesso ao saneamento em seu território até 2033”. Até por isso, diz Geraldes, houve debates tão ricos, com tantas organizações e autoridades presentes.

Luana Pretto, do ITB, bate na tecla do ser humano no centro de toda ação climática, o que torna a questão do saneamento ainda mais urgente. “Esses eventos acabam sendo muito mais impactantes na vida de quem mora em comunidades em situação de vulnerabilidade. Precisamos entender que, sem o básico, o ser humano não vai se desenvolver, ter uma saúde adequada ou qualidade de vida… e, para isso, o ambiente no qual ele está inserido precisa ser conservado, o que depende do acesso à água tratada e da coleta e tratamento de esgoto”, afirma a CEO da instituição.

Na visão de Monica Porto, da ABES-SP, o debate sobre investimentos é que vai dar a tônica nas conversas a respeito de água e saneamento daqui para frente. Afinal, ela diz, uma das principais soluções para a resiliência hídrica é construir barragens, o que demanda recursos consideráveis. Mas também há outras estratégias que demandam recursos, como obras para captar a água de reservatórios alternativos em caso de necessidade, algo que já vem sendo feito numa cidade como São Paulo.

“Por isso é tão importante quando se discute na COP o financiamento. [Em São Paulo], se investiu 600 milhões de reais numa obra que só vai ser usada quando tiver uma seca. O resto do tempo ela fica lá quieta”, aponta a engenheira. Entre as opções que entram nesse escopo de adaptação, estão desenvolver sistemas de abastecimento flexíveis, criar campanhas de conscientização popular e investir em técnicas de redução de perda em todo o sistema.

Embora o Brasil ainda enfrente graves desafios na sua caminhada rumo à universalização do saneamento, Porto acredita que o país tem potencial para dar exemplo no futuro e trazer mais visibilidade a esse debate, que, daqui para frente, só deve crescer dentro das discussões climáticas globais.

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