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Carlos Zárrate

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Conversas

Pilar Quintana: "De fora, não somos vistas como escritoras, mas escritoras latino-americanas"

Destaque da Feira do Livro, autora de “A Cachorra” fala do olhar estrangeiro sobre cultura latino-americana e reforça sua busca pelo animalesco no ser humano

Leonardo Neiva 31 de Maio de 2026

Pilar Quintana: “De fora, não somos vistas como escritoras, mas escritoras latino-americanas”

Leonardo Neiva 31 de Maio de 2026
Carlos Zárrate

Destaque da Feira do Livro, autora de “A Cachorra” fala do olhar estrangeiro sobre cultura latino-americana e reforça sua busca pelo animalesco no ser humano

Dos vários aspectos em comum entre as mulheres que protagonizam as obras da escritora colombiana Pilar Quintana, o que mais se destaca é a solidão. Uma solidão que pode ser literal, como no caso de Rosa, que em “Noite Negra” (Companhia das Letras, 2026) se vê sem o marido numa cabana afastada da civilização, ou mais interna, o que acontece com a jovem Claudia, de “Os Abismos” (Intrínseca, 2022), confrontada com seus piores medos após uma ruptura na família. Assim como em “A Cachorra” (idem, 2020), até hoje seu romance mais conhecido, é também uma solidão profundamente feminina, gerada por séculos de imposições e silenciamento que ecoam ainda hoje — em especial, na vivência das mulheres latino-americanas.

Apesar das características locais de suas histórias, boa parte delas desenvolvida em cenários da selva costeira colombiana, não é difícil entender por que as obras de Quintana, um dos principais destaques desta Feira do Livro, encontram leitores praticamente no mundo todo. E também por que “A Cachorra” se tornou um fenômeno global, finalista do National Book Award nos EUA e agora adaptado para o cinema, numa coprodução internacional entre Brasil e Chile. Todas as suas narrativas trazem temas urgentes e universais, como as limitações sofridas pelas mulheres até os dias de hoje e a pressão onipresente pela maternidade.

A autora conta que foi a maternidade justamente um dos principais pontos que transformaram sua forma de escrever. Ela percebeu no momento em que se tornou mãe, após os 40 anos, que era nessa vivência, e não no prazer sexual, que os instintos selvagens afloravam de forma mais completa. “Foi o desejo de ter um filho, a experiência desse desejo irracional, carregá-lo no meu ventre, dar à luz, nutri-lo com meu corpo e amá-lo com um amor primal que me fez perceber que não era no sexo, mas na maternidade, que éramos mais animalescos”, revela em entrevista a Gama.

Quintana fecha a programação do primeiro domingo (31) da Feira do Livro, onde lança seu “Noite Negra”, com tradução de Elisa Menezes — leia um trecho aqui — num papo com o escritor Joca Reiners Terron, a partir das 18h no Palco da Praça. A autora afirma que o fato de ter uma imaginação limitada é o que faz com que suas personagens passem por experiências semelhantes às que ela mesma enfrentou na pele.

Além de ter iniciado a escrita de “A Cachorra” no período pós-parto, ela enfrentou uma experiência praticamente idêntica à da protagonista de “Noite Negra”: mudou-se com o marido para uma cabana à beira-mar, onde precisou se virar sozinha por três meses enquanto ele passava por uma cirurgia. A autora, entretanto, faz um apelo para que seus livros não sejam confundidos com obras autobiográficas. Apesar das semelhanças, ela reforça, nem a personalidade nem as circunstâncias vividas pelas personagens são comparáveis às suas.

Apesar da visibilidade que a cultura e a arte latinas vêm ganhando no mundo, Quintana considera que autoras latino-americanas ainda são vistas como um produto profundamente regional, com todos os estereótipos e preconceitos que seguem ligados a esta parte do continente através do olhar estrangeiro. Há cerca de cinco anos, encabeça a Biblioteca de Escritoras Colombianas, um importante trabalho de resgate de autoras que acabaram apagadas do cânone literário do país — segundo ela, formado majoritariamente por homens brancos.

A escritora chega no Brasil pouco tempo após a estreia em Cannes da adaptação para as telas do livro “A Cachorra”, que conta com Selton Mello no elenco. “Estou ansiosa para ver o filme”, confessa Quintana, que chegou a ler e aprovar o roteiro da uruguaia Inés Bortagaray, outra presença confirmada na Feira. Na terça (2/6) às 19h30, a autora conversa com a jornalista e crítica literária Gabriela Mayer na livraria Megafauna do Teatro Cultura Artística, em São Paulo, onde também fará uma sessão de autógrafos.

No bate-papo com Gama, Quintana aborda ainda a busca feminina por liberdade no passado e no presente, cita algumas de suas autoras latino-americanas favoritas e revela seu esforço para tirar suas personagens da civilização, como forma de “entender que tipo de animais somos”.

  • G |Quais as suas principais inspirações para “Noite Negra” e os temas que você explora no romance? São assuntos sobre os quais já vinha pensando há algum tempo?

    Pilar Quintana |

    Eu vivi nove anos na floresta tropical do Pacífico colombiano. Fui para lá com meu marido, e juntos construímos nossa própria casa, uma cabana de madeira em um penhasco com vista para o mar. Ele era irlandês. Certa vez, ele teve que sair porque precisava fazer uma cirurgia, e eu fiquei sozinha na casa, que era muito aberta, durante três meses. Sei que soa como o enredo de “Noite Negra”, mas juro que não é um romance autobiográfico; é ficção. As circunstâncias de Rosa são semelhantes às minhas, mas não são as minhas. E, embora compartilhemos anseios e medos em comum, somos muito diferentes: ela nasceu em 1941, eu nasci em 1972. Tivemos famílias, criações e ambientes muito distintos, há várias ideias que não compartilhamos e outras sobre as quais pensamos de maneiras contraditórias. A questão é que sou uma escritora com imaginação limitada e, para criar minhas histórias, uso o que tenho à mão: minha própria experiência e aquilo que conheço bem.

  • G | Embora a maternidade não seja central para a história como em alguns de seus livros recentes, a decisão da protagonista de não ter filhos parece parte de busca por liberdade. É esse sentimento que motiva boa parte das ações de Rosa?

    PQ |

    Com certeza. Fico muito feliz que você tenha percebido isso. Rosa é uma mulher libertada em muitos aspectos, se comparada às mulheres de sua geração. Em sua época, as mulheres podiam ir para a universidade, mas era mais desejável que se casassem e se dedicassem ao lar. Ela não se casou, não teve filhos, foi para a universidade e se tornou uma profissional dedicada e ambiciosa. Ela desafiou as normas e imposições sociais de sua época. É uma mulher forte.

  • G | O ponto de virada em “Noite Negra” ocorre quando o marido de Rosa sai por alguns dias. Aí, o que antes era liberdade se transforma em medo e violência. Existem ecos ancestrais e familiares em todas essas ameaças que a personagem sofre?

    PQ |

    Existem sim. Essa mulher poderosa, que fez o que quis na vida, que é quem tem o dinheiro e sustenta a casa, que vai para a selva, empunha um facão e enfrenta a natureza, de repente, assim que o marido sai, se vê pequena e vulnerável. Não somos todos um pouco como ela? Estudamos, trabalhamos, damos à luz, criamos filhos… fazemos coisas incríveis, mas, no fim, permanecemos em um mundo que nos é hostil e que nos ameaça a cada instante.

  • G |Seus livros abordam restrições e expectativas que continuam a limitar as mulheres praticamente desde o nascimento. Qual a importância da maior visibilidade de autoras e narrativas femininas em evidenciar essas limitações?

    PQ |

    Acho que a representatividade é importante. O trabalho dos escritores é se colocar no lugar do outro, e não há problema em um autor homem criar personagens femininas. Os homens, no entanto, não viveram da mesma forma que as mulheres: não sofreram as mesmas imposições ou exclusões. Um homem pode imaginar como é ser mulher. Mas só uma mulher viveu a experiência feminina em primeira mão e pode realmente compreendê-la.

  • G |“A Cachorra”, que você começou a escrever logo após se tornar mãe, continua sendo um dos seus livros que mais ressoam com o público. De certa forma, é uma história que tem apelo global, independentemente do cenário em que acontece? Como sua experiência como mãe e também como filha influencia sua escrita?

    PQ |

    Quando comecei a publicar, no início dos anos 2000, era comum ouvir que a literatura era incompatível com a maternidade; que, se você quisesse ser escritora, teria que renunciar à maternidade. Isso só se aplicava às mulheres, é claro. Os homens conseguiam conciliar os dois papéis porque tinham uma esposa para cuidar da casa e dos filhos. Tive meu filho tarde, depois dos quarenta, e não só consegui ser mãe e escritora, como a experiência da maternidade foi fundamental para a minha escrita. Sempre me interessei pelo tema da animalidade. Antes de ter meu filho, explorei o desejo sexual nos meus livros. Para mim, parecia que, no sexo, despidos de roupas e máscaras, entregues ao desejo, nossos instintos afloravam por completo, nos comportávamos como animais puros. Foi o desejo de ter um filho, a experiência desse desejo irracional, carregá-lo no meu ventre, dar à luz, nutri-lo com meu corpo e amá-lo com um amor primal que me fez perceber que não era no sexo, mas na maternidade, que éramos mais animalescos. A maternidade, como viver na selva, revelou o animal dentro de mim. Conheci minha escuridão: meus medos mais profundos, minha maior vulnerabilidade, minha fúria mais absoluta… em resumo, minhas emoções mais cruas e primordiais.

  • G |A floresta colombiana é uma presença constante em suas obras, a ponto de se tornar quase um personagem. Por que ambientar suas histórias nesses locais específicos?

    PQ |

    Porque me interessa explorar nossa animalidade, tiro meus personagens da cidade e os coloco no coração da natureza, sem conforto ou privilégios, enfrentando os elementos e lutando para sobreviver. Quero entender que tipo de animal somos quando nos despojamos das camadas da civilização. 

  • G |A Feira do Livro deste ano destaca a diversidade de vozes na literatura latino-americana contemporânea. Como você percebe os autores atuais da região? O que mais te chama a atenção?

    PQ |

    Coisas interessantes estão acontecendo na literatura latino-americana. Sem dúvida, as mulheres ocupam um lugar de destaque hoje. Há Mariana Enríquez, Selva Almada e Gabriela Cabezón Cámara na Argentina; Dahlia de la Cerda e Fernanda Melchor, no México; Ana Paula Maia, no Brasil; e Mónica Ojeda e María Fernanda Ampuero, no Equador, por exemplo. Alguns dos livros que me deslumbraram nos últimos anos são de escritoras latino-americanas desta geração. Penso em “Distância de Resgate” (Fósforo, 2024), de Samanta Schweblin, e “A Dimensão Desconhecida” (Moinhos, 2023), de Nona Fernández, dois dos meus favoritos.

  • G |Hoje, em meio a uma onda de interesse pela cultura latino-americana, dá para dizer que nossas obras ocupam lugar de destaque na literatura mundial? Houve uma mudança significativa em relação aos estereótipos que existem lá fora sobre a região?

    PQ |

    É difícil dizer. Acho que teremos uma perspectiva melhor com o tempo, e essa é uma análise que deve ser deixada para os acadêmicos. Mas acredito que, de fora, especialmente da Europa, continuamos a ser vistas de uma forma que nos exotiza. Para eles, não somos vistas apenas como escritoras, mas escritoras latino-americanas. Às vezes, tenho a impressão de que esperam encontrar em nossos livros o que eles acham que é a América Latina, e não necessariamente o que estamos dizendo de verdade.

  • G |Você está envolvida em um projeto para resgatar a obra de escritoras colombianas. Qual a importância de dar visibilidade a essas autoras que caíram no esquecimento, muitas vezes devido ao preconceito ou à misoginia? Existem muitas histórias como essas na América Latina?

    PQ |

    Nas escolas colombianas, até muito recentemente, os livros clássicos de autoras colombianas não eram lidos — e mesmo hoje são muito pouco lidos, bem menos do que o necessário. Nosso “cânone” era dominado por homens. Histórias escritas por homens, sobre homens ou contadas do ponto de vista de homens, quase todos mestizos, que na Colômbia significa brancos. Era uma tradição falsa que não levava em conta a diversidade do nosso país e da nossa literatura. Uma tradição literária não está completa sem livros de mulheres. Graças à Biblioteca de Escritoras Colombianas, projeto no qual trabalhei nos últimos cinco anos, conseguimos colocar em circulação livros escritos por grandes escritoras colombianas de todas as origens, livros que estavam fora de catálogo e injustamente esquecidos. Acredito que a exclusão e marginalização das escritoras tenha sido universal, mas na Colômbia foi especialmente forte, até mais do que em outros países latino-americanos, como Chile, Argentina, México ou Brasil, que souberam valorizar suas escritoras.

  • G |A adaptação cinematográfica de “A Cachorra” foi exibida recentemente em Cannes. Você participou do filme de alguma forma? O que sente ao ver essa história ser adaptada para as telas?

    PQ |

    Não participei do filme, nem o assisti. Li o roteiro, de Inés Bortagaray, e achei excelente, uma ótima adaptação. Estou ansiosa para ver o filme.

  • G |Hoje, você tem algum projeto em andamento? O que pode nos contar sobre seu futuro?

    PQ |

    Estou trabalhando em alguns contos que comecei a escrever há mais de dez anos. Também estou adaptando um ensaio que fiz para acompanhar a Biblioteca de Escritoras Colombianas, pois gostaria de apresentá-lo a um público mais amplo.

Produto

  • Noite Negra
  • Pilar Quintana (trad. Elisa Menezes)
  • Companhia das Letras
  • 208 páginas

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