Qual o papel das telas na educação?
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Conversas

Paulo Blikstein: "O professor dá atenção e cria pertencimento; isso um computador não faz"

Professor da Universidade de Columbia e especialista em tecnologia na educação defende restrição de celulares e aponta necessidade de uma inovação planejada em sala de aula

Leonardo Neiva 03 de Maio de 2026

Paulo Blikstein: “O professor dá atenção e cria pertencimento; isso um computador não faz”

Leonardo Neiva 03 de Maio de 2026

Professor da Universidade de Columbia e especialista em tecnologia na educação defende restrição de celulares e aponta necessidade de uma inovação planejada em sala de aula

“Uma biblioteca visual com muitos e muitos livros”. Assim o CEO do YouTube, Neal Mohan, defendeu o acesso de jovens ao imenso acervo da plataforma, além da suposta eficácia dos vídeos do site como ferramenta de ensino. Mas, na entrevista ao podcast The Interview, do New York Times, o executivo não soube dar uma resposta direta quando questionado sobre o impacto da plataforma nos índices de leitura dos jovens ou a dificuldade que os pais enfrentam para guiar e controlar o conteúdo que os filhos acessam online.

O debate conversa diretamente com a lei que proibiu o uso de celulares nas escolas de educação básica no Brasil, que completou um ano no início de 2026 com uma aparente melhora no ambiente escolar. A experiência internacional não fica muito distante da brasileira. Dezenas de países já adotam algum tipo de restrição ao uso dos aparelhos nas escolas — e a lista segue crescendo. A Suécia, tradicionalmente conhecida pela qualidade do ensino, retomou o lápis e o papel após uma queda nos níveis de compreensão de leitura num ambiente escolar digitalizado há mais de uma década. Então, a internet certamente contém uma infinidade de ferramentas educacionais importantes, mas o impacto do online no ensino, ao menos segundo especialistas no tema, hoje parece ser mais problemático do que enriquecedor.

Mas nesse contexto complexo, em que a presença da IA assume papel cada vez mais central, como fica o debate sobre o uso de telas e tecnologias na educação? Para o professor da Universidade de Columbia em Nova York, Paulo Blikstein, pesquisador e especialista em tecnologias para o ensino, é preciso primeiro traçar uma diferença importante entre o uso pessoal do celular por estudantes e a utilização planejada de tecnologias na sala de aula. “É importante regular o uso desse tipo de aparelho não porque é eletrônico, mas porque tem a propriedade de induzir ao vício. Tem muitas formas de usar o celular de maneira positiva, só que precisa estar inserido em um contexto pedagógico que faça sentido”, declara.

Apesar das comparações com a realidade internacional, a educação brasileira existe num contexto de intensa desigualdade, em que escolas privadas inteiramente digitalizadas convivem com colégios públicos que não contam nem com acesso básico à internet. Segundo Blikstein, em vez de esperar que o uso de tecnologias vai resolver todos os problemas da educação no Brasil, é preciso primeiro criar uma visão de longo prazo para o setor e investir numa carência histórica do ensino no país: a formação e valorização de professores e gestores escolares. “A educação é 90% contato humano. Se esse contato não tem qualidade, a educação não tem qualidade.”

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Um ponto central desse cálculo é a preparação de professores para integrar a tecnologia ao ensino no dia a dia da sala de aula. E isso numa realidade ainda repleta de precarizações, desde os baixos salários até uma infraestrutura inadequada. “O professor e a professora brasileira, considerando as condições de trabalho, são grandes heróis nacionais. A gente deve valorizar e celebrar esses heróis”, defende o pesquisador. O interesse pela área, aliás, vem decaindo de forma constante, a ponto de o país correr o risco de sofrer um déficit de professores até 2040, segundo estudo do Semesp (Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo).

Com especialização em novas tecnologias para a educação pelo MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), Blikstein é formado originalmente em engenharia. Hoje, ele é também diretor do Lemann Center for Brazilian Studies em Columbia, onde fundou a Iniciativa Paulo Freire, em homenagem ao legado do educador — o próprio Blikstein chegou a estudar numa escola com metodologia freiriana. Logo no início de sua trajetória, foi premiado pela Fundação Nacional das Ciências e pela Associação Americana de Pesquisa Educacional, por sua pesquisa envolvendo ensino e tecnologia.

No papo com Gama, o professor avalia o equilíbrio necessário entre telas e livros em sala de aula, a importância da presença do docente para alunos com dificuldades de aprendizado e os impasses criado pela IA, uma ferramenta focada em eficiência num ambiente em que a meta é a “ineficiência controlada”.

  • G |O Brasil completou um ano da lei que proíbe o uso de celulares por alunos em sala de aula. Até o momento, qual o saldo dessa restrição?

    Paulo Blikstein |

    A maioria dos estudos e observações apontam para uma melhora não necessariamente do desempenho acadêmico, mas da qualidade do ambiente de sala de aula e das escolas. Houve também, em alguns estudos, uma melhora no desempenho dos alunos decorrente dessa melhora no ambiente. Muitos professores de universidades e escolas de ensino básico têm reportado que dão aula para estudantes que ficam metade no celular, metade fazendo outras coisas. Como eu convivo muito com professores na universidade, ouço isso o tempo todo. Pelo que a gente sabe da ciência cognitiva, o cérebro humano é muito ruim de multitarefa. Estudos mostram que o ser humano não consegue fazer bem duas tarefas ao mesmo tempo. Quando eu pergunto para um jovem se ele está conseguindo fazer todas as tarefas, ele vai responder que sim. Mas, se você medir de fato, o desempenho é muito pior do que a pessoa pensa. E esse efeito acontece com jovens que estão entre o computador, o celular e a aula, achando que estão prestando atenção, mas na verdade não estão. Você está num ambiente educacional, onde tem que interagir com seus pares, fazer atividades.

  • G |O celular em si pode trazer impactos negativos, mas há também oportunidades interessantes para o ensino?

    PB |

    Hoje o celular é um terminal das redes sociais, todas desenhadas minuciosamente para ser viciantes e produzir engajamento, o que gera o lucro das empresas. Aí, o professor está lá tentando ensinar coisas complexas, enquanto a pessoa usa um aparelho desenhado para sugar toda a sua atenção com as coisas mais banais possíveis. Obviamente, isso não vai dar certo. É importante regular o uso desse tipo de aparelho não porque é eletrônico, mas porque tem a propriedade de induzir ao vício. Tem muitas formas de usar o celular de maneira positiva, só que precisa estar inserido em um contexto pedagógico que faça sentido. Hoje você pode fazer aulas de ciências ou de física usando os sensores do celular para experimentos: sensores de luz, de som, de aceleração nos três eixos x, y, z para calcular a aceleração da gravidade. Tem uma série de experimentos que você pode fazer com a câmera também, para fazer entrevistas, documentários, filmes, música… É um aparelho com um enorme potencial pedagógico, mas a aula tem que estar desenhada para o celular fazer sentido. O celular só como aparelho de comunicação, que fica na sua mão te distraindo, não faz nenhum sentido em um ambiente educacional.

  • G |As escolas da Suécia voltaram a adotar livros físicos por conta de uma queda nos índices de compreensão de leitura. É importante que haja um equilíbrio entre o digital e analógico nas escolas?

    PB |

    É importante ter um equilíbrio porque tem coisas que são melhores de aprender com mídias digitais e outras com mídia analógica. Quem desenha o currículo, os professores têm que saber operar essa diferença. Então, se você está numa aula de ciências onde precisa ver uma simulação, um modelo computacional ou criar gráficos, vai querer uma mídia digital. A mídia estática do papel não é muito boa para visualizar moléculas em 3D ou sólidos geométricos. Já a digital pode observar o corpo humano em 3D, percorrê-lo por dentro. Tem uma série de propriedades do digital muito boas para certas disciplinas e conteúdos. Em outros casos, até a lentidão da mídia analógica pode ser boa, como atividades colaborativas. Com uma mídia analógica, as pessoas podem trabalhar juntas na mesma superfície, fazer atividades na natureza, de investigação, etc. Estudos também mostram que a leitura no papel é melhor.

  • G |Então livros e cadernos físicos podem ser mais eficientes para o aprendizado?

    PB |

    Sim, existem áreas em que livros e cadernos físicos são mais eficientes. Então, quando você vai ler um texto comprido, denso, detalhado, e tem que fazer anotações, é sempre melhor no papel. Ou em atividades de brainstorming, em que um grupo está interagindo, colocando ideias na parede. Muitas vezes, a atividade se desenvolve melhor com uma mídia analógica.

  • G |A adoção de tecnologias deve ir além de entregar um tablet ou laptop para o aluno. O que é necessário para esse planejamento ocorrer de forma mais ampla e integrada no sistema educacional?

    PB |

    O fundamental não é o equipamento, e sim um desenho pedagógico bem feito. Numa aula de ciência, você deve ter o tablet ou o computador, mas também uma simulação científica bem feita naquele computador e uma atividade que utilize aquela simulação de forma apropriada no aprendizado. O que mais importa é o conteúdo gerado especificamente para aquela mídia, e esse conteúdo tem que fazer a diferença no aprendizado. Não pode ser só para inglês ver, usar realidade virtual porque é legal, mas sim com algo que a realidade virtual está contribuindo para o ensino daquela área.

  • G |A IA é vista como um problema para professores e gestores, com alunos usando para fazer tarefas de casa, trabalhos etc. É uma tecnologia que está transformando a forma de pensar o ensino atual?

    PB |

    A IA está criando um problema muito grave na educação porque ela acaba fazendo o trabalho pelos alunos, e eles mesmos não entendem como isso é prejudicial à sua formação. Os professores não têm como detectar isso [quando um trabalho é feito por IA], é muito difícil. Então a gente está em um impasse sobre o que fazer com a IA na educação. Ela tem aplicações positivas, claro, mas também uma questão muito grave: a IA não foi desenhada para o aprendizado. Ela foi desenhada para executar tarefas, para a eficiência. E, na escola, o que a gente precisa é de uma ineficiência controlada. Para aprender a escrever, você aprende devagar, começa errando. No começo, o aprendizado é sempre ineficiente nesse sentido. Se você escreve um prompt e cria uma redação de duas páginas em dez segundos, isso é eficiente, mas não é bom para o aprendizado.

  • G |Recentemente, o CEO do YouTube defendeu que o site é uma biblioteca digital para o aprendizado das novas gerações. Mas a maioria dos jovens não usa dessa forma. O que precisa acontecer para tornar real esse potencial do YouTube e de outras plataformas?

    PB |

    Eu acho que o YouTube e muitos outros conteúdos digitais são extremamente positivos para a aprendizagem. Mas o que a gente vê nas pesquisas é que quem se aproveita melhor desses materiais, usados muitas vezes de forma autodidata, são jovens que já são ótimos alunos. Então, eles melhoram ainda mais seu desempenho com esses conteúdos. Ao mesmo tempo, os alunos que mais têm dificuldade, por questões socioeconômicas ou de aprendizagem, também encontram dificuldade em aprender sozinhos na internet. Eles precisam do professor, de um ambiente saudável de sala de aula, de bons currículos, uma boa escola… Precisam estar cercados, num espaço apropriado para a aprendizagem, com um adulto ajudando o tempo todo. E essa é, na verdade, a condição de grande parte dos alunos Brasil afora. Por isso todos esses projetos de colocar aulas na internet nunca ajudaram a resolver os problemas educacionais do Brasil, e nunca vão ajudar. Eles vão ajudar, claro, os alunos que já têm um certo desempenho, que já conhecem a matéria. Esse é o problema crucial do YouTube, da aula digital e de todos esses ambientes.

  • G |A desigualdade social do Brasil, onde há um abismo entre escolas públicas e particulares, deve ser avaliada na hora de pensar o uso de tecnologia na educação? Muitas instituições públicas ainda não têm nem índices de conectividade adequados…

    PB |

    Por causa dessa desigualdade, a gente precisa ter muito cuidado com as tecnologias. Elas dão a impressão de que vão democratizar a educação, porque vai ter aula de graça e de alta qualidade para todo mundo na internet. Mas não é a falta de conteúdo online que causa os problemas que a gente tem na educação brasileira. É porque os alunos com mais necessidade de ajuda, que são em número muito grande no Brasil, precisam de um professor ajudando eles a aprenderem. Não só dando aula, mas diagnosticando essas dificuldades. O professor traz o estudante para o mundo do conhecimento, dá atenção e cria pertencimento. O professor tem estratégias para motivar o aluno. Isso um computador não pode fazer. Então, esse abismo que a gente tem no Brasil não vai diminuir com videoaula, mas com boas escolas, professores bem treinados e com currículos que usem a tecnologia de forma apropriada e útil. Eu não sou contra a tecnologia, sou contra achar que ela vai solucionar todos os problemas da educação brasileira. Não pode virar um oba-oba tecnológico, vamos fazer realidade virtual ou robótica só para mostrar, mas sem função pedagógica. Se você vai usar realidade virtual, tem que ser para a aprendizagem.

  • G |Em termos de infraestrutura e políticas públicas, o que é crucial para que o país se prepare de forma mais igualitária para esse uso na educação?

    PB |

    Não adianta achar que a tecnologia vai resolver, quando um terço das escolas nem tem acesso à internet. Em termos de infraestrutura e políticas públicas, a gente precisa primeiro de uma visão de longo prazo, porque educação é um projeto demorado. Em segundo lugar, foco nos recursos humanos que movem a educação. Ou seja, os professores, os diretores de escolas, as secretarias educacionais. Precisa focar na formação dessas pessoas, elas têm que estar sempre se atualizando profissionalmente, ganhando bem e com uma infraestrutura para que o professor tenha um bom exercício da profissão, porque a educação é 90% contato humano. Se esse contato não tem qualidade, a educação não tem qualidade. E, para isso, precisa pagar bem, ter plano de carreira e de formação.

  • G |Ainda há uma lacuna grande na formação e valorização dos professores? Qual o perfil de professor ideal para um ensino dos nossos tempos?

    PB |

    Formação é fundamental porque hoje os conteúdos, as técnicas de ensino e as tecnologias avançam muito rápido, e o professor tem que ser atualizado. A gente tem que prover tudo isso. É um projeto de longo prazo, caro e complexo. Mas, se as pessoas acham que a educação é cara, imagine o preço de não ter educação. O sistema educacional brasileiro é tão grande que a gente não pode dizer que só quer professor de um certo perfil. Precisamos de um número muito grande de profissionais, e não podemos substituí-los do dia para a noite, mas sim treiná-los para que conheçam as novas técnicas, novas tecnologias e o próprio conteúdo que têm que ensinar. O que acontece em muitos lugares, infelizmente, é que a formação do professor é deixada de lado ou feita online, de maneira insuficiente. Você não imaginaria um médico que tenha só meia hora de atualização profissional por mês, porque a medicina avança muito rápido. Devemos pensar da mesma forma para a educação. Ela é tão complexa quanto a saúde. É preciso muito mais intensidade e seriedade na formação dos nossos professores, que são um grande patrimônio no Brasil. O professor e a professora brasileira, considerando as condições de trabalho, são grandes heróis nacionais. A gente deve valorizar e celebrar esses heróis, porque é na educação que se constrói o Brasil do futuro.

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