Qual o papel das telas na educação?
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Reportagem

Celulares fora das escolas: um ano depois

Educadores e gestores relatam ganhos que vieram com a restrição aos smartphones no ambiente escolar, como mais foco nas aulas e interação entre estudantes, mas apontam desafios que a regra, sozinha, não resolve

Ana Elisa Faria 03 de Maio de 2026

Celulares fora das escolas: um ano depois

Ana Elisa Faria 03 de Maio de 2026

Educadores e gestores relatam ganhos que vieram com a restrição aos smartphones no ambiente escolar, como mais foco nas aulas e interação entre estudantes, mas apontam desafios que a regra, sozinha, não resolve

Na hora do recreio, a ausência do smartphone à mão mudou a paisagem. Muitos estudantes que antes passavam boa parte desse tempo sentados diante da própria tela, rolando um feed infinito sem olhar para o lado, voltaram a ocupar pátios, bancos e corredores com mais vida: há corre-corre, brincadeiras, jogos, risadas, rodas de conversa, esbarrões e aqueles pequenos atritos naturais do dia a dia estudantil.

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A descrição, feita por professores, orientadores e gestores de instituições públicas e particulares consultados pela Gama, resume uma das mudanças mais visíveis desde a entrada em vigor da Lei 15.100, sancionada em janeiro de 2025, que restringiu o uso de celulares e outros aparelhos eletrônicos portáteis no ambiente escolar da educação básica.

O aparelhinho que para muitos virou uma extensão do corpo não desapareceu da rotina de meninas e meninos que cursam os ensinos Fundamental e Médio. Ele continua ali para fins pedagógicos em certas ocasiões, mas hoje, dentro da escola, passa mais tempo na mochila, no armário ou guardado sob a responsabilidade da instituição.

Ao tirar o celular de cena, educadores perceberam ganhos relevantes: mais atenção em sala, mais interação entre colegas, docentes mais respaldados para limitar o uso e alunos menos capturados pelo estímulo constante das telas. Um levantamento da Frente Parlamentar Mista da Educação em parceria com o Equidade.info reforça essa percepção. De acordo com a pesquisa, 83% dos estudantes afirmaram estar mais atentos às aulas após a restrição.

Esse balanço de pouco mais de um ano, porém, está longe de caber em uma conclusão simplista. A mesma lei chegou a escolas com condições materiais e de pessoal muito diferentes. Em algumas, há armários individuais para abrigar os pertences dos alunos, inspetores, equipes de orientação e estrutura para recolher ou guardar os aparelhos. Em outras, o celular fica na mochila do estudante e há menos profissionais para acompanhar corredores, pátios e salas.

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A medida também revelou dificuldades que o telefone ajudava a esconder ou disfarçar: a ansiedade, a pouca tolerância ao tédio, os conflitos, a dependência de adolescentes mais velhos ao aparelho e a necessidade de envolver as famílias em uma discussão que não termina no portão.

Passado o primeiro impacto da legislação, a experiência relatada por profissionais da área mostra que a aplicação da regra vai além da fiscalização. Ela abriu um debate mais profundo sobre foco, autonomia, educação digital, saúde mental e convivência em tempos de hiperconexão, além de evidenciar a importância de envolver pais e responsáveis na conversa. Sem esse trabalho, o tempo de tela tende a se deslocar para fora dos muros da escola.

A aula menos interrompida

A queda no nível de dispersão durante as aulas aparece em escolas com perfis bem distintos. Marcus Vinícius Russo Loures, orientador educacional do Colégio Stocco, na cidade de Santo André, no Grande ABC, comenta que o celular sempre foi um “distrator poderoso” e lembra que, conforme estudos, basta uma olhada rápida para que o cérebro leve mais de 20 minutos para retomar a atenção plena.

“Em uma aula de 45 minutos, por exemplo, se o aluno der duas olhadinhas no smartphone, ele já perdeu o conteúdo inteiro”, afirma. Para Loures, retirar o aparelho do alcance imediato dos jovens não eliminou outras fontes de distração — conversas paralelas, piadinhas aqui e ali, rabiscos no caderno — mas reduziu a principal.

Na também particular Lourenço Castanho, no bairro de Vila Nova Conceição, zona sul de São Paulo, a coordenadora do Ensino Médio Daniela Coccaro fala que a escola já restringia o uso desde 2024, antes da lei, e foi endurecendo as regras à medida que os problemas se acumulavam.

Com a legislação federal, veio uma força maior para cumprir a meta. Os efeitos pedagógicos, diz ela, são inegáveis: melhora no foco e mais participação, além de respaldar a ação do professor. Coccaro revela que o balanço é positivo, mas nem tudo são flores porque, mesmo depois de todo esse tempo, ainda há resistência, sobretudo entre os estudantes mais velhos.

Na Escola Municipal de Ensino Fundamental Presidente Campos Salles, em Heliópolis, zona sul de São Paulo, a professora Renata Solanas Igual faz uma leitura mais cautelosa, justamente por lidar com outra estrutura e por trabalhar com educação digital. O celular fora da mão ajuda, mas não encerra o problema da atenção. “A gente não tem mais aquele rolar o feed infinito”, diz. Ao mesmo tempo, se a aula envolve computadores, a distração pode aparecer em outro formato. Para ela, a questão não é apenas retirar um aparelho, mas mediar o uso das tecnologias quando elas entram no processo de aprendizagem.

Mesma regra, menos estrutura

Renata Solanas Igual percebe ganhos com a restrição, mas também aponta limites na aplicação da lei. Formada em geografia, ela dá aulas de educação digital para turmas do 5º ao 9º ano e também na EJA (Educação de Jovens e Adultos). Na escola, não há armários para todos os estudante, e os celulares ficam nas mochilas, o que, segundo conta, dificulta o controle, principalmente entre os que cursam os anos finais — como também compartilhou Daniela Coccaro.

A docente diz que a regra funciona melhor até o 7º ano. No 8º e no 9º, alguns ainda tentam mexer no aparelho às escondidas. Mesmo assim, ela vê avanços. “Só de não estar com o celular na frente o tempo todo, rolando um feed infinito, já é algo positivo”, pondera.

O exemplo de Heliópolis explicita uma diferença relevante entre as redes. Em escolas particulares, a aplicação da lei muitas vezes aparece associada a armários, ao recolhimento organizado, a equipes de orientação, inspetores e comunicação frequente com famílias, além de atividades dirigidas nos intervalos. Nas públicas, a restrição acaba dependendo mais da negociação cotidiana do professor com a turma, da presença da gestão e de soluções possíveis dentro de uma infraestrutura mais limitada.

Essa dificuldade já aparecia lá em fevereiro de 2025, no início da vigência da lei, como mostrou uma reportagem da Gama sobre formas de manter os alunos longe dos celulares. Na Escola Estadual Prefeito Artur Ramos, em Jaciara, no Mato Grosso, o professor de matemática Janaíno Atahide relatou que o uso contínuo do celular em sala estava associado a uma queda no aprendizado, mas também descreveu o desafio de fazer a legislação funcionar sem um sistema claro de guarda dos aparelhos.

No mesmo texto, Heleno Araújo, presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação, chamava a atenção para um ponto estrutural. “A maioria das escolas públicas não tem estrutura para que o celular do aluno seja recolhido e guardado”, exemplificou e questionou: “Aí guarda na sala da diretoria, sem equipamento, sem segurança. Se um aparelho desaparece, quem vai ficar responsável por devolver?”.

O contraste não invalida os ganhos relatados pela escola pública de Heliópolis, por exemplo, mas impede que a experiência seja lida como se todas as instituições partissem do mesmo degrau. A Lei 15.100 vale para toda a educação básica. Sua aplicação, entretanto, depende de uma engrenagem que nem sempre está disponível na mesma medida: espaço físico, profissionais de apoio, canais de comunicação com famílias, formação docente continuada e alternativas pedagógicas para o tempo antes ocupado pelas telas.

Recreios cheios de vida

Fora da sala, a mudança talvez seja ainda mais visível — e audível. No Colégio Dante Alighieri, no Jardim Paulista, zona oeste de São Paulo, a diretora pedagógica Angela de Cillo Martins conta que anteriormente à lei os intervalos eram mais silenciosos e os estudantes viviam sentados, cada um no próprio aparelho, às vezes jogando entre si, mas sem interação presencial. Com os celulares guardados, essa rotina mudou: vieram atividades dirigidas, redes de vôlei, jogos de cartas e tabuleiro, pebolim e pingue-pongue.

Sabíamos que, no começo, o número de conflitos seria maior porque a meninada não tinha mais o hábito de se relacionar no recreio

O Dante também modificou o tempo do intervalo. Em vez de uma parada de 30 minutos, agora são duas de 20 minutos cada. A decisão levou em consideração a previsão de que, sem o smartphone, os conflitos poderiam aumentar no início. E aumentaram.

“Sabíamos que, no começo, o número de conflitos seria maior porque a meninada não tinha mais o hábito de se relacionar no recreio”, detalha. A escola, porém, não olhou para os atritos pelo lado ruim ou como falhas da medida. Esses desentendimentos entre colegas, antes corriqueiros, indicavam que a convivência estava sendo retomada.

Além dessas briguinhas, Martins relata a dificuldade de alguns alunos para circular em ambientes cheios. “Muitos não sabiam correr em espaços amplos com muita gente, como se o desenvolvimento motor global também tivesse sido afetado pelas horas diante da tela.”

Com o tempo, os intervalos ganharam outra cara. “Hoje nossos recreios são bonitos de ver”, avalia Martins. A biblioteca, cita, também passou a ser mais visitada pelos alunos, movimento que a direção do Dante Alighieri associa à retirada do celular dos momentos livres.

No Morumbi, região sul da capital paulista, ocorreu algo parecido no Colégio Miguel de Cervantes. A orientadora educacional do 6ª e do 7ª anos, Flávia Rodrigues, lista que os estudantes passaram a conversar e a brincar mais, a circular pela escola, a jogar e a interagir presencialmente. Os conflitos também apareceram ali com mais nitidez. Mas, para ela, até isso tem valor pedagógico: quando as relações deixam de ser mediadas pela tela, a escola consegue observar melhor as dinâmicas dos grupos e intervir quando necessário.

No Gracinha, instalado no Itaim Bibi, zona oeste de São Paulo, a percepção também foi de melhora nas relações. Segundo Sandra da Cunha Cirillo, coordenadora dos anos finais do Ensino Fundamental, as rusgas diminuíram, os vínculos entre os estudantes melhoraram e o ambiente escolar se tornou mais saudável. “Com a redução do uso dos celulares, os alunos voltaram a conviver, interagir de forma espontânea e a olhar uns nos olhos dos outros”, grifa.

Com a redução do uso dos celulares, os alunos voltaram a conviver, interagir de forma espontânea e a olhar uns nos olhos dos outros

A volta do tédio

Um dos efeitos mais apontados pelos educadores com a saída de cena do celular foi a redescoberta do tédio. Marcus Vinícius Russo Loures defende esses momentos como elementos formativos: convidam à criatividade, ao improviso, à invenção. “Basta deixar uma criança entediada com uma pedrinha, um pauzinho, um pedacinho de papel, que, daqui a pouco, ela está fazendo um barquinho, um aviãozinho.” Sua tese é que a geração atual foi educada para nunca estar sem estímulo, o que, mais do que o celular em si, revela um problema de fundo.

Flávia Rodrigues observa o mesmo fenômeno por outro ângulo. Parte dos estudantes reagiu com ansiedade — sinal, de acordo com ela, do quanto o dispositivo estava associado à necessidade de respostas imediatas e estímulos constantes. Assim, a escola precisou ajudar as crianças e os adolescentes a desenvolver tolerância à frustração e a encontrar outras formas de ocupar o tempo livre.

A orientadora do Miguel de Cervantes insiste que a limitação do uso do celular não pode ser vista apenas como regra ou proibição. Para funcionar, ela precisa ser explicada e acompanhada. Na avaliação da profissional, o maior ganho foi recolocar no centro da instituição o encontro, a convivência e a aprendizagem. Mas isso, pontua, exige um trabalho contínuo.

Sandra da Cunha Cirillo comenta que, no Gracinha, a adaptação abriu conversas semelhantes, com muitos estudantes reconhecendo os efeitos nocivos do excesso de tecnologia no cotidiano. Alguns chegaram a confessar que, mesmo com o celular guardado na mochila, continuavam pensando nele o tempo todo. A escola então passou a tratar essa percepção como ponto de partida para discutir dependência digital, atenção e comportamento.

Famílias dentro da conversa

A restrição também reorganizou a relação entre famílias e escola. Uma das justificativas mais frequentes que os pais utilizam para manter o smartphone com o estudante é a possibilidade de contato direto. Ao que as instituições passaram a reforçar que, durante o período escolar, urgências e necessidades devem passar pelos canais oficiais.

Daniela Coccaro fala que no Lourenço Castanho há conversas com as famílias em reuniões coletivas, atendimentos individuais e situações de reincidência — quando o aluno é pego usando o dispositivo. Para ela, os ganhos percebidos em sala precisam ser sustentados também fora da escola. O desafio aparece, por exemplo, quando os jovens tentam estudar em casa e são interrompidos por notificações. “É por isso que a gente precisa muito do apoio das famílias”, analisa.

Não adianta proibir o celular na escola se o menino passa a madrugada com a cara na tela

Professora da educação básica, mestre em linguística e autora do projeto Mulheres Inspiradoras, Gina Vieira considera a lei necessária, mas insuficiente. Aposentada, ela continua circulando por escolas do país realizando palestras e vê ganhos na retirada dos celulares, principalmente nos intervalos. Ao mesmo tempo, questiona se as instituições têm conseguido dialogar em profundidade com pais, mães e estudantes. “Proibição por si só não basta”, afirma.

Para Gina, a medida perde força se a escola restringe o aparelho durante o dia, mas a família não compreende a real necessidade da restrição. Nesse caso, a criança ou o adolescente pode compensar em casa o tempo em que ficou longe do telefone. “Não adianta proibir o celular na escola se o menino passa a madrugada com a cara na tela do celular.”

Tecnologia com propósito

A vivência da professora Renata Solanas Igual, em Heliópolis, também ajuda a salientar que tirar o smartphone da mão do estudante durante a rotina escolar não significa expulsar a tecnologia da escola. Na EMEF Presidente Campos Salles, a restrição ao celular convive com uma disciplina que trata justamente do uso das tecnologias.

Em projetos como o Imprensa Jovem, voltado para a educomunicação +, o aparelho é usado como ferramenta de produção, pesquisa e comunicação. “No programa, a gente continua utilizando como fim pedagógico”, explica. Fora desse contexto, o uso foi restringido, como nas demais instituições.

Nas aulas de educação digital, temas como fake news, redes sociais e jogos de azar online entram na rotina escolar. Com a EJA, o desafio ganha outras camadas. A turma reúne estudantes de 15 a 80 anos, e o uso pouco educativo do celular também aparece entre adultos. Conforme a professora, a discussão não se encerra quando o aparelho é guardado. Ela continua em perguntas mais concretas: em que condições a tecnologia entra na escola, com que mediação e para qual finalidade.

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