Qual o lugar das mulheres na política?
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Ilustração de Isabela Durão

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Reportagem

As mulheres negras evangélicas no centro da política brasileira

Disputado por ambos os lados do espectro político, grupo desafia estereótipos e foca em temas que vão da família ao combate à violência de gênero

Leonardo Neiva 16 de Agosto de 2026

As mulheres negras evangélicas no centro da política brasileira

Leonardo Neiva 16 de Agosto de 2026
Ilustração de Isabela Durão

Disputado por ambos os lados do espectro político, grupo desafia estereótipos e foca em temas que vão da família ao combate à violência de gênero

Nas últimas décadas, o número de evangélicos vem crescendo de forma constante no Brasil. Só entre 2010 e 2022, ele saltou de 21,6% para 26,9%, de acordo com o IBGE — ou seja, hoje mais de um a cada quatro brasileiros é evangélico. Ao mesmo tempo, em uma cidade como São Paulo, mulheres negras representam a maior base de frequentadores das igrejas evangélicas, segundo levantamento do Instituto Datafolha.

Esses dados ajudam a dar uma ideia da relevância das mulheres negras e evangélicas no país. Mas, para além disso, elas também estão posicionadas numa intersecção essencial para a polarização política que o Brasil vive atualmente. Se, por um lado, mulheres e a população negra, que compõem a maior parcela do eleitorado no país, estiveram entre os principais eleitores de Lula em 2022, segundo as pesquisas de intenção de voto, foi Bolsonaro quem liderou entre os evangélicos em geral.

Hoje, assim como gênero e raça, a religião é um ponto indissociável da política brasileira. “Entre 2020 e 2022, cerca de 10% das candidaturas mobilizaram algum tipo de identidade religiosa”, aponta a pesquisadora de raça, religião e eleições no Dara (Dados e Análises do Racismo e do Antirracismo), Maria Carolina Barreto. Doutoranda em ciência política pelo Iesp-Uerj (Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro), ela explica que mulheres negras e evangélicas estão no centro dos debates por existirem nesse cruzamento entre “religião, gênero, raça e classe”.

“As mulheres negras são a maioria nas religiões evangélicas, especialmente no segmento pentecostal, mas em outros também”, destaca a jornalista e cristã Luciana Petersen, criadora do movimento Novas Narrativas Evangélicas. “Nas igrejas de periferias e favelas do Brasil, são as mulheres negras que estão liderando e conduzindo as comunidades, porque uma liderança de igreja também é uma liderança comunitária.”

Filha de um pastor da igreja batista, Petersen hoje é pastora da comunidade Oásis, uma vertente evangélica progressista no Rio. Sua virada para um ponto de vista menos conservador dentro da religião, ela conta, veio justamente a partir da sua experiência como mulher negra numa igreja de periferia. “Não foi tão difícil, porque eu via problemas sociais muito perto de casa, população em situação de rua que a igreja acolhia e trabalhos sociais com os quais a gente era incentivado a se envolver.”

Muitos fatores explicam essa maior presença de mulheres negras entre os evangélicos, segundo a socióloga Maria das Dores Machado, professora titular aposentada da UFRJ e pesquisadora do tema. “Os segmentos negros em geral encontram-se nas classes mais pobres e de baixa escolaridade da população, público-alvo das igrejas pentecostais e neopentecostais. Essas igrejas estão localizadas em locais de fácil acesso, a maioria nas periferias, onde fazem cultos durante a semana e alguns durante o dia. Isso facilita a ida de mulheres que têm que trabalhar e cuidar da família“, explica a especialista. Além disso, acrescenta, as comunidades evangélicas oferecem um espaço social para os setores vulneráveis da população e cria uma rede de sociabilidade para muitas mulheres que enfrentam adversidades econômicas, conjugais e emocionais.

A versão 2026 da pesquisa “Mulheres evangélicas, política e cotidiano”, do Iser (Instituto de Estudos da Religião), obtida pela revista, traça um panorama desse cenário atual. A partir de uma amostra de 45 mulheres, dois terços delas negras, o levantamento detecta uma vantagem considerável para Bolsonaro — em 2022, 51% votaram no candidato do PL em algum dos turno, contra 20% em Lula.

Quando o foco vai para mulheres negras de forma ampla, o cenário se inverte. “Mulheres pretas, que já favoreciam o PT em 2018 (61% no fundamental), tornaram-se ainda mais fiéis em 2022 (80% no fundamental); esse é o segmento mais leal ao partido, independentemente da escolaridade. O fenômeno se estende a mulheres pardas, que também concentram maioria petista”, escreve o cientista político Jairo Nicolau no recém-lançado “O País Dividido” (Zahar, 2026), em que analisa as últimas duas décadas de eleições presidenciais no Brasil. Em entrevista a Gama, ele reforça que essa divisão por gênero e classe, inclusive, é relativamente recente na política brasileira.

Em temas considerados relevantes para a população evangélica, as tais “pautas de costumes”, há uma série de pontos que contrastam com o senso comum, aponta a antropóloga e pesquisadora Lívia Reis, coordenadora de religião e política no ISER e uma das organizadoras da pesquisa.

Segundo ela, boa parte das entrevistadas não é contra a educação sexual nas escolas, por exemplo. “Elas estão preocupadas em prevenir o abuso sexual, que muitas delas sofreram, e entendem que a casa nem sempre é um lugar seguro. Falar sobre isso na escola pode ser uma forma de prevenir”, conta. Muitas também afirmaram considerar pontos como a sexualidade e a religiosidade de forma menos conservadora, como escolhas exclusivas de cada um.

“Às vezes, essa mulher tem um vizinho que é de uma religião de matriz africana e que ajuda a cuidar dos filhos quando ela precisa. Então, ela não vai questionar a religião dessa pessoa. A gente vai vendo como esse conceito de livre-arbítrio permite que elas modulem suas formas de estar no mundo e de se relacionar com as pessoas”, explica a pesquisadora.

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Além da superfície

Para começo de conversa, devemos evitar reduzir a importância política das mulheres negras e evangélicas ao seu peso eleitoral, diz a teóloga e pedagoga evangélica Valéria Vilhena, fundadora do Movimento EIG (Evangélicas pela Igualdade de Gênero). “Elas são cidadãs, trabalhadoras, lideranças comunitárias, religiosas, mães, profissionais e sujeitos políticos que constroem suas próprias leituras sobre o país, com uma ancestralidade histórica de resistências”, afirma. Ao contrário do que vem acontecendo na lógica eleitoral, segundo a teóloga, a questão não deveria ser como conquistar o voto dessas mulheres, e sim como reconhecer sua autonomia e sua capacidade de participar da construção da democracia.

“A mulher negra evangélica não constitui um bloco homogêneo e não pode ser presumida como necessariamente conservadora, progressista ou suscetível à manipulação política”, acrescenta Vilhena. “Mulheres negras evangélicas precisam ser reconhecidas como sujeitos políticos, e não como território eleitoral a ser ocupado por projetos de poder.”

Primeira reverenda evangélica travesti da América Latina e cofundadora do EIG, Alexya Salvador também confronta a visão de que mulheres negras evangélicas seriam “conservadoras, submissas e facilmente influenciáveis pela liderança religiosa”. “A religião é importante, mas ela precisa estar articulada com a experiência cotidiana. É preciso parar de olhar para essas mulheres como um voto previsível e começar a enxergá-las como cidadãs que pensam e fazem suas próprias escolhas”, declara.

A pesquisa do Iser, por exemplo, não apresenta apenas preferências eleitorais. Ela aponta também as razões envolvidas nessas escolhas e, por consequência, os temas que movem muitas dessas mulheres no campo político e social. Para além de candidatos que estejam de acordo com os princípios cristãos, as entrevistadas afirmaram valorizar boas propostas, uma imagem que transmita honestidade e confiança, potencial empreendedor e identificação de classe, entre outros pontos.

“Antes dos valores ‘morais’, comida, remédios ou políticas públicas para os filhos e filhas permanecerem na escola podem ser o fator decisivo”, afirma a pastora evangélica e teóloga Eliad Dias dos Santos. Feminista negra e ativista, ela é uma das inúmeras mulheres que desafiam a visão muitas vezes simplificada com que essa parcela da população costuma ser retratada.

Barreto também reforça a importância da família nessa equação — mas não necessariamente na visão tradicional. “Não é só essa família de que os políticos conservadores falam, com papai, mamãe e filhinho. A gente também está falando de uma comunidade familiar e religiosa, uma ideia muito mais ampla do que os laços sanguíneos”, diz a pesquisadora do Dara.

De forma natural, acrescenta Barreto, muitas dessas preocupações acabam sendo atravessadas pelo debate sobre segurança, desde o combate ao crime até ações contra a violência de gênero. Afinal, muitas delas são moradoras das periferias brasileiras, onde esses temas continuam centrais. “Alcançar um emprego melhor para os filhos, a segurança financeira, proteção da violência. Essas mulheres estão o tempo inteiro produzindo e imaginando o futuro”, aponta a pesquisadora Lívia Reis.

“Viver é a principal pauta”, afirma Santos. “Não consigo imaginar a dor da mulher que ontem, no julgamento da morte de seu filho por policiais, viu os mesmos serem ‘absolvidos’. Todos os dias, essas mulheres choram pela perda dos filhos, a violência doméstica e o feminicídio. Somos a maioria das vítimas, mas muitas de nós, não têm o privilégio de ir às ruas se manifestar, porque estão voltando do trabalho ou em algum velório, isso quando não são as próprias vítimas.”

Uma questão de representação

Em seus vídeos nas redes sociais, que muitas vezes alcançam milhões de visualizações e milhares de comentários, Dona Maria faz críticas a uma série de medidas do governo Lula e a questões como o tarifaço imposto pelos EUA ao Brasil. Embora tenha a aparência de uma mulher negra de meia-idade, ela foi 100% criada por Inteligência Artificial.

A influenciadora Dona Maria, criada por inteligência artificial, atraiu milhões de visualizações com críticas ao governo federal  Reprodução/Instagram

Perfis como esse, que ganhou destaque no começo do ano entre críticos ao governo e apoiadores da direita, começaram a pipocar nas redes desde 2025, defendendo ou atacando ambos os lados da esfera política brasileira. Um levantamento do Observatório IA nas Eleições encontrou ao menos 18 avatares do tipo, 61% deles sem qualquer identificação avisando que foram criados digitalmente.

A estratégia escancara, por um lado, a busca de movimentos políticos por atingir uma parcela específica dos eleitores — em especial, as mulheres negras. Por outro, o uso de estratégias no mínimo duvidosas para fazê-lo. “O caso nos permite discutir algo mais amplo e muito importante: quem produz as representações sobre as mulheres negras, com que finalidade e para disputar qual imaginário social?”, questiona Vilhena. Para a representante do EIG, a IA acaba produzindo uma aparência enganosa de testemunho, experiência e autenticidade.

Segundo o cientista político Jairo Nicolau, o uso eleitoral da figura de dona Maria tinha um alvo muito claro e específico. “Quem fez, fez com muita argúcia, visando se comunicar com uma parte do Brasil que talvez seja a que mais rejeita o Bolsonaro”, afirma. E Bolsonaro, especificamente, ele explica, porque essa rejeição tem mais a ver com a figura do ex-presidente do que com a direita como um todo.

Mas Vilhena também acende um alerta sobre a legitimidade da disputa eleitoral que hoje vem sendo travado em torno dessas mulheres. “Há um caminho legítimo para dialogar com qualquer segmento religioso ou social: apresentar propostas, ouvir demandas, disputar ideias e respeitar a autonomia das pessoas. O caminho duvidoso começa quando se tenta fabricar uma identidade, explorar estereótipos ou instrumentalizar a fé, a raça e o gênero.”

Futuro político, futuras políticas

A pastora Eliad dos Santos é crítica à maneira como partidos de esquerda têm buscado se aproximar dos evangélicos em reuniões com lideranças religiosas. “A cada quatro anos, é a mesma coisa: escutar o que diz tal candidato e apoiar. Sabe quantas mulheres negras tem nessas reuniões? Dá para contar nos dedos. Na maioria das vezes, são pastores filiados ao partido, e falamos de nós para nós”, revela a ativista. Segundo ela, autoridades como as presidentes de sociedades de mulheres evangélicas, que são também muito influentes, raramente são convidadas para esses encontros.

Com o aumento do feminicídio no Brasil, o tema da violência doméstica, que tem mobilizado grupos de mulheres evangélicas, pode ganhar grande relevância política. “A preleção de uma pastora da Assembleia de Deus, a Helena Raquel, que viralizou nas redes no primeiro semestre, indica que o tema se tornou muito importante para mobilizar as mulheres e atrair novos fiéis”, afirma a socióloga Maria das Dores Machado. Em uma disputa apertada como a atual, as mulheres, que são a maioria do eleitorado, acabam ganhando destaque na campanha dos principais candidatos à Presidência, diz a pesquisadora. “Contudo, nenhum deles escolheu uma mulher para compor sua chapa. O que pode favorecer o PT junto ao público feminino mais pobres são os programas sociais como o Bolsa Família etc.”

Mesmo que a campanha eleitoral deste ano seja novamente marcada por acenos de ambos os lados tanto para os evangélicos quanto para as mulheres negras, Nicolau não enxerga grandes possibilidades de mudança na comparação com o último pleito — o que deve ser uma pedra no sapato do atual presidente. “Não quer dizer que não possa se reverter, mas parece que os evangélicos foram para a direita, seja em termos de preferência ou por ter candidatos mais alinhados com eles. E isso vai ser um desafio danado para o Lula, porque eles representam 30% do eleitorado”, avalia o especialista.

“A mulher negra evangélica é vista pela esquerda apenas como alguém que precisa ser ‘conscientizada’; pela direita, como um eleitorado naturalmente conservador a ser mobilizado”, aponta Vilhena, do EIG. Nos dois casos, há um problema claro: “a mulher desaparece como sujeito autônomo.” A especialista também critica a visão corrente de que alguém que professa a fé cristã não pode ser ativista dos direitos das mulheres. “É possível ser mulher evangélica e defender o enfrentamento à violência contra as mulheres, a igualdade de gênero, o combate ao racismo e políticas públicas de proteção e autonomia.”

A pesquisadora Maria Carolina Barreto, do Dara, lembra que a igreja também pode ser um ambiente que desperta o interesse em política. Costuma haver entre as mulheres, no entanto, uma forte rejeição quando líderes religiosos defendem partidos e candidados específicos. Segundo a pesquisadora, elas preferem agir de forma autônoma e pesquisar por si mesmas suas preferências.

Mesmo com elas ganhando destaque no cenário político nacional, a jornalista Luciana Petersen aponta que ainda existe muita resistência, tanto nos partidos quanto entre o eleitorado, a mulheres negras no geral, e não só evangélicas, ocuparem cargos de poder. “Temos figuras importantíssimas, como Marina Silva, Benedita da Silva e Eliziane Gama, mulheres negras evangélicas que chegaram aos parlamentos e fazem trabalhos históricos e relevantes. Elas não privilegiam só o seu grupo religioso, mas toda a população brasileira.”

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